
Arabi pode ter cunhado primeiro este termo referindo-se a Adão, como encontrado em sua obra Fusus al-hikam, um indivíduo ligado ao Divino e à criação. Contudo, ele o faz tal como aquele a olhar essa unidade como em um espelho.
Estevan de Negreiros Ketzer
Psicólogo Clínico (PUCRS). Doutor em Letras (PUCRS). Pós-doutorando pelo Labô – Laboratório de Política, Comportamento e Mídia / Fundação São Paulo/PUCSP
Abu Abedalá Maomé Ibn Arabi Atai Alhatimi, conhecido como Ibn Arabi, nascido em Múrcia, na Espanha em 1165, foi um grande filósofo e pensador Sufi. Seu pai era servidor público na corte de Ibn Mardanis, quando da morte do governante, ele foi transferido para o califado Almoada. Nessa mudança ele e a família vão para Sevilha. A formação religiosa de Ibn Arabi acontece durante a adolescência, quando teve uma visão de Deus (Allá). Ele afirma ter tido visões de Jesus (Issá), reconhecido por ele como um chamado para ser guiado por Deus (Allá). Seu pai conversa sobre a natureza dessas visões junto ao filósofo Ibn Ruchd, conhecido pela alcunha de Averróis, o maior filósofo islâmico da Falsafá arábe sem seu tempo. Ibn Arabi despertou suas verdadeiras intuições sobre a natureza das coisas após a conversa com Averróis, adotando o Sufismo como caminho espiritual.
Ibn Arabi viveu em Túnis a partir 1193, já com 36 anos de idade. O filósofo voltou para a Andaluzia hispânica em 1194. Seu pai morreu logo depois de chegar a Sevilha, seguido da morte de sua mãe alguns meses depois. Ele então deixou a Espanha pela segunda vez com suas duas irmãs e chegou a Fez, Marrocos, em 1195. Depois de retornar a Córdoba, Espanha, em 1198, Ibn Arabi cruzou o caminho de Gibraltar pela terceira vez em 1200 e deixou a Espanha para sempre. Ele vai viver em Meca, na Arábia Saudita, por três anos e lá escreve o seu trabalho “As Revelações de Meca” (Al-Futūḥat al-Makkiyya).
Depois de passar um tempo em Meca, ele viajou pela Síria, Palestina, Iraque e Anatólia. Vistiou Bagda em 1205, conhecendo os discípulos diretos do Xeique Abdalcáder Jilani. Ibn Arabi ficou lá por apenas 12 dias, porque queria visitar Moçul para ver seu amigo e passou o mês de Ramaḍã lá. Escreveu “O Livro de Majestade e Beleza” (Kitāb al-Jalāl wa’l-Jamāl). Ele retornou a Meca em 1207 onde continuou a estudar e escrever, tornando-se conhecido Ele conheceu a filha de um amigo chamada “Harmonia” (Niẓām), cuja beleza, virtude e conhecimento lhe inspiraram a escrever seu os poemas de “Intérprete dos Desejos” (Tarjumān al-Ashwāq), cuja ênfase era uma visão sagrada do feminino.
Ele também decidiu se casar, e teve por primeira esposa Fátima binte Iunus Amir Haramaine, cuja família era responsável por vigiar a rota peregrinatória entre Meca e Medina. Em 1203, Ibn Arabi teve seu primeiro filho, Maomé Imadadim, a quem dedicara a primeira cópia do Futûhât. Sua filha Zainabe nasceu posteriormente. O filósofo teve também uma segunda esposa, Mariã. Em 1221, Majedadim Isaque, amigo de Ibn Arabi, faleceu, e o filósofo responsabilizou-se em casar com a viúva e criar o filho da união do casal. Nessa época, Ibn Arabi teve também seu segundo filho, Maomé Sadadim. Ibn Arabi deixou a vida em 22 Rabi ‘al-Thani, ano 638 do calendário islâmico, ou em 8 de novembro de 1240, e com a idade de setenta e cinco anos, na cidade de Damasco, na Síria.
A doutrina do homem perfeito (Al-Insān al-Kāmil) é popularmente considerada um título honorífico atribuído a Maomé (sala ach’chu alayae wa salan), tendo suas origens no misticismo islâmico, embora a origem do conceito seja controversa e disputada. Arabi pode ter cunhado primeiro este termo referindo-se a Adão, como encontrado em sua obra Fusus al-hikam, um indivíduo ligado ao Divino e à criação. Contudo, ele o faz tal como aquele a olhar essa unidade como em um espelho.
O Real ama/deseja ver a essêcnia de seus Mais Belos Nomes ou, falando de outro modo, quer ver Sua própria essência em um objeto inclusivo que abranja a totalidade da Ordem e que qualidificado pela existência a Ele revele Seu próprio mistério. Pois, ver-se a si mesmo em si mesmo é diferente de ver-se em outro como um espelho, onde a Si mesmo aparece a si mesmo numa forma investida pelo local da visão, que só se mostra pela abertura do plano de reflexão que O desvela (IBN ARABI, citado por BENATO, 2023, p. 9).
Esse espelho deve gerar uma profunda condição de humildade no ser humano, pois, ele percebe sua pequenas diante ao cosmos. Ele se submete, de uma forma lisonjeira, como a palavra Ibada (BENATO, 2023) sugere, uma espécie de entendimento do cosmos que define o homem a si mesmo, mas em uma atitude contemplativa. Essa atitude também deve gerar gratidão, uma vez que o homem é capaz de ver a grandeza de algo que o supera em tamanho detalhamento e precisão, a ponto de ser observado como um milagre (moejiza). A atitude do místico é ser tocado no fundo de seu coração, verdadeiramente, se ele o faz dessa forma mobiliza formas muito diversas das que nos acostumamos no mundo ordinário, passando a ter mais respeito pela criação de Deus (Allá).
O profundo estudo de Henry Corbin sobre o sufismo de Ibn Arabi levou a considerações importantes sobre as técnicas meditativas antigas e sua continuidade com as psicoterapias modernas. Corbin inicia seu texto “A Imaginação Criativa como Teofania ou o ‘Deus de Quem Todo Ser É Criado’ ” com a questão da solidão essencial do Criador diante às suas criaturas, atrapalhadas com o ato de nomearem a Ele:
“Eu era um Tesouro escondido, ansiava por ser conhecido. É por isso que produzi criaturas, para ser conhecido nelas.” Esta fase é representada como a tristeza dos Nomes divinos sofrendo angústia no desconhecimento porque ninguém os nomeia, e é essa tristeza que desceu no Sopro divino (tanafus) que é Compaixão (Rahna) e existenciação (ijad), e que, no mundo do Mistério, é a Compaixão do Ser Divino consigo mesmo e por si mesmo, isto é, pelos Seus próprios Nomes (CORBIN, 1998, p. 184).
Essa própria descoberta do ser sobre si mesmo, na teofania, a Criação não é a partir do nada. As coisas criadas brotam de si mesmo de maneira criativa. As descobertas feitas pela limitação do conhecimento humano apenas levam a mais aspectos parciais, não ao todo da Criação. O Ser em Si mesmo não se revela. Ele habita a essência (haqiqa) da Imaginação absoluta (khayal mutlaq) e ele se configura (mussawir) todas as formas ou receptáculos que constituem o aspecto exotérico, manifesto e epifânico como é conhecido o Ser Divino (Zahir Allah).
A operação teofânica inicial pela qual o Ser Divino se revela, “mostra-se” a Si mesmo, diferenciando-se em seu ser oculto, isto é, manifestando a Si mesmo as virtualidades de Seus Nomes com seus correlatos, as eternas existências dos seres, seus protótipos latentes em Sua essência (a’yan thabita) — esta operação é concebida como sendo a Imaginação Ativa criativa, a Imaginação teofânica (CORBIN, 1998, p. 186).
A Criatura-Criadora (khaliq-makhluq) é tal como uma nuvem: Ele habita na ocultação de si mesmo, pois vive na latência e potencialidade dos seres. Ao criar ele se torna visível, existente na forma que os sentidos podem captá-lo e o pensamento pode raciocinar. Em sua concretude ele liga a Criação na criatura, estando lá sem ser visto. A Criação é Epifania (tajallz), essa parte confabulatória sobre a existência, algo primordial na parte metafísica de sua manifestação, sendo chamada de Imaginação Ativa (quwwat al-khayal), em farsi.
A mesma Imaginação teofânica do Criador que revelou os mundos, renova a Criação a cada momento no ser humano que Ele revelou como Sua imagem perfeita e que, no espelho que esta Imagem é, se mostra Aquele de quem ele é a imagem. É por isso que a Imaginação Ativa do homem não pode ser uma ficção vã, visto que é esta mesma Imaginação teofânica que, no e pelo ser humano, continua a revelar o que se mostrou ao imaginá-lo primeiro (CORBIN, 1998, p. 189).
Ibn Arabi exerceu influência em todas as ordens sufistas posteriores, sendo considerado seu pensamento a busca pela Unidade do Ser (Wahdat al-Wujud). Sua abordagem valoriza o amor divino, a autocrítica (nafs), a purificação do coração e a busca da verdade interior, indo além das regras externas (sharia) para alcançar a experiência direta do divino. Sua importância chegou ao Ocidente em grande parte pelos estudos de Henry Corbin (1998) e, posteriormente, pelos encontros de Eranos, em Ascona, na Suíça, tendo Carl Gustav Jung como grande anfitrião, o qual escreveu muito sobre a utilização da imaginação ativa como método psicoterapêutico (JUNG, 2012). A importância de Ibn Arabi ainda é restrita a centros sufis organizados em grupos específicos (tariqas), apesar de sua influência ser grande o suficiente para chegar com força na Cabala da península ibérica, através da obra de Abraão Abuláfia e, em seguida, com o centro cabalístico de Safed (Tsfat), em Israel, tendo sido encontrada uma gruta do ano de 1284 com uma inscrição sufista, o que sugere uma interpenetração mais forte entre as duas tradições (IDEL, 2015). Por fim, o vislumbre do Sufismo de Ibn Arabi representa também a parte mais esotérica da tradição islâmica, sendo de fundamental importância como de grande interesse para todo aquele que quiser conhecer um pouco mais da sabedoria islâmica.
Referências:
ALCORÃO Sagrado. Tradução de Samir El Hayek. São Paulo: Fiambras, 2016.
BENATO, Sandra. Ibn ‘Arabi – ‘Ibāda e o Sentido da Vida. Revista Al Hakim, São Paulo, n. 3, 2023.
BENATO, Sandra. Ibn ‘Arabī – A Estação da Tristeza e o Abandono da Tristeza. Revista Al Hakim, São Paulo, n. 4, 2023.
CHITTICK, William C. Ibn ʻArabi : heir to the prophets. Oxford: Oneworld, 2005.
CORBIN, Henry. Alone with the Alone: creative imagination in the Sufism of Ibn ‘Arabi. Princeton: Princeton Universtity Press, 1998.
IDEL, Moshe. A mística Judaica e o Pensamento Muçulmano. In: IDEL, Moshe; ASSIS, Yom Tov; SENKMAN, Leonardo (et al.) Cabala, Cabalismo e Cabalistas. Trad. Jacó Guinsburg, Nancy Rozencham, Eliana Lamger, Margarida Goldsztajn. São Paulo: Perspectiva, 2015.
JUNG, Carl Gustav. Ab-reação, análise dos sonhos e transferência. In: Obras completas de C. G. Jung, vol. 16/2. Tradução de Maria Luiza Appy. Petrópolis: Vozes, 2012.
Estevan de Negreiros Ketzer é psicólogo clínico (PUCRS), com mestrado e doutorado em Literatura (PUCRS). Realizou pesquisa nos arquivos do IMEC, na França, em 2015. Assessorou a Uniritter na implementação do curso de Escrita Criativa em 2016. É pesquisador do Núcleo de Estudos Judaicos (NEJ) da UFMG e pós-doutorando em Literatura (UFMG).










