
O presente artigo tem por objetivo evidenciar a urgência de resgatar a filosofia e colocá-la no cerne da pesquisa acadêmica como forma de combater distorções bastante vigentes no establishment acadêmico atual—distorções como o cronocentrismo e o reducionismo. Para isso será descrita a diferença entre ciência e filosofia, e a pertinência desta última para as mais diversas áreas.
Guilherme Faria Lopes
Status Quaestionis
Em qualquer estudo sistemático sobre determinado assunto é imprescindível a apresentação do Status Quaestionis do problema a ser abordado, isto é, a forma como a questão se desenvolveu até chegar nos dias atuais. Pois assim torna-se transparente o panorama de tudo que já foi dito sobre o tema e a partir disso uma nova luz sobre o tema pode ser lançada. Porém, muitos fazem esse retrospecto de maneira errada, contam o desenrolar das ideias como se fossem preparação para a ideia certa, que, não à toa, são suas próprias ideias.
Pelo menos desde o Iluminismo, o homem moderno tem dentro de si uma forte crença no progresso. Acreditava-se que se o homem fizer uso de sua razão, a tendência seria uma melhora nos costumes e no pensamento com o passar do tempo, então nesse sentido que se observa que antes havia escravidão e agora não há mais, antes acreditava-se que a terra era plana e hoje ninguém crê nisso. Tal crença permanece firme até o momento de agora e pode ser facilmente associada com a ideia do cronocentrismo, pois se as coisas tendem a melhorar com o tempo, então o tempo hodierno será sempre melhor que as épocas em matéria de moral, mentalidade, entre outros aspectos—algo que nem sempre é verdade. Ora, uma das funções do Status Quaestionis deveria ser justamente pôr em perspectiva o pensamento de nossa época ao nos situar para fora dela; mas para isso ocorrer é preciso entender os autores do passado por eles mesmos, sem juízos prévios. Em contrapartida, o cronocentrismo se revela na maneira muitas vezes presunçosa de apresentar autores de um passado longínquo. A maneira presunçosa de tratar esses autores foi muito bem denunciada pelo filósofo Artur Schopenhauer (2024, pág.19):
A cada trinta anos, desponta no mundo uma nova geração. Pessoas que não sabem nada e agora devoram os resultados do saber humano acumulado durante milênios, de modo sumário e apressado, depois querem ser mais espertas que todo o passado. É com esse objetivo que tal geração frequenta a universidade e se aferra aos livros, sempre os mais recentes, os de sua época e próprios para sua idade. Só o que é breve e novo! Assim comoé nova a geração, que logopassa a emitirseus juízos.
Para complementar esse aforismo, ainda pode ser citado outro, também de Schopenhauer (2024, págs.59-60):
Não há nenhum erro maior do que o de acreditar que a última palavra dita é sempre a mais correta, que algo escrito mais recentemente constitui um aprimoramento do que foi escrito antes, que toda mudança é um progresso.[…] Por isso, quem quer se instruir a respeito de um tema deve se resguardar de pegar logo os mais novos a respeito, na pressuposição de que as ciências estão em progresso contínuo e de que, na elaboração desse livro, foram usadas as obras anteriores. De fato elas foram, mas como? Com frequência, o escritor não entende a fundo os livros anteriores, além do mais não quer usar exatamente as mesmas palavras, de modo que desfigura e adultera o que estava dito neles de modo muito mais claro e apropriado, uma vez que foram escritos a partir de um conhecimento próprio e vívido do assunto. Muitas vezes esse escritor deixa de lado o melhor do que tais obras revelaram, seus mais precisos esclarecimentos a respeito do assunto, suas mais felizes observações, porque não reconhece o valor dessas coisas, não sente sua relevância. Só tem afinidade com o que é superficial e insípido.
Ou seja, quem quer que se guie pelo método de começar primeiro pelo o que é mais novo terá de confiar na avaliação de terceiros acerca de todo o desenvolvimento das ideias ao longo da história humana, em vez de ele mesmo conferir as fontes originais em primeira mão. O problema será quando todos pensarem dessa mesma forma e aí as pequenas distorções se acumularem até o produto final ser impreciso, na melhor das hipóteses.
Por outro lado, é fácil reconhecer que esse tipo de postura se deve ao prestígio da ciência na sociedade contemporânea. Mas também deve-se reconhecer que a filosofia é uma disciplina com suas peculiaridades em relação às ciências.
Primeiramente, em áreas como medicina, neurociência e geologia—em suma, das hard sciences—faz sentido se guiar sempre pela literatura mais atualizada, pois são áreas de pesquisa intensa nas quais uma descoberta leva a várias outras de modo que se tem uma produção de conhecimento num ritmo exponencial. Daí que vemos muitas vezes livros dessas áreas escritos há poucas décadas sendo mencionados como ultrapassados.
Porém, não podemos adotar a mesma postura com a filosofia porque ela não avança em suas questões do mesmo jeito que a ciência. Enquanto a ciência segue uma trajetória linear, a filosofia segue uma trajetória circular, que volta recorrentemente às mesmas questões, aprofundando a resposta anterior. A ciência vive das constantes revisões feitas aos modelos científicos, e isso leva ao aprimoramento desses modelos. E por mais que nunca se chegue a um modelo inquestionável, no meio do caminho vão sendo descartadas hipóteses que se mostraram implausíveis. Em comum, a filosofia também vive de uma eterna autocrítica, mas mesmo isso feito de uma forma diferente. Para começar, a filosofia não opera com os mesmos métodos que os da ciência, devido à própria natureza de suas questões. Perguntas do tipo ‘‘como se originou o Universo?’’, ‘‘como a alma se relaciona com o corpo?’’ e ‘‘há vida após a morte?’’ não poderiam ser investigadas pelos instrumentos da ciência, porque suas respostas não podem ser comprovadas ou refutadas experimentalmente.
Tais questões podem ainda ser respondidas pela razão mas nunca satisfatoriamente. Isto quer dizer que, desde que elas foram feitas pela primeira vez, elas continuam a ocupar os filósofos que, com base nas respostas de seus antecessores, formulam suas próprias respostas que durante toda a vida eles vão reformulando. Nesse sentido que a filosofia segue um itinerário circular: nunca acontece de uma questão filosófica se tornar ultrapassada como pode, por exemplo, a questão do formato da terra deixar de fazer sentido. Portanto, uma resposta filosófica não pode prescindir das respostas anteriores, pois assim ela não vai estar acompanhando o estágio de aprimoramento da questão. Isso tudo fornece ao estudante de filosofia uma orientação simples a princípio: começar pelo começo.
Todas as questões da filosofia foram esboçadas por Platão e, a começar por Aristóteles, todo o resto foi se desenrolando a partir disso. Bem conhecida é a frase de A.N. Whitehead: ‘‘a filosofia ocidental inteira se resume a Platão e notas de rodapé a Platão’’. E realmente, não é possível falar de filosofia sem falar de Platão, pois ele não só pensou todas as questões relevantes para o homem como também apresentou a maneira de pensá-las através de sua escrita em diálogos. Em seus livros, Platão mostra a filosofia acontecendo como algo vivo entre dois interlocutores e observamos o empenho de duas cabeças em responder questões que vão exigindo respostas mais elaboradas. Assim, Platão fornece o modelo de como a dialética move o raciocínio filosófico, de modo que alguém que tenha lido boa parte dos diálogos platônicos pode dizer que sabe o que é filosofia.
Também com Aristóteles podemos ter isso. O filósofo mostra como se filosofa na medida em que apresenta sua própria filosofia por meio da dialética com que ele inicia suas investigações ao retomar o pensamento de seus antecessores(mais uma vez o status quaestionis). Só para reiterar o que foi dito anteriormente, filosofia e ciência tratam de coisas diferentes apesar de intersecções entre as duas. Portanto, certos erros na física aristotélica não podem ser usados diretamente como refutação de sua metafísica de fundo; e, quando bem analisadas, vê-se que a correção desses erros em pouco ou em nada afeta os princípios centrais de Aristóteles, como ato e potência, e nem a cosmovisão simbólica vigente de sua época. Logo, o estudante de filosofia não precisa ter receio das supostas ilusões que a ciência moderna tanto se gaba de ter superado. Como diz o Olavo de Carvalho (2015, pág186):
Uma das conquistas de que se gaba a ciência renascentista é ter refutado a física aristotélica num ponto determinado: a circularidade das órbitas planetárias. Mas, se Aristóteles estava manifestadamente errado nesse detalhe e mesmo em em muitos outros, nem por isto terá sido sensato atirar ao lixo, junto com eles, o arcabouço teórico e metodológico da sua Física, manifestadamente superior, em realismo e profundidade, ao platonismo à outrance dos físicos renascentistas.
Mais uma diferença entre filosofia e ciência é que a filosofia busca uma visão integral da realidade enquanto a ciência faz recortes da realidade. Toda ciência se qualifica por delimitar seu objeto de estudo assim como seus métodos e sua terminologia própria, porque considerar uma realidade em seu todo a tornaria incompreensível. A neurociência, por exemplo, se ocupa de estudar as estruturas cerebrais. Os fatores genéticos, contudo, não deixam de afetar nos processos neuronais, apenas não são levados em conta porque não é da competência da neurociência tratar delas.
Isso mostra como que na realidade estão em jogo uma enorme multiplicidade de causas que são separadas em diversos tipos pelas ciências, e quando um especialista toma sua própria especialização como absoluta—isto é, quando toma seu recorte como o todo—ele incorre em reducionismo. Um exemplo comum disso é também o da neurociência. O próprio Viktor Frankl (2019, págs.57-58) ‘‘como neurólogo, [convém] que é absolutamente legítimo considerar o computer como um modelo, digamos, para o sistema nervoso central. O erro está apenas na asserção segundo a qual o homem não é nada mais que um computer, pois é ao mesmo tempo infinitamente mais do que um computer’’. Ou seja, num primeiro momento considera-se apenas os neurônios e depois é dito que apenas os neurônios existem, o salto de uma afirmação para a outra faz-se evidente. Mais um exemplo comum disso é o reducionismo genético, no qual é feito o mesmo movimento: considera-se apenas os genes para depois dizer que há apenas os genes e que eles nos determinam.
Por outro lado, uma vez que a filosofia busca uma visão integral da realidade—diferente da ciência, que faz recortes da realidade—, ela é uma disciplina extremamente versátil que pode utilizar-se das demais ciências, apesar de todas as diferenças traçadas até agora.
Ciências Naturais
Vejamos, por exemplo, como a filosofia se faz presente nas ciências naturais.
Todos sabem da raiz que as ciências da natureza tem na filosofia, raiz que se evidencia pela quantidade de conceitos que as ciências particulares herdaram da filosofia—dinâmico e estático para a física e gênero e espécie para a biologia, a título de exemplo. Isso não significa, no entanto, que certas questões dos primórdios da filosofia natural se transportaram para o âmbito exclusivo das ciências, como muitos podem achar.
Entre os primeiros filósofos gregos surgiu a clássica questão de se a matéria pode ser dividida ad infinitum ou se ela chega numa unidade indivisível. Os estóicos eram partidários da primeira opção, enquanto que os atomistas e epicuristas, claramente, da segunda opção. Nesse caso, de fato podemos dizer que isso se tornou questão da química, e ainda mais com o advento da física quântica, que concebeu partículas até menores do que o átomo(e que portanto já não são átomos no sentido original da palavra). Mas isso no que se refere à questão em si, que é inteiramente científica; nas implicações do que esses resultados significam para nossa concepção da natureza ainda é pertinente o papel da filosofia.
Wolfgang Smith (2024, págs.152-153) explica que, para os teóricos que partiam da visão tradicional de que a matéria é apenas uma soma de partes, a descoberta desta partícula fundamental corresponderia à descoberta da realidade suprema. Até o início do século XX ainda se tinha esperança de que esse dia chegaria em breve; porém, “com a descoberta do reino quântico, a física entrou em um estado de crise: seu pressuposto fundamental foi, de certa forma, refutado. Essa premissa é o atomismo, a noção de que a realidade de um todo reside nas suas partes mais ínfimas”. Isso porque as partículas subatômicas descobertas não eram partículas concretas dotadas de qualquer substância mas simples função de onda e distribuição de probabilidades, que Werner Heisenberg associou com as potentiae aristotélicas.
Do mesmo jeito, o advento dos modelos cosmológicos podem nos sugerir que também a clássica questão cosmológica de se o universo foi criado ou sempre existiu tornou-se uma questão científica. O mais conhecido desses modelos cosmológicos é o do Big Bang, segundo o qual toda a matéria do universo esteve concentrada num único ponto em determinado momento do tempo até que ele explode e passa a se expandir, dissipando matéria e energia. As pessoas costumam tomar o Big Bang como a origem do universo e pensar em compatibilizar isso com a ideia tradicional de criação, o que remonta à cosmogênese hebraico-cristã de criação ex nihilo ou mesmo ao argumento aristotélico do primeiro motor imóvel. Mas, para as pessoas que não interpretam o Big Bang como explicação da origem do universo, é possível ainda tentar compatibilizar essa teoria com a visão de um universo eterno, isto é, que nunca foi criado, sempre existiu.
Em todo caso, “nessa discussão estão em jogo conceitos filosóficos como os de informação, de leis[físicas] e do nada[isto é, o nada metafísico], e assim o recurso a filosofia parece inevitável. Seria interessante compreender, por exemplo, se no nada podem existir leis, se as leis podem ser entendidas como causas que produzem o ser, se o conceito de autocriação é ou não contraditório” (Berti, 2013, pág.28). Assim podemos dizer que trata-se ainda de uma questão filosófica.
Psicologia e Sociologia
Vejamos agora como a filosofia se faz presente no âmbito das ciências humanas, particularmente da psicologia e sociologia. Para abordarmos a origem das ciências humanas, é inevitável mencionarmos Auguste Comte e sua ideia do positivismo. Comte foi o primeiro a sugerir a ideia de uma ciência que explicasse os fenômenos humanos à semelhança de como faziam as ciências naturais. Como diz o filósofo britânico Roger Scruton (2022, pág.134):
Auguste Comte, o pai da sociologia, foi um pensador ingênuo e superficial. Mas tinha uma preocupação com a verdade e faro para problemas. Sob a sua tutela, a sociologia, não permaneceu um sonho acadêmico, mas estabeleceu-se como ciência. Comte foi seguido por quatro grandes homens—Marx, Durkheim, Pareto e Weber—, cada um dos quais forneceu conceitos e observações indispensáveis para uma compreensão plena da condição moderna. Além disso, na fértil área comum da sociologia e da filosofia floresceram argumentos e ideias que tocam nas preocupações mais profundas e duradouras da humanidade.
Não só a sociologia como também a psicologia sofreu grande influência do ideal positivista, como se pode ver em Wundt, Titchener e no Behaviorismo de maneira geral. Essa raiz comum de todas as ciências sociais já nos apresenta um fato essencial sobre elas: que seus métodos não provém de delas próprias. Nesse momento, contarei com muita ajuda do fenomenólogo Karl Jaspers (2002, pág.91): “Nem a psicologia e nem a sociologia dispõe de fundamento científico próprio. Quem se dedique a pesquisas em tal campo deve possuir treinamento científico especializado, seja em filologia, história, direito, fisiologia, medicina, teologia ou qualquer outro setor. Sem tal base, a pessoa se perderá em parolagem vazia”.
O princípio de que a ciência trabalha com recortes da realidade permanece válida para as ciências humanas, e portanto a relação entre elas é similar à conexão intrínseca das ciências naturais. Pequemos um objeto simples como a água. A água pode ser estudada do ponto de vista físico quando observamos se ela está em estado sólido, que é o gelo, em estado líquido ou em estado gasoso, que é o vapor, assim como pode ser estudada do ponto de vista químico quando a concebemos como uma molécula de três átomos, dois de hidrogênio e um de oxigênio. Essa estrutura química permanece a mesma em quaisquer estados físicos mencionados anteriormente, mudando apenas o grau de agitação entre as moléculas. Ou seja, podemos tomar esses aspectos distintos separadamente mas eles nunca deixam de existir um para o outro na realidade que em si é una, e isso permite o entrosamento entre as ciências.
Nas ciências humanas ocorre algo similar. Tomemos como exemplo dessa vez a família. A família pode ser estudada enquanto forma de instituição social e nesse caso será objeto de estudo da sociologia. Ou, num nível individual, podemos estudar a formação do ego de um integrante específico dessa família desde seu nascimento até sua maturação, e nesse caso teremos uma psicologia. Ambos os aspectos são reconhecíveis mas coexistentes numa mesma realidade.
Outro exemplo é a religião, que também pode ser estudada enquanto instituição social, como de fato foi estudada sob esse aspecto logo pelos clássicos (Durkheim, Weber e Marx), que em comum dedicaram parte de suas obras ao estudo da religião. Porém, isso em nada afeta questões de teologia discutidas no seio da própria religião, de forma alguma a sociologia suplanta a religião, isto é, a explica de maneira melhor que a própria religião. Essa pretensão totalizante é o que está sendo criticada aqui—e não a ideia em si de cada ciência, que são todas legítimas—como algo inadimissível tendo em vista o caráter complementar das ciências.
A solução para não cair nesse perigo está na filosofia. Podemos finalizar essa sessão com o seguinte trecho de Karl Jaspers (2002, págs.92-93) que basicamente sintetiza tudo o que estou querendo dizer:
Em 1931, nas páginas de meu livro Die geistige Situation der Zeit(“A Situação Espiritual de Nosso Tempo”) deixei dito que o marxismo, a psicanálise e o racismo (portanto, em termos mais gerais, a sociologia, a psicologia e a antropologia biológica) são—desde o momento em que perdem o caráter científico para se tornarem concepções do mundo—os três grandes adversários espirituais do homem de nossa época. Contra eles só podemos defender- nos recorrendo à filosofia, atividade a que todo homem se entrega, mas que se esclarece pelo trabalho dos filósofos, que a explicitam e sistematizam. […] Tão logo ultrapassam as fronteiras científicas em que deveriam conter-se, psicologia e sociologia revelam tendências de degradar o homem. Apresentam a fé e a verdade como simples fenômenos psicológicos. E como fé e verdade são inacessíveis enquanto objetos empíricos de investigação, a psicologia e a sociologia os consideram destruídos. Tudo o que resta é a fé falsa e difusa característica daquelas ciências.
A História da Filosofia
Todas essas observações nos levam para a importância da história da filosofia. A este respeito, Hegel, em sua Introdução à História da Filosofia, fornece conselhos valiosos acerca de como encarar a história da filosofia, conselhos que podemos acolher mesmo se não partilharmos de sua perspectiva idealista de fundo. Em primeiro lugar, Hegel critica os ditos eruditos por tratarem o pensamento passado como um acervo de opiniões mortas e assim acumulam ‘‘uma multidão de coisas inúteis, isto é, coisas que, por outro lado, não têm em si mesmas nenhum conteúdo e interesse a não ser o conhecimento das mesmas’’(2006, pág.26). Então, por exemplo, se uma pessoa dessa índole aprende que a ontologia aristotélica tem sua base na noção de substância, o que fica de conhecimento para ela é… isso mesmo: que a ontologia aristotélica tem sua base na noção de substância.
Outra forma de dizer isso é que tais eruditos aprendem sobre os pensadores antigos, não aprendem com os pensadores antigos. Mesmo quando eles citam autores clássicos é apenas para reconhecer sua relevância histórica, deixando claro que eles não os levam a sério realmente. Levam a sério sim os modismos do momento e à luz desses modismos julgam todo o passado, o que nos leva de volta àquela citação inicial de Schopenhauer. Roger Scruton diz que ‘‘salientar, por exemplo, que as virtudes cardeais defendidas por Aristóteles são tão parte da felicidade das pessoas modernas como o eram para os gregos é um convite à incompreensão. O melhor que os estudantes modernos conseguem gerir é a curiosidade: eles reconhecerão que era assim que eles viam a questão. Mas nós não somos eles”(2024, pág.119).
Em segundo lugar, Hegel nota que a filosofia nada tem que ver com opiniões, que, em seu sentido original de doxa[1], significam juízos das coisas tal como parecem ser para o indivíduo e que, portanto, são tão circunstanciais e provisórias quanto o indivíduo. Ao contrário, apenas interessa à filosofia o que há de eterno e imutável acerca do mundo. E claro que, num primeiro momento, pode parecer ao iniciante nos estudos filosóficos que a própria multiplicidade de filosofias desmente tal pretensão. Porém, é justamente essa pretensão ao eterno o que se vê presente em todas elas, primeiro no sentido de que nenhum filósofo procura falar sobre o que é fortuito. Mesmo o materialista vai estar afirmando a eternidade da matéria.
Sempre foi claro para os filósofos que a Verdade necessariamente tem de ser Una, perene e imperecível, as discordâncias entre eles se dão em dizer no que consiste essa Verdade. Mas nesse caso ainda é possível dizer que, se cada doutrina acredita estar com essa Verdade e a reivindica para si, então ou a Verdade não existe fora dessas doutrinas (relativismo), ou, se há aquela que é a certa, não é possível determinar qual é (ceticismo). Mesmo essas duas posições, bem interligadas entre si, foram defendidas, no mundo antigo, pelos céticos e sofistas, e, na modernidade, pelas filosofias de tendência idealista subjetivista. Em resposta a isso, podemos citar o filósofo brasileiro Mário Ferreira dos Santos (2025, pág.79):
Para estes, a filosofia é um campo de demonstrações verossímeis, de asserções dominadas pela doxa, pela opinião, que apesar da base teórica, não são suficientes, contudo, para assegurar ao homem a certeza, o assentimento firme da mente humana sem temor de erro. Entretanto, por muito ponderáveis e respeitáveis que sejam estas opiniões, estamos certos de que a obra que realizamos evidenciou, de modo categórico e indiscutível, que a busca das positividades, na filosofia, era possível do modo como havia sido feita.
Por positividades Mário se refere à via da demonstração que os mais diversos sistemas filosóficos edificaram ao longo do tempo. Através dela esses sistemas demonstraram muitos postulados que apenas se opõe quando tomados absolutamente, enquanto que na verdade correspondem a positividades que podem ser unidas num sistema maior e coerente. Mais do que isso, Mário acredita que isso ocorre porque todas essas positividades tem sua raiz naquilo que ele chamou de filosofia concreta.
No que tange às fontes, Hegel está em sintonia com Schopenhauer ao explicar o porquê de ser melhor sempre se ater às fontes primárias, que são as próprias obras dos filósofos, quando possível. ‘‘As fontes genuínas são as obras dos próprios filósofos. Em geral, as próprias obras originais são muito mais compreensíveis do que seus extratos e comentários. […] Cedo se obtém, pois, um tato quando se estuda as obras dos filósofos. O estudo das fontes tem a vantagem de se familiarizar com as determinações no status nascendi. Em geral, as ideias nas obras originais são muito mais determinadas e surgem muito mais facilmente compreensíveis’’(2006, pág.247).
Outro ponto interessante de observarmos é que a filosofia é indissociável de sua história, diferente de como acontece em outras ciências. Não é preciso estudar história da física para estudar física, nem estudar história da botânica para estudar botânica, ou seja, tanto num caso como no outro tratam-se de duas coisas distintas, e assim é com todas as demais ciências. Segundo o filósofo espanhol Julian Marias, isso ocorre porque “a ciência se constrói partindo de um objeto e do saber que num determinado momento se possui sobre ele. Na filosofia, o problema é ela mesma; além disso, esse problema se formula em cada caso segundo a situação histórica e pessoal em que se encontra o filósofo, e essa situação está, por sua vez, determinada em grande medida pela tradição filosófica em que se encontra inserido todo o passado filosófico já incluído em cada ação de filosofar”(Marias, 2004, pág.7). Mais adiante, ele reforça o que eu havia dito antes sobre a diversidade de teses filosóficas, sua historicidade, a Verdade e como isso tudo se concilia:“Mas isso não significa que a verdade da filosofia não interesse, que a filosofia seja considerada simplesmente como um fenômeno histórico para o qual é indiferente ser verdadeiro ou falso. Todos os sistemas filosóficos têm pretensão de verdade; por outro lado, é evidente o antagonismo entre eles, que estão muito longe de coincidir, mas esse antagonismo não quer dizer incompatibilidade total. Nenhum sistema pode pretender uma validez absoluta e exclusiva, porque nenhum esgota a realidade, na medida em que cada um se afirma como único, é falso. Cada sistema filosófico apreende uma porção da realidade, justamente a que é acessível do ponto de vista ou perspectiva; a verdade de um sistema não implica a falsidade dos demais, exceto nos pontos em que formalmente se contradigam; a contradição só surge quando o filósofo afirma mais do que realmente vê; ou seja, as visões são todas verdadeiras—e em princípio não se excluem”(Marias, 2004, pág.8).
Referências Bibliográficas
SCHOPENHAUER, Arthur. A Arte de Escrever, Porto Alegre: L&PM, 2024.
CARVALHO, Olavo de. O Jardim das Aflições. 3ª.ed Campinas, SP: Vide Editorial, 2015. FRANKL, Viktor. Psicoterapia e Sentido da Vida. 7ª.ed São Paulo: Quadrante, 2019.
SMITH, Wolfgang. Física: uma ciência em busca de uma ontologia. 1ª.ed Campinas, SP: Vide Editorial, 2024.
BERTI, Enrico. Convite à filosofia, São Paulo: Edições Loyola, 2013. SCRUTON, Roger. A Cultura Importa, São Paulo: LVM Editora, 2024.
___________, Contra a Corrente, Coimbra–Portugal: Edições 70, 2022.
JASPERS, Karl. Introdução ao Pensamento Filosófico. 16ª.ed São Paulo: Editora Cultrix, 2002.
HEGEL, G.W.F. Introdução à História da Filosofia. 1ª.ed Lisboa: Edições 70, 2006. SANTOS, Mário Ferreira dos. Pitágoras e o Tema do Número. 2ª.ed São Paulo: Editora Ibrasa, 2000.
MARIAS, Júlian. História da Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
[1] A distinção entre Doxa e Episteme é feita por Platão na República, Livro V, 473a-480a, acompanhada por uma distinção entre o filósofo e o filodoxo. Doxa é o juízo acerca do que é múltiplo e efêmero, e filodoxo quem se dispersa nessa multiplicidade sem enxergar a unidade por trás. Enquanto que Episteme é o conhecimento acerca do que é eterno e invariável, é o conhecimento que o filósofo busca. Também Pitágoras, ‘‘segundo os documentos que dispomos, afirmava sempre aos discípulos a diferença que se devia estabelecer entre doxa e epistheme’’(Santos, 2000, pág72).







