
Fonte dos Quatro Rios, Praça Navona, Roma, Lácio, Itália. Wikimedia Commons
Considerada uma disciplina científica nos tempos atuais, a Egiptologia possui, em sua história, figuras esquecidas, mas que ainda podem nos ensinar pontos de vista filosóficos sobre a sabedoria do Egito Antigo
Rafael Duarte Oliveira Venancio
Introdução
O que um obelisco no meio de uma praça em Roma pode nos falar sobre os tipos de Egiptologia?
Quem for para Roma, nos dias atuais, vai encontrar na Piazza Navona, a famosa Fontana dei Quattro Fiumi, a Fonte dos Quatro Rios onde o escultor Gian Lorenzo Berrini trabalhou miticamente os rios dos “quatro cantos” do mundo: Nilo, Ganges, Danúbio e o Rio da Prata. No centro superior, há um obelisco egípcio com hieróglifos. E como esses hieróglifos foram interpretados ao longo do tempo mostram aquilo que gosto de denominar como as “Três Egiptologias”.
As “Três Egiptologias” são posturas históricas acerca da investigação do conhecimento cultural, mitológico e religioso do Antigo Egito. Isso que chamamos de Antigo Egito, provavelmente, é o período histórico de cultura humana de maior expansão temporal que já tivemos. Ele começa, mais ou menos, na Primeira Dinastia do Egito – iniciada por volta do ano 3000 a.C., ainda na Idade do Bronze (no entanto, há teóricos que acreditam que ela possa ser anterior, no fim da Idade da Pedra, por volta do ano 4000 a.C. ou 5000 a.C.) – até a Trigésima Quarta Dinastia – chamada de Romana – que incorpora o período de conquista do Egito por Otaviano em 30 a.C. (que se tornaria o primeiro imperador, Augusto, três anos depois) – até a morte de Maximino Gaia, o último imperador romano (do Leste) a ser considerado faraó do Egito, em 313 d.C.
Por ter durado, no mínimo, três mil anos, o Antigo Egito tem, digamos, a “proeza” de ter tido especialistas em Antigo Egito durante o próprio Antigo Egito. Afinal de contas, já é famosa a comparação de que Cleópatra – que foi faraó (ou rainha) do Egito na Trigésima Terceira Dinastia (a Ptolomaica, de origem grega) – está mais próxima temporalmente de nós, seres vivos do século XXI, do que os construtores das Pirâmides de Gizé, construída pelos faraós da Quarta Dinastia em torno de 2500 a.C.
Assim, tendo em vista isso, é possível definir assim essas “Três Egiptologias”.
A primeira é a Egiptologia Clássica ou Egiptologia Antiga, ou seja, os textos produzidos por investigadores do Egito Antigo – sendo eles egípcios ou não – em sua maioria durante algum período dinástico dos faraós ou, pelo menos, até o fim da Antiguidade Clássica por volta de 500 d.C. (ou seja, dois séculos depois do último faraó). Aqui são famosos os textos de historiadores (Heródoto, Strabo, Diodoro e o que sobreviveu de Manetão, aquele que pode ter sido o primeiro egiptólogo a pedido dos dois primeiros faraós ptolomaicos) bem como de filósofos como Platão e, especialmente, Plutarco e Iâmblico.
A era medieval nos permitiu o início daquilo que podemos chamar de Egiptologia Esotérica, onde havia o desafio de, através da leitura dos clássicos (alguns disponíveis na época, porém atualmente perdidos) e de algum material de campo, havia um estudo amplo e vivaz dos aspectos culturais e, especialmente, filosóficos e religiosos dos egípcios antigos.
A Egiptologia Esotérica nunca terminou de fato, mas ela “perdeu” seu status enquanto “ciência” com o surgimento da Egiptologia Científica ou Arqueológica, que se inicia com os historiadores e arqueólogos franceses das expedições após a invasão napoleônica do Egito que tornou possível a descoberta da Pedra de Rosetta em 1799 e sua decifração por Jean-François Champollion em 1822, chamando a atenção do grande público com a arqueologia de Howard Carter e os textos orientalistas de E. A. Wallis Budge no começo do século XX.
Foi exatamente a “descoberta” Champollion que colocou a “pecha” de Esotéricana Egiptologia Medieval que, curiosamente, continuou com os seus métodos ao longo dos séculos XIX e XX com as escolas iniciáticas (por exemplo, a Rosa Cruz, a Aurora Dourada e a AMORC) e movimentos espiritualistas (por exemplo, a Teosofia). Assim, Egiptologia Esotérica e Egiptologia Científica continuam a permear o século XXI, sendo que apenas a última possui status acadêmico.
Retornando ao nosso obelisco da Piazza Navona, ele provavelmente é tanto o marco do início da Egiptologia Esotérica bem como o início do seu descrédito. Tudo isso graças à forma que Athanasius Kircher desenvolveu para decifrar seus hieróglifos. De “O último grande Renascentista” reconhecido em seu tempo, Kircher se tornou o “propagador de non-sense sobre hieróglifos” tal como Wallis Budge (1922, p. 15) o tornou conhecido para as gerações de egiptólogos que ele ajudou a formar nos últimos cento e poucos anos.
Os ensinamentos a partir da decifração da Pedra de Rosetta provaram que a tradução de Kircher poderia ser vista como errada e assim aconteceu, especialmente com a alta disseminação de documentos sendo traduzidos e a aurora da Egiptologia Científica. Com isso, o método de Kircher para ler hieróglifos foi posto como totalmente errôneo, sendo virtualmente esquecido na Academia (exceto pelo que Wallis Budge fala sobre ele) entre egiptólogos e analisado apenas como uma “curiosidade” do Barroco na História das Ideias.
No entanto, será que a Pedra de Rosetta desqualificou totalmente Kircher? As descobertas dele no Obelisco da Piazza Navona são apenas mera “piada” intelectual? É um início de debate sobre essas perguntas que o presente ensaio se propõe com uma breve biografia de Athanasius Kircher, uma breve explicação através de comentadores do seu trabalho de leitura de hieróglifos a partir de manuscritos cópticos e do Obelisco da Piazza Navona, bem como um debate sobre os pontos de vista filosóficos que Kircher levantou com os hieróglifos que nem Champollion, nem Wallis Budge, nem outro membro da Egiptologia Científica conseguiram descreditar totalmente em suas bases, tornando-as inspirações possíveis para o atual desenvolvimento da Egiptologia Esotérica.
O polímata e “pai” esquecido da Egiptologia
Em 1790, Adam Frantisek Kollar, bibliotecário-chefe dos Habsburgos e um dos primeiros iluministas, em seu processo de compreender a História da sabedoria humana escreveu que
A sabedoria dos filósofos egípcios verdadeiramente parece ser algo muito divino para ser compreendido por qualquer pequeno humano; assim, em minha opinião, o sistema egípcio do mundo, que era baseado nas leis de atração e repulsão, parece o mais próximo de todos da verdade. Essa opinião minha agora tem o consenso de toda Europa, sendo aprovada não há muito tempo, mas atribuída a Newton, através do seu cálculo. No entanto, Kircher veio antes de Newton; e mesmo que alguém pense que estou delirando, eu sugeriria a ele a leitura cuidadosa e com uma mente sem preconceitos das coisas que Kircher escreveu no último capítulo de Prodromus Coptus e em Oedipus Aegyptiacus (KOLLAR apud STOLENBERG, 2015, local 85).
No entanto, quem foi Kircher? Para não nos alongar na história desse polímata jesuíta alemão que desenvolveu vários estudos na atual capital italiana – sendo que, até mesmo, desceu o Vesúvio em um princípio de erupção certa vez e montou um museu de curiosidades que ficou aberto em Roma quase quatro séculos, sendo encerrado durante a Primeira Guerra Mundial –, vamos apresentar um resumo de seu verbete na Enciclopédia Católica de 1913:
Celebrado pela versatilidade de seu conhecimento e particularmente notável por seu domínio das ciências naturais, nasceu em 2 de maio de 1601, em Geisa, uma pequena cidade na margem norte do Alto Ródano (Bucônia [atualmente parte de Hesse]) e faleceu em Roma, em 28 de novembro de 1680. (…).
João Kircher, pai de Atanásio, estudou filosofia e teologia em Mainz, sem, contudo, seguir a vocação sacerdotal. Assim que obteve o doutorado nesta última área, passou a lecionar teologia na casa beneditina de Seligenstadt. Atanásio estudou humanidades no Colégio Jesuíta de Fulda e, em 2 de outubro de 1618, ingressou na Companhia de Jesus em Paderborn. Ao término do noviciado, dirigiu-se a Colônia para seus estudos filosóficos. A viagem até lá, devido à confusão causada pela Guerra dos Trinta Anos, foi repleta de grandes perigos. Paralelamente ao estudo da filosofia especulativa, o talentoso jovem estudante dedicou-se especialmente às ciências naturais e às línguas clássicas, razão pela qual foi convidado pouco depois a lecionar essas disciplinas nos colégios jesuítas de Coblença e Heiligenstadt. Em Mainz, onde Kircher (1625) iniciou seus estudos teológicos, chamou a atenção do eleitor por sua habilidade e talento como experimentalista. Em 1628, foi ordenado sacerdote e, mal havia concluído seu último ano de estágio em Speyer, recebeu a cátedra de ética e matemática da Universidade de Würzburg, tendo simultaneamente que lecionar também em siríaco e hebraico. Contudo, os distúrbios decorrentes das guerras obrigaram-no a dirigir-se primeiro a Lyon, em França (1631), e mais tarde a Avignon.
A descoberta de alguns caracteres hieroglíficos na biblioteca de Speyer levou Kircher a fazer a sua primeira tentativa de resolver o problema da escrita hieroglífica, que ainda intrigava todos os estudiosos. Em Aix, conheceu o conhecido senador francês Sicolas Peiresc, cujas magníficas coleções despertaram em Kircher o maior interesse. Reconhecendo em Kircher o homem certo para resolver o antigo enigma egípcio, Peiresc dirigiu-se diretamente a Roma e ao Geral dos Jesuítas para que a convocação de Kircher a Viena, feita pelo imperador, fosse anulada e para que fosse providenciada uma intimação para o estudioso à Cidade Eterna. Esta generosa intenção foi favorecida pela Providência, uma vez que Kircher, a caminho de Viena, naufragou perto de Cività Vecchia e chegou a Roma antes de ter conhecimento da sua convocação. Até sua morte (28 de novembro de 1680), Roma se tornaria o principal cenário da multifacetada atividade de Kircher, que logo se desenvolveu de uma maneira tão surpreendente que o papa, o imperador, os príncipes e os prelados competiam entre si para promover e apoiar as investigações do erudito estudioso. (MULLER, 1913, p. 661)
O que fascinara o benfeitor de Kircher e seu “patrocinador” para sua ida à Roma é que o professor jesuíta buscava solução ao “antigo enigma egípcio” (ou seja, a interpretação dos hieróglifos) dentro do escopo de mundo do Cristianismo. Para Kircher, o cóptico era descendente direto dos hieróglifos, sendo que cada hieróglifo demonstraria uma conexão com um fonema (logo sendo capaz de ser traduzido). Essa ideia da correlação fonema-grafema dos hieróglifos, apesar de sempre ser creditada aos estudiosos da Pedra de Rosetta, já tem sua raiz nos estudos cópicos de Kircher, sendo uma das suas bases de leitura dos hieróglifos.
A primeira publicação de Kircher em Roma, “O Precursor Copta ou Egípcio” (Prodromus Coptus), de 1636, apresentou uma breve introdução ao copta, a língua litúrgica dos cristãos egípcios, escrita em um alfabeto adaptado do grego durante os últimos anos do Império Romano. Embora a Biblioteca Vaticana tivesse reunido uma grande coleção de manuscritos coptas ao longo dos séculos, quase ninguém na Roma do século XVII era capaz de lê-los; com o poderoso Império Otomano controlando o Cairo e a maior parte do Mediterrâneo oriental, o contato entre a Itália e o Egito havia se tornado precário, dependendo da travessia de mares patrulhados pelas forças em conflito da marinha turca e dos Cavaleiros de Malta, e saqueados por legiões de piratas, tanto cristãos quanto muçulmanos. Na própria Europa, os potenciais novos leitores de copta teriam ficado ainda mais frustrados pela ausência de dicionários ou gramáticas que os auxiliassem com uma língua que tinha pouca relação com qualquer outra que provavelmente conhecessem. Mas Kircher havia adquirido um manuscrito árabe medieval que fornecia uma gramática introdutória, da qual o “Precursor Copta” oferecia uma tradução parcial para o latim. Para Kircher, o objetivo de aprender copta era simples: segundo ele, a língua descendia do antigo egípcio e, portanto, continha a resposta para decifrar os hieróglifos. (…) Em seu segundo grande livro, A “Língua Egípcia Restaurada” (Lingua Aegyptiaca restituta), de 1643, Kircher apresentou uma tradução completa de seu manuscrito copta-árabe; aproveitou a oportunidade também para incluir extensas revisões do Precursor Copta, publicado sete anos antes. Agora, finalmente, como declarou no prefácio daquela que era, na prática, uma obra didática da língua copta, ele poderia se dedicar seriamente ao seu abrangente tratado egiptológico, “Édipo Egípcio” (Oedipus Aegyptiacus). (ROWLAND, 2000, p. 1-20)
Estamos falando da Roma de 1650, tempos do Papa Inocente X. Nascido na influente família italiana Pamphili, ele desejava homenagear a sua própria família neste que era um ano de Jubileu para Igreja Católica. Assim, ele comissionara uma monumental praça – a atual Piazza Navona – para Berrini. O papa e o cardeal Capponi, ao saberem que Kircher poderia ler o misterioso obelisco que estava em pedaços em um terreno ao arredor de Roma, o colocaram para trabalhar na empreitada.
Antes que a imprensa de Vitale Mascardi pudesse produzir o monumental Édipo Egípcio de Kircher, em quatro volumes, o incansável pai, agora felizmente imerso em um ritmo de produtividade fenomenal, publicou mais um estudo preliminar sobre a antiguidade egípcia, desta vez dedicado ao próprio papa por ocasião do Jubileu de 1650. O “Obelisco de Pamphiliu”s (Obeliscus Pamphilius), uma obra-prima em formato fólio da imprensa Grignani, comemorava a transposição de um obelisco egípcio em frente ao palácio da família do papa Pamphilius, na Piazza Navona. O próprio obelisco iniciara sua trajetória romana como ornamento no santuário de Ísis – trazido do Egito pelo imperador Domiciano (reinado de 82 a 96 d.C.). No início do século IV, pouco antes de perder para Constantino na Batalha da Ponte Mílvia (311 d.C.), outro imperador, Maxêncio, transferiu a agulha de granito para seu próprio circo ao longo da Via Ápia, onde permaneceu em pedaços no chão até que o Papa Inocêncio decidiu movê-la novamente. A Piazza Navona era um cenário apropriado; o longo contorno arredondado do obelisco neste amplo espaço urbano marcava o local do Circo de Domiciano.
Aqui, em 1648, o escultor Gian Lorenzo Bernini colocou o obelisco restaurado no topo de uma encantadora Fonte dos Quatro Rios, que deu plena expressão ao seu gênio como designer e técnico. Kircher, por sua vez, traduziu suas inscrições hieroglíficas e as resumiu para gravação nas quatro placas de granito que ainda decoram a base do obelisco. Ele provavelmente fez muito mais, pois foi sua interpretação dos antigos textos egípcios que guiou o projeto de Bernini para a fonte, e a montanha oca da qual jorram os quatro rios da fonte segue as ideias de Kircher sobre a estrutura dos continentes – ele acreditava que todas as montanhas se erguiam como cúpulas sobre enormes reservatórios subterrâneos (que ele chamava de hidrofilácia) que alimentavam os rios do mundo.
O “Obelisco de Pamphili”, apesar de suas magníficas gravuras da fonte e do papa, não foi projetado principalmente como um panfleto ocasional, por mais que se assemelhasse a um. Em vez disso, ofereceu um prelúdio para o iminente Édipo egípcio; Kircher já era um publicitário astuto, tanto para sua ordem quanto para sua própria obra. Mais importante ainda, porém, este estudo de 300 páginas ofereceu pistas pelas quais um papa cansado do mundo e pragmático poderia chegar a compreender o significado de todos os trabalhos de Kircher até então, desde seus tratados de filosofia natural até seus textos egiptológicos. (ROWLAND, 2000, p. 1-20)
Assim, notando a breve historiografia que Rowland faz, o obelisco que podemos ver até os dias atuais é um grande exemplo da História da Egiptologia. De um lado, ele foi produzido no fim do Egito Antigo com os conhecimentos sobre os hieróglifos já sendo parcialmente esquecidos no final da Egiptologia Clássica. O sucesso de Kircher em colocar uma narrativa coesa a sua tradução deles a partir do copta inaugura a atualmente chamada Egiptologia Esotérica, mas que em seu tempo era “a” Egiptologia. Por fim, graças ao trabalho de Kircher ser tão disseminado – com os seus livros e a presença da tradução em granito na própria Piazza Navona – fez que ele fosse desacreditado com o advento da tradução dos hieróglifos a partir da Pedra de Rosetta, sendo assim o advento da atual Egiptologia Científica.
No entanto, após esse breve resumo histórico e biográfico, ainda resta alguns questionamentos – que deverão ser brevemente respondidos devido o caráter breve do presente ensaio: Como Kircher traduziu os hieróglifos, quais as razões de seu erro e quais são os pontos de vista filosóficos de sua Egiptologia Esotérica que ainda são interessantes nos tempos atuais.
Kircher e seus hieróglifos
Ao contrário daquilo que Wallis Budge se faz entender, Athanasius Kircher não tirou suas traduções “do nada”. Além da compreensão do copta, Kircher utilizada das referências da Egiptologia Clássica para demonstrar que os hieróglifos era a linguagem primeira da sabedoria, da filosofia.
Pela primeira vez, uma pequena figura egípcia fez sua aparição entre as imagens dos jesuítas, para nunca mais desaparecer: Harpócrates, o deus infante que leva o dedo aos lábios como um mandamento ao silêncio. A verdadeira sabedoria, insistia Kircher ao papa, evitava a expressão da verdade nua e crua; Pitágoras, o primeiro filósofo grego, aprendera isso com os antigos egípcios e transmitira essa percepção à tradição ocidental:
Os pitagóricos transmitiam os ensinamentos que seu Mestre aprendera com os egípcios por meio de enigmas e símbolos, considerando que a exposição nua e crua era incompatível com Deus e a Natureza… e eles se convenceram e acreditaram firmemente que Deus se retirava dos sentidos da humanidade comum e profana, ocultando a compreensão e o conhecimento sob representações e parábolas de vários tipos. Por outro lado, seria bem-vindo e aceitável para Ele que aqueles que genuinamente desejam a verdadeira sabedoria investigassem Seus mistérios ocultos por caminhos secretos e procedessem à descoberta dos sacramentos secretos de Sua santa doutrina por essa via subterrânea. (ROWLAND, 2000, p. 1-20)
No entanto, essa simples visão de mundo filosófica pitagórica não era o suficiente para desbancar o sucesso da tradução de Champollion. Rowland coloca categoricamente a opinião mais imparcial possível da Egiptologia Científica sobre o trabalho de Kircher:
A obra “Édipo” foi o que definiria o prestígio de Kircher como leitor de hieróglifos perante o mundo, e ele sabia disso. Portanto, começou com uma coletânea de setenta páginas de depoimentos de todo o globo, que, em meio a uma babel de línguas e escritas, concordavam que, finalmente, a sabedoria do Egito estava acessível a todas as mentes curiosas. Mas as descobertas de Kircher sobre os hieróglifos eram, infelizmente, em grande parte ilusórias. Suas fontes para os próprios hieróglifos eram irremediavelmente imprecisas: principalmente, incluíam um tratado sobre a escrita atribuído a um tal Horapolo, um texto composto no Egito no final do Império Romano (século IV d.C.). Este tratado, cuja redescoberta causou grande alvoroço no século XV, foi escrito em grego, a língua burocrática imposta ao Egito pelos Ptolomeus e mantida pelos romanos. A longa predominância do grego no Egito significava que estudiosos como Horapolo conheciam apenas os mais tênues vestígios dos hieróglifos. Uma obra mais impressionante de erudição antiga, o ensaio de Plutarco Sobre Ísis e Osíris (escrito no século II d.C.), forneceu o significado de alguns símbolos hieroglíficos, mas Plutarco não fez nenhuma pretensão de conhecer egípcio. Kircher também fez uso extensivo de um artefato arqueológico chamado Mensa Isiaca — a Mesa de Ísis, um tampo de bronze incrustado com desenhos egípcios em prata, que havia sido escavado em Roma no sítio do antigo templo de Ísis na década de 1520 e adquirido pelo escritor veneziano (e futuro cardeal) Pietro Bembo. Infelizmente, agora está claro que o tampo deve ter sido feito por um artesão romano para um devoto romano de Ísis, pois os hieróglifos que Kircher e seus contemporâneos estudaram com tanta atenção são pura invenção decorativa: a ideia de um romano antigo de como a escrita egípcia poderia ser. O domínio do copta por Kircher também não foi suficiente, por si só, para decifrar a escrita egípcia; Como sabemos, seria necessário um linguista com dons comparáveis aos dele — Jean-Louis Champollion — juntamente com a Pedra de Roseta, com suas traduções literais do grego para o egípcio, para desvendar o enigma final da Esfinge egípcia. (ROWLAND, 2000, p. 1-20)
No entanto, nas críticas a Kircher, vire e mexe encontramos o ponto de tentar entendermos o que Kircher quis fazer com a sua tradução. Godwin é um deles ao dizer que
desde que Jean-François Champollion resolveu o problema em 1822-4, com o auxílio da Pedra de Roseta, os hieróglifos são reconhecidos como um sistema fonético de escrita, e ridicularizar a suposta solução de Kircher tornou-se fácil. No entanto, Kircher não tinha a Pedra de Roseta, nem um grande conjunto de inscrições hieroglíficas para estudar, e muitas das fontes disponíveis para ele eram tardias, corrompidas ou praticamente sem sentido. Além disso, ele contava com a autoridade do filósofo neoplatônico Iâmblico, que escreveu em seu “De Mysteriis”: “Os caracteres egípcios não foram feitos por acaso ou tolice, mas com grande engenhosidade, seguindo o exemplo da Natureza”. Vários autores hebreus e árabes concordaram, nomeando ninguém menos que Hermes Trismegisto como o inventor dos hieróglifos. Não é de admirar, portanto, que Kircher tenha concluído que eles continham “não histórias ou elogios de reis, mas os mais altos mistérios da Divindade” (“Obeliscus Aegyptiacus”), e rejeitado qualquer interpretação inferior. (GODWIN, 2025, p. 80)
O segredo aqui está na ideia dos Mistérios. Se fomos ler atentamente o Oedipus Aegyptiacus vamos notar que ele também é um tratado cabalístico. Godwin admite isso e vai além a entender que para Kircher essas disciplinas esotéricas eram as verdadeiras herdeiras da sabedoria egípcia, sendo chave para compreensão de sua linguagem, ou seja, os hieróglifos.
Kircher considerava a idolatria e o politeísmo egípcios como a fonte não apenas da religião grega e romana, mas também das crenças dos hebreus, caldeus e até mesmo dos habitantes da Índia, China, Japão e Américas, colonizados, por sua vez, pelos descendentes de Cam. Portanto, ele acreditava que, estudando essas crenças posteriores e melhor documentadas, seria possível extrapolar a religião mais antiga da humanidade, a do antigo Egito. Essa busca o levou, no auge de sua capacidade intelectual, a produzir uma das obras mais notáveis do final do Renascimento, o Édipo Egípcio. Ele percebeu que em toda tradição existe um lado exotérico e um lado esotérico, e que este último está invariavelmente mais próximo da verdade e de outras doutrinas esotéricas. Consequentemente, metade do Édipo Egípcio é dedicada à exposição dos sistemas teosóficos de Zoroastro, Orfeu, Pitágoras, Platão e Proclo, bem como à Cabala caldeia e hebraica. Ele derivou tudo isso da sabedoria egípcia, que acreditava ter sido transmitida nos escritos herméticos. (GODWIN, 2025, p. 20-21)
Assim, o que Kircher fez foi tentar entender apenas o lado esotérico dos hieróglifos – o oculto – enquanto o lado exotérico, fonético tal como ele diz antes de Champollion em seus estudos sobre o copta, era apenas uma forma de esconder a verdadeira mensagem daqueles textos. Kircher, no limite, não se preocupou com o que Champollion acharia futuramente, ele queria traduzir a sabedoria dos Mistérios egípcios que era contida em cada hieróglifo.
Considerações finais
No limite, podemos comparar Kircher e sua leitura dos hieróglifos com o método cabalístico de ler a Torá. Tal como Moses Cordovero coloca em seu Or Ne’erav, um século antes de Kircher, o mundo surgiu por causa da existência da Torá. Toda as histórias e fatos que existem na Torá estão lá apenas para dar “forma” à sabedoria infinita de Ayin Ein Sof, ou seja, sem forma e vazia nos olhos materiais. Assim, a Torá não deveria ser levada literalmente, mas sim estudada como um vinho. A sabedoria verdadeira da Torá está no oculto, no vinho, e não na sua forma (as histórias e parábolas), ou seja, o copo que permite que o vinho chegue até nós (ROBINSON, 1994).
Sabemos que Kircher era um leitor e professor de hebraico e teve contato com os tratados cabalísticos em sua tarefa de jesuíta. Assim, ele entendia que se os místicos judeus falavam que se deveria ir além do literal na Torá, o mesmo deveria ser feito com os hieróglifos.
Isso é um ponto de vista filosófico que a Egiptologia Científica não consegue desbancar da Egiptologia Esotérica. É claro que, atualmente no século XXI, o esoterismo ganha ares mais espetacularizantes do que filosóficos, mas isso não significa que toda a corrente de compreensão que se inicia com Kircher deva ser descartada só por causa da Pedra da Rosetta. Esse é um desafio que nós, os egiptólogos com o desejo de uma investigação transcendental, devemos sempre buscar.
Referências Bibliográficas
GODWIN, Joscelyn. Athanasius Kircher’s Theater of the World. (epub). Independent Publishing: Amazon KDP, 2025.
MULLER, Adolf. “KIRCHER, Anthanasius”. In: Catholic Encyclopedia vol .8. New York: Encyclopedia Press, 1913.
ROBINSON, Ira. Moses Cordovero’s Introduction to Kabbalah: An Annotated Translation of His Or Ne’erav. New York: MYSU, 1994.
ROWLAND, Ingrid D. The Ecstatic Journay: Athanasius Kircher in Baroque Rome. Chicago: UCP, 2002. [páginas 1-20 disponíveis em https://fathom.lib.uchicago.edu/1/777777122590/. Acesso: 12/04/2026].
STOLZENBERG, Daniel. Egyptian Oedipus: Athanasius Kircher and the Secrets of Antiquity. (epub) Chicago: UCP, 2015.
WALLIS BUDGE, E. A. Easy Lessons in Egyptian Hieroglyphics. London: Kegan & Co., 1922.
Rafael Duarte Oliveira Venancio
Escritor, tradutor, dramaturgo, psicanalista, historiador e professor. É Doutor em Meios e Processos Audiovisuais pela Universidade de São Paulo onde também realizou estágio de pós-doutorado e se formou Mestre e Bacharel em Comunicação Social. Possui licenciatura em História, além de especializações lato sensu e formações específicas em Psicanálise, Egiptologia, Ciências da Religião, Cultura Védica, Filosofia, Teatro e Esoterismos.
