O Golem dos Paradoxos

Golem (1899), de Mikoláš Aleš (Staré pověsti české)

Como um nome é uma evocação de uma partícula do universo, uma representação das coisas como elas mesmas, simbolicamente, o cuidado com cada nome, cada pensamento e, por fim, cada ação humana.

Estevan de Negreiros Ketzer

Psicólogo Clínico (PUCRS). Doutor em Letras (PUCRS). Pós-doutor em Letras (UFMG). Pós-doutorando pelo Labô – Laboratório de Política, Comportamento e Mídia / Fundação São Paulo/PUCSP.

Para Lyslei Nascimento

Introdução

Eu conversava com um amigo sobre o livro segundo livro da Poética de Aristóteles. Todos sabemos ser esse um livro perdido, o qual Aristóteles indicou ser dedicado a comédia. “Por que será que falamos dele?”, ele diz na surpresa. “Talvez seja porque é um livro que não existe”, arremeti com riso. Afinal, falar do que não existe é mais interessante à imaginação, pois é na imaginação que as coisas devem existir antes mesmo de existirem na realidade.

O escritor argentino Jorge Luis Borges tinha tanta consciência disso a ponto de se reinventar o tempo todo pela imaginação. Não apenas ele se reinventava nela, como reinventou todas as civilizações com a presença do vívido mistério, cujo acompanhamento sempre esteve do lado do cotidiano das pessoas sem que elas assim o percebessem. Quando esse substrato é trazido pela literatura, nós temos a sensação de algo novo realmente nos tomou de assalto. Contudo, Borges apenas indica ser algo tão antigo entre todos os tempos, incluindo o futuro, em que mesmo a memória já deixou de existir plena em sua faculdade.

Isso aconteceu com a história do Golem de Praga a qual ele se dedica na produção de um poema, publicado em 1959, e lançado em seu livro El otro, el mismo, de 1964 (BORGES, 1996). A simples história do golem também indica algo sobre a Cabala em um tempo que a ciência está a plenos pulmões criando os mais diversos experimentos com a ascensão da alquimia no ocidente (SCHOLEM, 2021). O experimento alquimista, mistura de bruxaria com eucaristia, passa a ser observados em condições científicas, com causa e consequência, ainda que possua uma certa ilusão de que mesmo em elementos da natureza há vida da mesma maneira que a cada ser vivo. A história do golem é tão justamente o encantamento de um famoso rabino a dar vida ao barro com a palavra EMET (verdade em hebraico) escrita na testa da criatura antes de receber o indulto dos seres vivos. Me escuso de escrever vida como algo “divino” aqui, pois justamente a vida dos cabalistas e alquimistas opera de forma diferente ao processo sagrado encontrado na ordem dos céus. Os alquimistas e cabalistas buscam realinhar a ordem, entendendo onde pode haver uma desordem. Esse método, o qual influenciou de sobremaneira a ideia da ciência moderna, é de forte base empírica e experimentalista, e conversa diretamente com a formação da literatura moderna em obras como Frankenstein, de Mary Shelley e Fausto de Johann Wolfgang von Goethe (KETZER, 2024).  

Esse texto é tão somente uma leitura do poema de Borges “El Gólem” (BORGES, 1974), cuja tradução é de autoria de Augusto de Campos (BORGES, 2013). Nossa inquietação costuma ser sobre o que a realidade e sua situação empírica sempre nos leva aos mesmos lugares e, por essa razão, às mesmas interpretações. Antes de tudo nossa preocupação é com o não dito porque não foi pensado e se não foi pensado todos pensarão, então, não existir. Isso é tão problemático em ciências humanas a ponto de justamente não mais ser levado em consideração pela maioria dos pesquisadores na atualidade.

  1. Monstros matemáticos

Como é complexo dar a matemática se devido lugar em nossas vidas. A matemática não pode ser ensinada como um apanhado de fórmulas, cujo sentido é apenas o aluno decorar de maneira tautológica. A matemática não é uma tautologia. Ela se expressa na busca dos limites entre o que pensamos e o que de fato existe, ainda que a dívida maior do pensamento é, tal como a música, uma composição única a qual dispensa o universo e suas aparentes regras. Isso é tão profundo na ideia da Cabala e em como ela de fato tenta encontrar algo mais próximo da ideia de infinito. “A palavra ‘transcendental’, em Matemática, não tem o mesmo significado que em Filosofia” (KASNER & NEWMAN, 1961, p. 19), isso porque a matemática chega a níveis que podemos dizer são quase infinitos como o número googol nos traz. O número 10100 expressa justamente um fato tão difícil de ser pensado, justamente em grandezas reais, simples como 1 com 100 zeros depois, grandeza tão pequena ou tão grande… mas finito. Um número assim, faz muito mais sentido em quantidades e proporções que chamamos de probabilística. Esse fato cada vez mais próximo de uma criação de ficção científica passa a ter muito sentido quando imaginamos o quanto era necessário para a física compreender o movimento das moléculas dentro de um líquido.

Não é objetivo desse ensaio observar os pormenores da relação da matemática na escrita de Borges. Como é possível haver algo dessa proporção sem que tenhamos um entendimento empírico real? O ser humano não possui qualquer possibilidade de “saber” pela seus aparelhos sensórios. A matemática o ajuda a criar uma métrica, uma fórmula, cuja condução é o que melhor representa a realidade, tal como vemos na ideia expressa por Albert Einstein acerca da energia: E = m.c². Nesse sentido, a matemática e a criação literária expressam duas formas de dizerem a mesma coisa de maneira absolutamente diferente. Um belo e consternador paradoxo o qual somos levados a pensar.

A própria Cabala parece também designar algo dessa ideia quando a partir da ideia de infinito cabalístico Ein Sof. A Cabala busca diante ao saber (daat) uma ligação, a qual traduzimos de religião (dat), mas não podemos dizer que exista propriamente algo como a religião da maneira que ocidentalmente pensamos. A conexão mesma com essa grandeza maior também nos traz uma metodologia desenvolvida na equivalência numérica das letras do alfabeto hebraico. Essa metodologia chama-se gematria e não apenas foi utilizada por judeus cabalistas como também foi muito utilizada por gregos, os quais chamaram-na de isopsefia. A guematria poderia ser realizada pela forma do notarikon – tomando-se as letras iniciais de muitas palavras para formar um acróstico – ou pela temurá – a troca de letras de uma palavra por outras letras. A equivalência de palavras diferentes com o mesmo somatório numérico era algo muito presente no método da gematria, como vemos com algumas palavras como os termos Elohim (Deus) e Hateva (natureza), os quais possuem equivalência numérica 86. Isso sempre foi interpretado como uma similitude de forma entre duas palavras aparentemente diferentes, porém, com algo em comum. O próprio Jorge Luis Borges observou muito atento ao método cabalístico, tal como vemos em seu artigo “A Cabala”, no livro Siete Noches:

Em seguida, são criadas equivalências entre as letras. A escrita é tratada como se fosse uma cifra, uma escrita criptográfica, e várias regras são inventadas para lê-la. Pode-se pegar cada letra da escrita e ver que essa letra é a inicial de outra palavra e ler essa outra palavra. Assim, para cada uma das letras no texto (BORGES, 1989, p. 270).

Si (como afirma el griego en el Cratilo)
el nombre es arquetipo de la cosa
en las letras de ‘rosa’ está la rosa
y todo el Nilo en la palabra ‘Nilo’.

Y, hecho de consonantes y vocales,
habrá un terrible Nombre, que la esencia
cifre de Dios y que la Omnipotencia
guarde en letras y sílabas cabales.
Se (o Crátilo nos leva a inferi-lo)
O nome é o arquétipo da coisa,
Já nas letras de rosa está a rosa
E todo o Nilo na palavra Nilo.   Feito de consoantes e vogais,
Talvez exista um Nome, que a essência
De Deus encerre e que a Onipotência
Guarde em letras e sílabas cabais.  

O poema El Gólem de Borges, nos enuncia em suas duas estrofes iniciais, o quanto as primeiras inferências de quantidades infinitésimas podem habitar a essência de um nome próprio. E a tentativa de investigar um nome entre outros nomes, o nome dos nomes, como a forma hiperbólica se mostra como algo grandioso o suficiente para ser guardado como algo secreto. A ideia da Cabala em guardar segredos que só podem ser revelados com o estudo profundo do alfabeto hebraico parece sempre conduzir a um mistério interior de quem dele faça uso.

2. Expulsos do Éden

A ideia de criar vida a partir da matéria inerte é profundamente cabalística. Livros como o Sefer Ietsirá e o Zohar estão de algum modo nos indicando a observação de uma realidade a qual não estamos acostumados a apreciar. Deve haver vida mesmo em um grão de areia, pois no passado imemorial da humanidade Deus criou nele pequeno pedacinho de matéria algo de si mesmo (SCHOLEM, 2008). Da mesma forma, a interpretação também passa a ser cada vez mais um caminho (derech) com diferentes percepções sobre o mesmo objeto.

Cada consoante da palavra PaRDeS designa um dos quatro níveis: P representa peschat, o sentido literal, R representa remez, o sentido alegórico, D representa deraschá, a interpretação talmúdica e agádica, e S representa sod, o sentido místico. O pardes no qual os quatro antigos eruditos entraram passou, assim a designar as especulações a respeito do verdadeiro significado da Torá em todos os quatro níveis. (SCHOLEM, 2009, p. 72)


Adán y las estrellas lo supieron
en el Jardín. La herrumbre del pecado
(dicen los cabalistas) lo ha borrado
y las generaciones lo perdieron.

Los artificios y el candor del hombre
no tienen fin. Sabemos que hubo un día
en que el pueblo de Dios buscaba el Nombre
en las vigilias de la judería.

Adão e as estrelas souberam
No Jardim. Nas ferrugens do pecado
(Dizem os cabalistas) foi borrado
E as gerações já o perderam.  

Os artifícios e o candor do homem
Não têm fim. Bem sabemos que houve um dia
Em que o povo de Deus buscava o Nome
Pelas vigílias dos Judeus sem guia.  

A tristeza do povo judeu apartado do Jardim (éden) levou ao desenvolvimento de uma doutrina da espera. A espera torna-se parte da sabedoria judaica em busca da redenção. “A Schekiná no exílio é chamada pardes (porque é como que trajada com os quatro níveis de significado), mas é ela mesma que é o cerne mais íntimo” (SCHOLEM, 2009, p. 73). A Schekiná é a grande abençoada na noite de sexta-feira, véspera do Shabat. Ela está tão próxima de nós, como a sensação de estarmos de fato no Jardim Celestial (Gan Éden). Assim, vemos no cântico de Salomão: “Eu entrei no jardim das nozes” (Cântico dos Cânticos 6:11) (BÍBLIA, 2006). O canto de Shabat, intitulado Mulher Virtuosa (Eshet Chayil) também evoca não apenas o homem físico, mas também o encontro de Deus com sua noiva, Israel (SIDUR, 1997).


No a la manera de otras que una vaga
sombra insinúan en la vaga historia,
aún está verde y viva la memoria
de Judá León, que era rabino en Praga.

Sediento de saber lo que Dios sabe,
Judá León se dio a permutaciones
de letras y a complejas variaciones
y al fin pronunció el Nombre que es la Clave,
Não à maneira de outras que uma vaga
Sombra insinuam numa vaga história,
Ainda está verde e vivo na memória
Judá Leão, que era rabino em Praga.  

Sedento de saber o que Deus sabe,
Judá Leão tentou permutações
De letras e complexas variações
E pronunciou o Nome que é a Chave,  

A menção ao rabino Judá Leão é como era chamado o Rabino Loew ben Betzalel de Praga, o qual é atribuído a criação do golem. Ele tinha a chave, isso é, conhecia os segredos da Cabala. A chave vem pela via de um nome (shem) secreto (sod). Como um nome é uma evocação de uma partícula do universo, uma representação das coisas como elas mesmas, simbolicamente, o cuidado com cada nome, cada pensamento e, por fim, cada ação humana, fazem parte da condução dos exercícios espirituais mais importantes para a vida de um cabalista. Essas ações devem participar da vida judaica plena.

3. O nascimento do Golem

Como é fascinante percebermos nossas criações durante a vida. Ter uma casa, constituir família e o nosso trabalho da forma que nos sentimos gratos (todá). Ainda que sejamos envolvidos pelo esforço e a incompreensão das pessoas, por vezes até mesmo a sua reação aparentemente aversiva, cujo escopo diz respeito sempre a nossa tentativa de que os sonhos e desejos possam ser levados ao futuro. A promessa de esperança se faz preemente para todo aquele em busca de seu sentido recôndito.

Investigando o golem como um homem criado por artes mágicas, cumpre retroceder a certas ideias judaicas referentes a Adão, o primeiro homem. Pois, obviamente, um homem que se dispõe a criar um golem está competindo de alguma maneira com a criação de Adão por Deus; num tal ato, a força criadora do homem entra num certo relacionamento, seja de emulação, seja de antagonismo, com o poder criador de Deus (SCHOLEM, 2009, p. 191).

(El cabalista que ofició de numen
a la vasta criatura apodó Golem;
estas verdades las refiere Scholem
en un docto lugar de su volumen.)

El rabí le explicaba el universo
“esto es mi pie; esto el tuyo, esto la soga.”
y logró, al cabo de años, que el perverso
barriera bien o mal la sinagoga.
 
(O cabalista que oficiou o nume
À vasta criatura chamou Golem;
Estas verdades as refere Scholem
Em um douto lugar do seu volume.)  

O rabi lhe explicava o universo
“Este é meu pé; o teu; esta é a soga”
E ao cabo de anos logrou que o perverso
Varresse bem ou mal a sinagoga.  

Muito se acredita sobre os motivos da criação do golem. O ser criado protegeria a comunidade (shtetl) judaica de Praga das investidas antissemitas. A criatura depois das ações protetivas ajudava o rabino Loew a cuidar da sinagoga. O golem “significa o informe, amorfo” (SCHOLEM, 2009, p. 192). A matéria-prima tal como o nome de Adão estava relacionado a terra (adamá). Essa massa amorfa teve vida insuflada por Deus, tal como vemos em Gênesis 2:7: “E ficou sendo o homem § alma-de-vida” (CAMPOS, 2004, p. 50). Essa curiosa identidade entre sopro (ruach), terra (adamá), pó (af’ar) e alma (nefesh) se encontram numa singular sonoridade do jardim oriental (miqdem).

O Adão de Borges é o Adão do Sefer Ietsirá, o Livro da Criação (KAPLAN, 2018). Nele já estão contidos muitos dos elementos que seguem a Cabala pela teoria das emanações das dez Sefirot, as esferas nas quais tanto a realidade visível, quanto a invisível chegam até nós. Mais do que apenas uma teoria distante da vida, sua representação tenta dar uma aplicabilidade na forma em que as emoções podem ser interpretadas nas sete esferas básicas da Árvore da Vida (Ets Chayim).

As dez emanações formam um homem chamado Adam Kadmon, o Homem Arquetípico. Este homem está no céu, e nós somos seu reflexo. Dessas dez emanações, este homem emana um mundo, depois outro, até quatro. O terceiro é o nosso mundo material, e o quarto é o submundo. Todos estão incluídos em Adam Kadmon, que abrange o homem e seu microcosmo; todas as coisas (BORGES, 1989, p. 271).

O corpo de Adão guarda o segredo do ser humano em sua relação de imagem e semelhança (tselem ve-d’miut) com Deus. Esse arquétipo de queda do paraíso parece rondar mais ainda o homem moderno e sua tentativa de atrair Deus por meio de magia ou mesmo da tecnologia em seu advento com a ciência. Mesmo a escrita (khtvá) se torna a escrita de uma realidade sobreposta a um livro que nunca sabemos ler ao certo suas linhas aparentemente tortas.

Tal vez hubo un error en la grafía
o en la articulación del Sacro Nombre;
a pesar de tan alta hechicería,
no aprendió a hablar el aprendiz de hombre.

Sus ojos, menos de hombre que de perro
y harto menos de perro que de cosa,
seguían al rabí por la dudosa
penumbra de las piezas del encierro.
 
Houve talvez um erro na grafia
Ou na articulação do Sacro Nome;
A despeito de tal feitiçaria,
Falar não soube o aprendiz de homem.  

Seus olhos menos de homem que de cão,
E ainda menos de cão do que de coisa,
Seguiam o rabi na duvidosa
Penumbra dos pertences da prisão.  

E quando a criatura entende ter sido apenas um joguete dos que lhe deram vida. O golem a querer em algum momento ser o que os homens são sem o poder de fato para pertencer a humanidade sagrada dada por Deus. Triste golem feito do barro. Também ele deveria lembrar que o homem foi um dia expulso do Jardim (Éden) por ter deseja algo que não seria jamais seu. O fruto da terra (p’ri adamá), cuja interdição de seu criador é a grande metáfora da humanidade sobre o conhecimento (daat) de Deus sobre o bem e o mal (tov ve-hará).

Seria o golem consciente de si mesmo? Como tal pergunta nos assola mesmo em nossa natureza tão estruturada em tantos níveis, a ponto de transformar a natureza das coisas brutas em coisas cada vez mais rebuscadas. Assim, Borges também pensou em seu artigo “Una vindicación de la Cabala”, contido no livro Discusión: “Procuro refletir sobre todo objeto cujo propósito desconhecemos é provisoriamente ‘monstruoso’. Essa observação geral é agravada aqui pelo mistério profissional do objeto” (BORGES, 1974, p. 210). E tal como um monstro ele se apresenta a nós. A escrita de Borges é repleta de ideias tão eficientes filosoficamente quanto repletas de criaturas sem lugar no mundo ordinário. O resquício das coisas esquecidas não é vislumbrado como um mundo possível, porém, um mundo de formas heteróclitas e disformes, tão monstruoso quanto um golem a ganhar vida.

Eles resolvem isso dizendo que o universo é obra de uma Divindade deficiente, cuja fração de divindade tende a zero. Ou seja, de um Deus que não é Deus. De um Deus que descende distantemente de Deus. Não sei se nossas mentes conseguem lidar com palavras tão vastas e vagas como Deus, como Divindade, ou com a doutrina de Basílides sobre as trezentas e sessenta e cinco emanações dos gnósticos. Contudo, podemos aceitar a ideia de uma divindade deficiente, de uma divindade que tem de moldar este mundo a partir de matéria adversa. Chegaríamos, assim, a Bernard Shaw, que disse: God is in the manking “Deus se fazendo”. Deus é algo que não pertence ao passado, que talvez não pertença ao presente: é a Eternidade. Deus é algo que pode ser futuro: se formos magnânimos, mesmo que sejamos inteligentes, se formos lúcidos, estaremos ajudando a construir Deus (BORGES, 1989, p. 273).

O processo de colocar a divindade em coisas materiais não seria tão diferente quanto uma oração (tefilá) plena de intenção (kavaná). A oração é vista como a comunicação do homem com Deus em seu momento de interiorização, a entrega do coração do homem a Deus sem aquela intelectualização a nos proteger da realidade. A oração é uma esperança de transformação de situações ruins em situações boas, mas não é uma garantia. Nela todo o judeu se vê desnudado em sua infinita pequenez, mesmo que Deus jamais escute seus suplícios. Sendo assim, a suprema inteligência das coisas criadas por Deus nos reduz a voltarmos a nossa reduzida capacidade humana de pensar, sem o devida entendimento (biná). “Temos a mente aberta e estamos prontos para estudar não apenas a inteligência dos outros, mas também a estupidez e as superstições alheias. A Cabala não é apenas uma peça de museu, mas uma espécie de metáfora para o pensamento” (BORGES, 1989, p. 274).

El rabí lo miraba con ternura
y con algún horror. ‘¿Cómo’ (se dijo)
‘pude engendrar este penoso hijo
y la inacción dejé, que es la cordura?’

‘¿Por qué di en agregar a la infinita
serie un símbolo más? ¿Por qué a la vana
madeja que en lo eterno se devana,
di otra causa, otro efecto y otra cuita?’

En la hora de angustia y de luz vaga,
en su Golem los ojos detenía.
¿Quién nos dirá las cosas que sentía
Dios, al mirar a su rabino en Praga?
O rabi o mirava com ternura
E com algum horror. Como (dizia)
Pude engendrar esta penosa cria
E deixei a inação, que é a cordura?  

Por que fui agregar à infinita
Série um símbolo a mais? Por que a vã
Trama eterna fui dar uma outra escrita,
Outra causa, outro efeito e outro afã?  

Nos momentos de angústia e de luz vaga
A seu Gólem os olhos estendia.
Quem nos dirá as coisas que sentia
Deus, ao olhar o seu rabino em Praga?  

Borges, leitor ávido de Scholem, entende o quanto a história é uma história profundamente literária. O Rabino Loew escreve na testa do golem a palavra verdade (emet). O problema é o fato do golem crescer e isso impossibilita que se retire a palavra de sua testa. “Chega um ponto em que fica tão alto que seu dono não consegue alcançá-lo. Ele pede que lhe amarre os sapatos. O golem se curva, e o rabino sopra sobre ele, conseguindo apagar o aleph, ou primeira letra, de EMET. Resta apenas MET, que significa morte. O golem se transforma em pó” (BORGES, 1989, p. 274).

A grandeza da história do golem é ela ser uma recomposição moderna do ato da criação. Antes era Deus a criar, agora o homem se aproxima de Deus por crer ter as condições materiais para isso. Scholem (1994), em seu artigo “O Golem de Praga e o Golem de Rehovot” reconhece com o advento dos computadores e da inteligência artificial (IA) a tentativa humana de dar vida a um ser inanimado. O computador criado pelo israelense Chaim Pekeris possui de fato alguma autonomia ou apenas a impressão de que ele é de fato um ser livre de seu pensar? Scholem não é ingênuo, pois percebe ser apenas uma programação o que ele enxerga na sala computacional. Contudo, Scholem enxerga ali um possível problema: quando esse ser poderia em algum momento reclamar seu direito a vida?

Conclusão

A história do Golem de Praga, mesmo tendo sido uma história moderna, possui muitos antecedentes na história judaica mais antiga. A própria consolidação das leis orais judaicas com o advento do Talmud, a mishná e a gemará, são muito significativas para a tradição judaica. Um dos mais importantes tratados talmúdicos, o Sanhedrin, folha 65b, fala sobre como os rabinos foram capazes de criar outros homens:

“Pois Rava criou um homem e enviou a Rabi Zera. O rabi falou-lhe e o homem não respondeu. Então o rabi disse: Você deve ter sido feito pelos companheiros (membros da academia talmúdica); volte ao seu pó!” A palavra aramaica aqui traduzida por “companheiros” [habar] é ambígua. Segundo alguns eruditos, a frase de Rabi Zera deveria ser interpretada como significando: “Você deve vir dos mágicos”. No Talmud, esta passagem é seguida imediatamente por outra estória: “Rav Hanina e Rav Oschaia ocupavam-se a cada véspera de Sábado com o Livro da Criação [Sefer Ietsirá] – ou com uma outra leitura: com as instruções (halahot) a respeito da criação. Eles fizeram uma novilha de um terço do tamanho natural e comeram-na (SCHOLEM, 2009, p. 198).

Toda a Torá quando vista sob a égide de um livro de instruções para a vida, lida de forma objetiva, embora tenha de ser lida de forma subjetiva, acaba trazendo interrogações cada vez mais relevantes: como executar as instruções ali presentes? O povo judeu também se revoltaria em algum momento, frente ao seu sofrimento ao longo das eras, para dar luz ao monstro aparentemente vivo e fantástico. O golem vem ajudar durante situações fantásticas e terríveis… salvar o povo judeu do jugo da humanidade.

Assim, a prece a Deus, os Salmos, o Sidur cotidiano, a fala cantada dos sefarditas, o próprio hermetismo do nome de Deus no tetragrama (iud, hey, vav, hey), todas essas situações extrapolam em um imenso cosmo de significados e situações sagradas inexplicáveis. “Pois o Tabernáculo [mishkan] é um microcosmo completo, uma cópia miraculosa de tudo quanto existe no céu e na terra” (SCHOLEM, 2009, p. 199). O cosmos em sua completude deve compor com o ser humano na sua mais plena individualidade, isso representa muito bem a formação do pensamento dos antigos sobre o mundo circundante, especificamente, o povo judeu.

Borges realça os paradoxos presentes nas ideias mais recônditas. Ele traz as histórias e coloca a sua própria vida como parte experimental dos monstros em que a literatura está repleta. Isso mostra o quanto as histórias também produzem uma influência real na vida de quem as lê, dando assim motivos para sua continuidade ao longo das eras. Borges, enciclopedista que falta em nossos dias, faz do seu poema “El Gólem” um catálogo de sonhos a buscar sonhadores. Ele mesmo torna-se o mais sofisticado dos fazedores de golens (NASCIMENTO, 2021). O povo judeu vive das histórias que a humanidade conta para si mesma antes de dormir. Tal situação é ainda hoje enigmática e fruto de sonhos inexplicáveis. Assim, as histórias participam vivas e eloquentes, ativadas em nosso universo de símbolos e expressas em nosso cotidiano.

Referências:

BÍBLIA Hebraica. Tradução de Davi Gorodovits e Jairo Fridlin. São Paulo: Séfer, 2006.

BORGES, Jorge Luis (1964). El otro, el mismo. Buenos Aires: Emecé, 1996.

BORGES, Jorge Luis. Quase Borges: 20 transpoemas e uma entrevista. Tradução de Augusto de Campos. São Paulo: Terracota, 2013.

BORGES, Jorge Luis. Livro dos seres imaginários. Tradução de Heloísa Jahn. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

BORGES, Jorge Luis. Una vindicación de la Cabala. In: Obras Completas (1923-1972). Buenos Aires: Emecé Editores, 1974.

BORGES, Jorge Luis. La Cábala. In: Obras Completas (1975-1985). Buenos Aires: Emecé Editores, 1989.

CAMPOS, Haroldo de. Éden: um tríplitico bíblico. São Paulo: Perspectiva, 2004.

KAPLAN, Arieh. Sefer Ietsirá: o Livro da Criação. Tradução Erwin Von-Rommel Vianna Pamplona. São Paulo: Editora Sêfer, 2018.

KASNER, Edward & NEWMAN, James. Matemática e Imaginação. Tradução de Jorge Fortes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1961.

KETZER, Estevan de Negreiros. Como fazer um Golem? In: NASCIMENTO, Lyslei; OTTE, George (Org.). No princípio, o mito. Belo Horizonte: HN Editora, 2024, p. 97-116.

NASCIMENTO, Lyslei. O Golem: do limo à letra. In: NASCIMENTO, Lyslei; NAZARIO, Luiz. Os fazedores de golens. Belo Horizonte: Caravana, 2021.

SCHOLEM, Gershom. O Golem, Benjamin, Buber e outros justos: judaica I. Tradução de Ruth Joanna Solon. São Paulo: Perspectiva, 1994.

SCHOLEM, Gershom. As grandes correntes da mística judaica. Tradução de Jacó Guinsburg, Dora Ruhamn, Fany Kon, Janete Meiches, Renato Mezan. São Paulo: Perspectiva, 2008.

SCHOLEM, Gershom. A cabala e seu simbolismo. Tradução de Hans Borger, Jacó Guinsburg. São Paulo: Perspectiva, 2009.

SCHOLEM, Gershom. (1974) Cabala. Tradução de Alexandre Barbosa de Souza. São Paulo: Editora Campos, 2021.

SIDUR. Org. e ed. Jairo Fridlin. São Paulo: Sefer, 1997.

+ posts

Estevan de Negreiros Ketzer é psicólogo clínico (PUCRS), com mestrado e doutorado em Literatura (PUCRS). Realizou pesquisa nos arquivos do IMEC, na França, em 2015. Assessorou a Uniritter na implementação do curso de Escrita Criativa em 2016. É pesquisador do Núcleo de Estudos Judaicos (NEJ) da UFMG e pós-doutorando em Literatura (UFMG).

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *