Nachmânides e a disputa de Barcelona

O antigo bairro judaico de Girona.

Ele observou o quanto as questões sobre messias tinham menos importância dogmática para os judeus do que para a maioria dos cristãos.

Estevan de Negreiros Ketzer

Psicólogo Clínico (PUCRS). Mestre e Doutor em Letras (PUCRS). Email: [email protected]

Ao mostrarmos um pouco da vida de Rabi Moshe ben Nachman, Nachmânides ou também conhecido pelo acróstico Ramban, estamos diante de um dos mais importantes rabinos de todos os tempos. Nascido em Girona em 1194 teve forte formação rabínica, sendo registrados seus grandes mestres, tanto no Talmud com Judah ben Yakar e Nathan ben Meir, quanto em Cabala por Azriel de Girona, o qual foi discípulo de Isaac, o Cego, o suposto autor do Bahir (Livro da Iluminação).

Talvez os ensinamentos de Ramban assustassem muito por serem profundamente místicos. A Cabala desperta na Espanha da mesma forma que o mundo dos judeus que se convertem ao cristianismo (anussim) recria toda a forma de pensar o que é ser judeu. O ensinamento místico renova em seu tempo os 613 mandamentos (mitzvot) da Torá. Ele mostra algo mais sagrado do que apenas seguir as regras compactuadas na Torá. Portanto, ele defende a maestria de Maimônides, cuja codificação na Mishne Torá deve ser guia para todo o judaísmo, enquanto o Guia dos Perplexos uma forma de orientação espiritual mais profunda para aqueles que se desviaram pelo mundo do paganismo grego.

Não menos importante foi a Disputa de Barcelona em 1263, na qual ele foi convocado para representar a comunidade judaica da Catalunha no debate iniciado por Pablo Christiani, um judeu convertido ao cristianismo. Nesse debate foram discutidos três assuntos:

  1. se o Messias havia aparecido;
  2. se o Messias anunciado pelos profetas deveria ser considerado divino ou um homem nascido de pais humanos.
  3. se os judeus ou os cristãos possuíam a verdadeira fé (JACOBS; BACHER; BROUDÉ, 2026).

Christiani argumentou, com base em diversas passagens do Talmud, o quanto os sábios fariseus acreditavam que o messias (maschiach) era Jesus. Nachmânides contestou, afirmando que as interpretações de Christiani eram distorções, pois, os rabinos não insinuariam que Jesus era o messias enquanto, ao mesmo tempo, se opunham explicitamente a ele como tal. Ele afirmou ainda que, se os sábios do Talmud acreditassem que Jesus era o Messias, certamente seriam cristãos e não judeus, e o fato de os sábios do Talmud serem judeus é indiscutível. Nachmânides então contextualizou os textos bíblicos citados por Christiani, mostrando a interpretação de Christiani como claramente diferente dos sábios da era tanaíta. Além disso, Nachmânides demonstrou, a partir de inúmeras fontes bíblicas e talmúdicas, diante a crença judaica tradicional as contradições aos postulados de Christiani.

Nachmânides argumentou que os profetas bíblicos consideravam o futuro messias como um ser humano, uma pessoa de carne e osso, e não como divino, da maneira como os cristãos veem Jesus. Ele afirmou que suas promessas de um reinado de paz e justiça universais ainda não haviam sido cumpridas. Desde o aparecimento de Jesus o mundo estava repleto de violência e injustiça, e que entre todas as denominações, os cristãos eram os mais belicosos. Ele observou o quanto as questões sobre messias tinham menos importância dogmática para os judeus do que para a maioria dos cristãos. A razão dada por ele para esta afirmação foi acerca da importância de toda a comunidade de Israel observar os preceitos da Torá (mitsvot) sob um governante cristão, mesmo estando no exílio a sofrerem humilhações e abusos, do que sob o governo do messias, quando todos seriam obrigados a agir de acordo com a lei divina.

Como a disputa parecia pender a favor de Nachmânides, os judeus de Barcelona, ​​temendo o ressentimento dos dominicanos, imploraram-lhe que a interrompesse; mas o rei, Jaime I de Aragão, a quem Nachmânides havia informado das apreensões dos judeus, pediu-lhe que prosseguisse. A controvérsia foi então retomada e concluída no que foi considerado uma vitória completa para Nachmânides, cuja dispensa pelo rei lhe outorgou um presente de trezentas peças de ouro. O rei teve alta estima por Nachmânides, a ponto de sido surpreendido com um homem que, mesmo estando errado, argumentasse tão bem em defesa de sua posição.  A justiça de sua defesa foi reconhecida pelo rei Jaime I e pela comissão, mas para satisfazer os dominicanos Nachmânides foi condenado ao exílio por dois anos e seu texto com suas argumentações foi condenado ao fogo. Os Dominicanos, no entanto, acharam essa punição muito branda e, por meio do Papa Clemente IV , parecem ter conseguido transformar o exílio de dois anos em banimento perpétuo, indo, portanto, para Castela e, em 1267, para Jerusalém e, posteriormente para Acre (JACOBS; BACHER; BROUDÉ, 2026).

Por fim, mas não menos importante, é candente o quanto a interpretação mística de Nachmânides era vista como uma grande riqueza por muitas autoridades rabínicas, pois, “(…) o próprio misticismo utiliza os conceitos e os métodos da filosofia racionalista a fim de explicar suas doutrinas por via especulativa, o que a especulação cabalista também fez até certo grau. Não obstante, a relação da Cabala com o pensamento racionalista, especialmente com aquela sua forma que foi o aristotelismo judaico, era em sua maior parte de oposição” (GUTTMANN, 2003, p. 254). Esse mesmo aristotelismo que deu origem a escolástica francesa e ao cerceamento de toda a atividade do pensamento que não seguisse estritamente os postulados da Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino.

Conseguimos ver os ares da interpretação de cabalista de Nachmânides diante a primeira frase da Torá. Sua leitura crítica eleva nossos pensamentos a explorarem a profundidade da própria língua hebraica. Para começar a questionar, as formas ontológicas do verbo ser se apresentando ao pensamento de todos os seus intérpretes, sempre conjugado no presente do indicativo. Devemos notar o fato importante deste verbo estar ausente na língua hebraica.

No princípio Deus criou (bará) os céus e a terra (Bereshit 1 : 1).

Quando lemos atentamente a interpretação de Rashi, acrônimo do Rabino Shlomo Itzaac, desenvolveu em seu método de associação de palavras durante a Idade Média:

Gramaticamente, bereshit é um termo composto por: (1) a preposição hebraica be que significa “em”, “dentro de” ou “no”, seguida por (2) reshit, que é o estado associativo (explicado abaixo do substantivo rosh, “cabeça”, “principal” ou “início”.

A associação de palavras na língua hebraica (semichut) não tem similar na língua portuguesa, mas é similar ao “caso genitivo” na língua inglesa e consiste na conexão de duas palavras – normalmente dois substantivos – formando uma unidade semântica (BITTON, 2013 pp. 102-103).

Este fato leva a uma remoção do artigo definido e a eliminação da preposição, para que seja possível adicionar outra letra que denuncia a mudança. A composição aqui descrita ainda acompanha o hebraico moderno, como percebemos em sua construção gramatical. É chamado este estado associativo de nismach. Um verbo, independentemente de seu uso, neste caso, não pode estar isolado. A palavra antecedente (somech) depende completamente da palavra procedente (nismach) (BITTON, 2013). No caso do versículo da Torá o que está em jogo é: no princípio… mas de quê? A resposta de Rashi é uma recriar o texto, dar a ele uma semichut não existente em forma, mas em denotação, sugerindo que bereshit contenha em sua leitura um substantivo absoluto, pois a segunda palavra é bará, simplesmente porque “um verbo no tempo passado não pode ser usado numa semichut. Não se pode dizer ‘John’s wrote…’ mas pode-se usar o gerúndio e dizer ‘John’s writing’ ” (BITTON, 2013, p.105-106). Rashi reinterpreta como se ali no verso contivesse bero, criando, e impreterivelmente o verbo ganha algumas características do nome que o procederá, ficando da seguinte maneira:

No princípio da criação por Deus dos céus e da terra… (RASHI, citado por BITTON, 2013, p. 106).

Este fato vai ao encontro do trabalho de Rashi como um indispensável intérprete do texto talmúdico, cujo interesse é baseado na solução humana de problemas coletivos e exegéticos, fato este que norteia toda a vida comunal do mundo judaico, não podemos esquecer. Interpretar, é digno de nota, não deve desfazer a ideia de que há alguém que narra os fatos, tal como expõe Marc-Alain Ouaknin(OUAKNIN, 2026) em sua leitura histórica da Torá como forma de pensa-la com menos dogmas acrescentados com o passar das eras.

Contudo, é digno de nota, o fato de Rashi ter sofrido severas críticas posteriores pelo fato dele estar interpretando o texto bíblico e não o ler tal como ele foi escrito. Radak, Rabino David Kimchi, propõe que “reshit não deveria ser vista como uma semichut de rosh”, mantendo-se de forma independente no texto. Ele usa como exemplo o “versículo de Isaias 46:10, maguid mereshit acharit (‘Do princípio de deduz o final’), no qual encontramos a palavra reshit (‘início’) como um substantivo padrão” (BITTON, 2013, p.107, n.21). Esta fórmula tem por finalidade aquilo que Nachmânides acreditava como essencial para a manutenção da ideia de “tempo” (z’man), por ser este absoluto e ao mesmo tempo oculto no primeiro versículo da Torá.

Na tradição judaica o encontro com Deus não se dá de uma forma explícita ou mesmo óbvia na primeira tentativa de leitura. Não podemos nos esquecer que o fato de Deus não se apresentar, um Deus invisível como as leis éticas, é o que impele justamente o homem a encontrá-lo nas relações com seus semelhantes (KETZER, 2016). A influência de Nachmânides se estende ao próprio Emmanuel Levinas, filósofo francês de ascendência lituana, cuja releitura do Talmud o faz cada vez mais interpretar menos e dirigir-se a fatos contidos na própria língua hebraica. “O Talmud, segundo os grandes mestres desta ciência, só pode ser compreendido a partir da vida” (LEVINAS, 2003, p. 21). Nachmânides ainda nos traz uma profundidade ao texto bíblico tão simples quanto as iluminações da física de Einstein podem nos elucidar sobre a expansão do universo, o Big Bang:

“No princípio do [tempo], criou Deus os céus e a terra” (BITTO, 2013, p. 107)

Nada mais justo com a Criação a partir do nada que a existência do tempo esteja implícita no versículo. Esse fato implica toda a vida em seus detalhes, suas dúvidas e a nossa investigação impreterível em busca de uma resposta satisfatória, cuja relação seja tanto criativa quanto unida ao outro. Nachmânides continua a insuflar sua generosidade em toda a era da qual foi filho legítimo de seu próprio tempo.

Caverna no vale de Kidron onde Nachmânides foi sepultado.

Referências:

BÍBLIA HEBRAICA. Tradução de Jairo Fridlin. São Paulo: Sefer, 2006.

BITTON, Rabino Yossef. Decifrando a criação: um estudo sobre os três primeiros versículos da Bíblia. Tradução de David Grodovits. São Paulo: Editora Sêfer, 2013.

GUTTMANN, Julius. A Filosofia do Judaísmo. Tradução de Jacó Guinsburg. São Paulo: Perspectiva, 2003.

KETZER, Eestevan de Negreiros. Por uma ética do ritmo: A tradu(i)ção bíblica de Henri Meschonnic. Arquivo Maaravi, v. 10, p. 47-61, 2016.

JACOBS, Joseph; BACHER, Wilhelm; BROUDÉ, Isaac. Nahman – Moses ben Nahman Gerondi. In: SINGER, Isidore (org.).  The Jewish Encyclopedia. Nova York: Funk & Wagnalls, 1906. Disponível em: www.jewishencyclopedia.com. Acesso: 6 fev. 2026.

LEVINAS, Emmanuel. Quatro leituras talmúdicas. Tradução de Fábio Landa. São Paulo: Perspectiva, 2003.

OUAKNIN, Marc-Alain. “Eu estou tirando Deus da Bíblia”. Entrevista com Marc-Alain Ouaknin. Instituto Humanitas Unisinos – IHU, São Leopoldo, 12 de dezembro de 2019. Disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/categorias/595118-eu-estou-tirando-deus-da-biblia-entrevista-com-marc-alain-ouaknin. Acesso: 6 fev. 2026.

TORÁ VIVA. Org. trad. hebr. Rabino Aryeh Kaplan. Trad. Port. Adolpho Wasserman. São Paulo: Maayanot, 2012.

Filme:

A DISPUTA. Diretor: Geoffrey Sax. Roteiro: Hyam Maccoby. Produção: Jenny Reeks. Elenco: Alan Dobie; Bernard Hepton; Christopher Lee; Helen Lindsay; Bob Peck; Toyah Willcox.  Música: Michael Nyman. Diretor de Fotografia: Peter Middleton. Montagem: Mike Kleinsteuber. Channel Four Television Corporation, British, 1986, Son/color. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=HufLPBs8YCI. Acesso: 6 fev. 2026.

+ posts

Estevan de Negreiros Ketzer é psicólogo clínico (PUCRS), com mestrado e doutorado em Literatura (PUCRS). Realizou pesquisa nos arquivos do IMEC, na França, em 2015. Assessorou a Uniritter na implementação do curso de Escrita Criativa em 2016. É pesquisador do Núcleo de Estudos Judaicos (NEJ) da UFMG e pós-doutorando em Literatura (UFMG).

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *