
O Divino Feminino personificou-se, manifestando-se ao longo das eras sob as formas de Śakti (o poder de Deus), de Deusas, fadas, ninfas, espíritos da floresta etc. Este ensaio busca explorar o diálogo entre as escolas metafísico-filosóficas indianas que conceberam o Divino Feminino na Índia medieval, na Caxemira, e o Movimento da Deusa contemporâneo, que procura reinterpretar as visões das antigas tradições pagãs — cuja experiência mística central era o culto da Grande Mãe — à luz do feminismo moderno, integrando assim diversas crenças antigas, neopagãs e modernas.
Raiana Silva Novaes de Campos
Nas tradições filosóficas da região da Caxemira, na Índia medieval do século IX d. C., emergiram algumas das concepções mais fascinantes e metafisicamente sofisticadas acerca do Divino Feminino, natureza da Consciência, Identidade e as suas relações com o Absoluto. O princípio védico “Ātman (o Espírito) é Brahman (o Absoluto)” revela que há uma igualdade de identidade ontológica entre a Consciência-testemunha e o Absoluto universal – a culminação da realização espiritual (Moksha) máxima almejada nessas doutrinas. As raízes de tais concepções estão nos Vedas, escrituras sagradas que datam de meados 1500 – 1200 a. C.
A Deusa suprema Vāk através de Sua revelação no Devī Sūktam, o 125º sūkta (hino) que ocorre no 10º mandala do Rigveda, expressa toda a concepção védica de Divino Feminino. Vāk é a Palavra e por meio Dela tudo se manifesta, o mundo é o Seu corpo. Essa escritura é a base védica da tradição Śakta; onde a Śakti é o Absoluto, sobrepujando até mesmo Śiva, que desaparece, Se dissolve no poder de Mahādevī (Grande Mãe), a Mãe Divina.
Eu sou a Rainha,
a acumuladora de tesouros, a mais atenciosa, a primeira entre aqueles que merecem adoração.
Eu abundo em riquezas o zeloso sacrificador que derrama o suco e oferece sua oblação.
Assim, os Deuses me estabeleceram em muitos lugares, com muitas moradas para entrar e habitar.
Somente por meio de mim todos comem o alimento que os nutre – cada homem que vê, respira, ouve a palavra proferida.
Eles não o sabem, contudo, habitam ao meu lado. Ouçam, todos, a verdade como eu a declaro.
Eu, em verdade, anuncio e pronuncio a palavra que Deuses e homens acolherão.
Eu torno o homem que amo extremamente poderoso, faço dele um sábio, um Rishi e um Brâmane.
Eu curvo o arco para Rudra, para que sua flecha atinja e mate o inimigo da devoção.
Eu incito e ordeno a batalha pelo povo, e penetrei na Terra e no Céu.
No ápice do mundo, eu trago à luz o Pai: minha morada está nas águas, no oceano.
Daí, estendo-me sobre todas as criaturas existentes e toco até mesmo o céu com minha testa.
Respiro um forte sopro como o vento e a tempestade, enquanto sustento toda a existência.
Além da vasta terra e além dos céus, tornei-me tão poderosa em minha grandeza.
Movimento-me com Rudras e Vasus, com Ādityas e Visvedevas,
Mitra e Varuņa, Indra e Agni, eu sustento, e os dois Aśvins.
Sustento Soma, Tvaşțr, Pūşan e Bhaga,
o Vishnu de passos largos, Brahma, Prajāpati.
- Devi Sukta, Rigveda 10.125.3 – 10.125.8
Séculos mais tarde, irromperam diversas visões filosóficas na índia medieval caxemire, herdeiras dessa perspectiva védica do Divino Feminino. Na darśana (visão metafísico-filosófica) da Pratyabhijñā, a chamada Escola do Reconhecimento, a Consciência é Śiva; o Absoluto estático, imanifesto, o fundamento sem forma de toda a Realidade. Enquanto a Śakti é a forma manifesta do Absoluto, o poder de Deus de se manifestar criativamente. E, assim, toda a realidade é o Um, não há nada fora da Consciência Suprema, que abarca e ao mesmo tempo transcende, a dualidade e a não-dualidade; uma perspectiva não-dualista todo-abrangente.
Nesse contexto, o Devī Māhātmyam, texto sagrado base da tradição Śakta, foi incorporado ao Mārkaṇḍeya Purāṇa mais ou menos no século X ou XI d. C. Segue um trecho belíssimo dessa escritura, que manifesta com densidade poética as intuições profundas do feminino como divino:
Quem é essa Deusa?
Em forma, assemelho-me a Brahman;
de mim emana o mundo,
que possui o Espírito de Prakriti e Purusha;
sou vazio e não vazio,
sou deleite e não deleite,
sou conhecimento e ignorância,
sou Brahman e não Brahman.
— Devi Mahatmyam
Na darśana da linhagem Spanda, o realizado experimenta o Si-Mesmo (Eu espiritual), a eterna pulsação, o poder divino e a vibração da Consciência Suprema. A união entre Śiva e Śakti. O Absoluto e o Si-Mesmo são a Consciência, que é a mais elevada realidade (paramārtha), uma “massa compacta de consciência e beatitude (cidānandaghana)”. E, portanto, não há nada que não seja a Consciência e nenhuma distinção ontológica entre o Absoluto e Suas manifestações. Desse modo, existe uma simultaneidade metatemporal entre a transcendência e a imanência do divino.
Prakaśa é a luz da Consciência (Śiva), Vimarśa é a Consciência refletindo sobre si mesma, autorreflexiva (Śakti). Śiva é o espaço luminoso no qual os fenômenos aparecem, Śakti é o prāṇa (Spanda), a energia que vitaliza esse espaço; assim sendo, é a Śakti que dá forma a Śiva e Eles vivificam-se em uma dança de alternância, a dança da Realidade Suprema.
Já na Europa moderna do século XIX, algumas das feministas da primeira onda começaram a se debruçar sobre a investigação do Divino Feminino nas sociedades pré-cristãs ocidentais. Esse fenômeno foi o germe para o nascimento do neopaganismo e do Movimento da Deusa como movimentos místicos, intelectuais, políticos e culturais, que surgiram nos anos 60 e 70 com as feministas da segunda onda. Naquele contexto, publicações de autoras como Carol P. Christ e Merlin Stone, que investigavam o matriarcado do mundo antigo sob influência das descobertas arqueológicas e interpretações de Marija Gimbutas, foram cruciais para a tentativa de erigir alicerces sólidos para as especulações acerca da chamada religião da Deusa.
O Movimento da Deusa e o neopaganismo não possuem metafísicas profundas, robustas e sofisticadas como as darśanas do Śaivismo da Caxemira, pois as primeiras são visões contemporâneas bastante flexíveis, com influências de diversas filosofias; são conceitualmente plásticas e não se preocupam com uma construção epistemológica austera como as das filosofias indianas. Mas, há o valor simbólico e mitopoético em tais movimentos modernos; eles reverberam o mito do Retorno da Deusa como uma nova manifestação de reencantamento místico no mundo contemporâneo e ligação com a natureza, a Grande Mãe Terra. Também há muitos devotos sinceros e de coração aberto nesses meios, que realmente buscam amor, sentido e o Absoluto através de tradições e Deuses que estão vivos em seus corações devocionais; mesmo que tenham nascido em sociedades cristãs, abraâmicas ou seculares, que não enxergam esses Deuses como verdadeiramente existentes, vivos. Destarte, eles encontraram o encantamento que os seus espíritos ansiavam no retorno a uma cosmovisão pagã à luz de reimaginações e interpretações epistemológicas contemporâneas.
O diálogo filosófico e intelectual entre o Śivaísmo da Caxemira e o Movimento da Deusa é miticamente fértil justamente porque dá uma densidade metafísica extraordinária para amparar as cosmovisões dos movimentos místicos, culturais e políticos do Sagrado Feminino, reconstrucionismos pagãos e os neopaganismos, que emergiram, com grande paixão, em meados do século XIX e continuaram a frutificar-se no decorrer dos séculos XX e XXI.
Tais movimentos místicos do nosso tempo estão em permanente diálogo com as tradições matrifocais européias antigas e com tradições vivas como o Śaktismo, na índia e Nepal. Isto posto, o Renascimento da Deusa na contemporaneidade dialeticamente comunica-se com as antigas tradições pagãs celtas, eslavas, nórdicas, gregas e romanas, entre outras. E encontra um embasamento em religiosidades vivas, como o Śaktismo – herdeiro da concepção védica de Divino Feminino e do Śaivismo da Caxemira. Esse último rememora a Europa de que houve uma era bonita, onde o feminino era reverenciado, respeitado e visto como divino em diversas partes do mundo, inclusive no Ocidente. E que permanece vivo, desde tempos imemoriais, na religião da Deusa hindu.
Referências
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RATIÉ, Isabelle. Le Soi et l’Autre: identité, différence et altérité dans la philosophie de la Pratyabhijñā. Paris: [s.n.], 2011.
DYCZKOWSKI, Mark S. G. A doutrina da vibração: uma análise das doutrinas e das práticas do Śivaísmo da Caxemira. Tradução de João Carlos B. Gonçalves. [S.l.]: [s.n.], 2023.
LIMA, Danillo Costa. Um ou muitos deuses? Um ensaio sobre a teologia védica (parte 2). [S.l.]: [s.n.], 2020.
CHRIST, Carol P. O renascimento da deusa: encontre o significado da espiritualidade feminista. [S.l.]: [s.n.], 2024.
STONE, Merlin. Quando Deus era mulher. [S.l.]: [s.n.], 2022.
WALLIS, Christopher. O tantra iluminado: filosofia, história e práticas de uma tradição atemporal. [S.l.]: [s.n.], 2018.
PITCHMAN, Tracy. The rise of the goddess in the Hindu tradition. Albany: State University of New York Press, 1994.








