A educação pela eternidade nos textos gregos antigos

Os homens olham os deuses como seus desejos mais profundos, como parte deles mesmos no mundo e sua estranha desolação diante ao destino.

Estevan de Negreiros Ketzer

Psicólogo Clínico. Doutor em Letras (PUCRS). Pós-doutor em Ciências da Religião pelo Labô – Laboratório de Política, Comportamento e Mídia – Labô / Fundação São Paulo/PUC-SP

O canto das musas eleva a linguagem dos homens. O canto (melos) coloca as palavras com uma força primordial, centelhas de vida que reforçam a presença da linguagem no ser e o ser na linguagem. A linguagem é por essa razão sagrada, pois é pelo canto que ela atinge as notas da eternidade (aion). O espírito antigo contempla as formas de toda a realidade ao administrar a ordem dada dos deuses para os homens. Deve haver desordem (caos) para chegarmos à ordem (cosmos), tal como polos opostos complementares. Só um existe pelo outro, um dá luz ao outro por uma necessidade intrínseca de existência, a fecundação e a compensação de todo o universo ilustrado pelo panteão dos deuses. Assim, a Teogonia de Hesíodo nos mostra sua particularidade em mostrar a composição dos deuses, como no exemplo dos versos 468-473, abaixo:

Allʼ óte dí Díʼ émelle theón patérʼ idé kaí andrón téxesthai, tótʼ épeita fílous litáneve tokías toús aftís, Gaíán te kaí Ouranón asteróenta, mítin symfrássasthai, ópos leláthoito tekoúsa paída fílon, tísaito dʼ erinýs patrós eoío paídon thʼ, oús katépine mégas Krónos ankylomítis.

Mas quando a Zeus pai dos Deuses e dos homens ela devia parir, suplicou-lhe então aos pais queridos, aos seus, à Terra e ao Céu constelado, comporem um ardil para que oculta parisse o filho, e fosse punido pelas Erínias do pai e filhos engolidos o grande Crono de curvo pensar (HESÍODO, 2015, p. 126-127).

Crono de curvo pensar é também o pensar com a curvatura da foice (árpen), tal foi o objeto utilizado para extirpar as genitálias de Céu (Uranos), o seu próprio pai. Desde os fundamentos filhos não conhecem seus pais e pais são severos com os filhos. O destino (moira) não está nas mãos dos deuses o tempo todo, caso contrário as Erínias não investiriam de culpa as ações deles. Os homens olham os deuses como seus desejos mais profundos, como parte deles mesmos no mundo e sua estranha desolação diante ao destino. Sendo assim, é natural que os gregos deveriam investigar os deuses também como partes da força da natureza que os conduz até onde eles mais se assemelham ou divergem. O segundo fragmento (Frg. DK 28 B2) de Parmênides de Eleia nos indica algo de suma importância acerca da cosmologia grega antiga.

he mèn hópos éstin te kaì os ésti mè eînai, peithoûs esti kéleuthos (aletheíei gàr opedeî),

“o primeiro, que é e, portanto, que não é não-ser, de persuasão é o caminho (pois à verdade acompanha)” (PERMÊNIDES citado por GALGANO, 2018, p. 14).

É de Parmênides os fragmentos sobre o ser em sua extensão no pensamento humano. Pensar e ser coincidem, ainda que para o impensável possa vir a ser (gignesthai). “O ser se determina (onticamente) e se define num discurso pelo Não-Ser e pelo conceito de Não-Ser” (TORRANO, 2015, p. 46). O não-ser presente no estado potencial dos seres é curioso quando o encontramos. Talvez tenha sido essa a impressão de Heráclito ao ler o universo e depreender dele um princípio organizativo chamando-o assim de logos.

Homero emprega o verbo lego, da mesma raiz de logos, para o processo de recolher alimentos, armas e ossos, para reunir homens. Cada uma dessas operações implica comportamento criterioso; não se reúnem armas, por exemplo, sem as distinguir de outros objetos. Concomitantemente, logos significa uma reunião de coisas sob determinado critério (SCHÜLER, 2001, p. 17).

Logos como princípio de que dirige o discurso, traz também a palavra, sua forma material e espiritual, raiz das coisas que o ar move, passando pelo pulmão e indo até o diafragma. A palavra para conhecimento prático (phronesis) possui dentro dela a partícula phren o diafragma, tal como o movimento da respiração. Os sentidos devem participar de todo o verdadeiro conhecimento (gnosis), elevando-se assim ao status da virtude (areté). Por essa razão, o logos é intransferível e particular para o universo de expansão e retração de todo o universo. Como toda a mediania que traga beleza (kaga) e se expresse no encaixe e na conexão (harmonia). Eis a verdade (alethes) aquela que não se pode esquecer (lethes).

Por esse motivo o conhecimento da verdade deve gera um saber geral que inclua nele nossa percepção sensível. Eis a ideia de ciência (episteme), a qual diverge da opinião (doxa), o falso conhecimento travestido.  Outrossim, o conhecimento especializado (idian phronesin) pode levar a uma pessoa que não sai de si mesma (idiota). Ele age a consumir pessoas como se tivessem de servi-lo como uma obrigação, consumindo as pessoas ao seu redor como um objeto. “O idiota não reflete porque fez do mundo exterior uma coisa submissa a seus desejos” (SCHÜLER, 2001, p. 19). Só temos essa concepção de phronesis poque vemos dentro dela a importância da humildade (sebas), cujo sentido deve aliviar o homem para tomar a ação justa e adequada.

O conhecimento é algo tão importante para os gregos antigos a ponto de terem muitos termos diferentes para enunciar como determinavam o pensamento em suas diferenças específicas. Além de ciência (episteme) e do conhecimento individual resultado da percepção (gnosis), há o lugar da própria experiência (empiria) e de um tipo de conhecimento prático, cujo resultado é um serviço ou produto (techne). Os gregos também reconheciam a mudança entre um profissional que começa e outro que adquire uma larga experiência de muitos anos (tribe), algo como a expertise que nossa língua tomou do inglês. Acerca da experiência os gregos distinguiam dois tipos: um relacionado a adquiri-la em primeira mão (autopsía) e outro derivado da investigação de fontes do passado (istoría). Também merece destaque o procedimento de aprendizado (mathemá) e o resultado adquirido pela própria introspecção (dianoía). Quando se começa a relacionar os diferentes conteúdos em prol de uma organização específica de partículas (gár) se obtém uma conjectura (tekmairesthai) e assim um procedimento de raciocínio (silogismos) o qual forma parte do intelecto (nous).

 O elemento básico no qual todo o saber dos antigos se baseia, reside na ideia de que há uma unidade do conhecimento na unidade da consciência e vice-versa. Essa é uma definição simplificada dos dois elementos básicos de todo aquele que busca sabedoria (sophía): a conexão do homem com aquilo do qual toda a realidade emana. Esse fato inclui os princípios e as leis cósmicas, portanto, cosméticas (cosmos kai étika). Eis também a ordenação do caráter / costume. Toda a educação (agogé) deve gerar essa ordenação, uma consciência acerca da natureza em diferentes graus e a partir de formas variadas, a qual chamamos hoje de cultura.

A forma mais antiga e tradicional de educar veio na forma da literatura, com os três gêneros clássicos: epopeia (narrativa em versos); poesia mélica (lírica); drama encenado (tragédia e comédia) (CARPEAUX, 2021). No entanto, as três formas poéticas não são tão distintas como costumamos ver em salas de aula ou sob o viés de uma teoria literária específica. As três formas poéticas conversam entre si e com influências que partem de diferentes lugares da Grécia. A própria retórica acaba sendo parte viva e importante da vida grega, a qual será um dos motores para a política das cidades-estados (pólis).

mýthōn te rhētēr’ ésomen prāktērá te érgōn

“Para ambas as coisas: proferir palavras e realizar ações”

(Ilíada, Canto IX, verso 443)

Aquiles é herói da epopeia. Suas ações devem ser imitadas, pois, ele é bom, belo e verdadeiro (kalokagathía). Ele ilustra o quanto o guerreiro faz coisas grandes. Ele representa os valores gregos mais altos. Aquiles é o ideal do Estado/cidade, a polis grega: ele supera todos os lugares, possui uma linhagem divina, encontra na educação o maior legado espiritual para todos os homens gregos. É algo no interior do homem. Há oráculos que traduzem os desígnios dos deuses. A pessoa deve conhecer a si mesma (gnote seauton), como vemos em Delphos. A educação clássica é uma psicologia na qual o mestre pergunta aos seus discípulos, desperta em suas vidas o real interesse pela investigação, trazendo curiosidade e humildade. Os gregos chamavam isso de alma (psyque). A alma possui uma profunda beleza (kaga) é tão verdadeira (aletheía) e profunda que possa libertar o homem, paulatinamente, da sua condição patológica, a qual padece (páthos).

Portanto, o domínio disso que padece é algo muito valorizado pela classe culta grega. Eles foram chamados de aristocratas por serem hábeis nas virtudes (aretes). O que era apenas o domínio de uma classe administrativa cura aos poucos o grande exercício de todos os habitantes gregos. O aperfeiçoamento não pode ser apenas em tarefas práticas, mas deve justamente servir ao caráter do homem. Daí a Filosofia que era a investigação da natureza do mundo (physis), dedicar-se com Pitágoras e Sócrates ao que é o viver em comunidade. Há a percepção de que o indivíduo deve sua entrada no universo em um “ato de intuição espiritual que capta o uno no múltiplo” (JAEGER, 2001, p. 705). O homem o faz por via de um exercício (meléte). Os gregos estão acostumados a escreverem em pequenos relatos suas percepções (hyponemathas), ou seja, pequenos aprendizados. Os relatos se proliferam e há uma vontade em que essa cultura espiritual de aperfeiçoamento avance nas áreas forense e na política. A necessária distinção das coisas (logos) leva a uma experiência do aprendizado, ao mesmo tempo comum e extraordinária para quem entra nessa relação, assim o vemos no diálogo Mênon. A ciência (episteme) é espiritual (pneumatikos). A noção de exercício espiritual (askesis) acompanha o homem grego em busca da sabedoria. Os diversos saberes estão todos apontando para a verdade. Há intuição (diaisthese) na geometria, pois, é nela que podemos ver objetos reais serem pensados. Também há na música a associação de notas que levam a uma coerência interna do sistema de vibrações. O ato de pensar (logos) deve se encontrar na matéria (hylé), uma está na outra, elas se explicam de alguma forma e permitem que façamos perguntas, as quais podemos ainda não ter como responder.

O filósofo é um médico da alma (psique therapeía). O verdadeiro conhecimento não vem de alguém que lhe ensine, senão de tirar esse conhecimento de dentro de si (maiêutica). Platão indica isso ser mais antigo, advindo da Mesopotâmia, no seu diálogo Fédon. Aquele que se detém em cumprir uma virtude deve fazê-lo também porque encontrará dificuldades em si sobre o seu manejo. Logo, se busca na cessação dos excessos (hybris) deve encontrar na temperança (sophrosyne). O que me falta para alcançar a felicidade (eudaimonia)? Por que meu desejo me leva a maus encontros? Por que essas pessoas ruins me despertam os excessos? A felicidade é a finalidade de todo o homem, seja grego ou não. Aquele que encontra a verdadeira felicidade está livre da ignorância, pois, soube controlar o carro dos instintos e dos desejos vãos. É a visão (theoría) a marca de como nos aproximamos da beleza profunda das coisas que estão na natureza, cujo escopo aponta ao divino, nos leva de volta a forma antiga do canto (melos).

Por explicitar tais questões é que Sócrates é levado à praça pública, tendo em vista a hipocrisia reinante em Atenas. Essa inversão de valores não era apenas um problema grego como também foi percebido em outras culturas, como o povo judeu equalizou com o nascimento dos profetas de Israel (Isaías, Jeremias, Ezequiel) e antes deles o fundador da escola dos profetas, Elias, em Carmel. Os profetas hebreus desafiam a autoridade dos sacerdotes com a pureza (kathos) de seus corações. Como punição são todos apedrejados (Nehemiá 9:26). Esse fenômeno ainda nos leva a um grau profundo de reflexão sobre como a formação da nossa alma ao menos para despertar o que há de melhor depende impreterivelmente do ensino.

Nesses exercícios espirituais contidos nos diálogos de Platão também está o contexto da Grécia (hellas) antiga do século V a.C. (HADOT, 2014). Eis o período clássico devido as reformas de Péricles ao restabelecer a democracia e o amplo desenvolvimento educacional jamais presenciado pela humanidade até então. O Estado grego (polis) percebe a necessidade dos indivíduos se comunicarem, pois, o verdadeiro bem deve influenciar atitudes altruístas. Necessariamente deveria ser como um parto (maiêutica) como vemos no diálogo Teeteto (PLATÃO, 2007), parir uma alma. A filosofia em sua forma ética, tal como vemos em Sócrates é o divisor de águas na formação mais adiantada dos aspectos educacionais do caráter humano. Por essa razão chamamos de Paideia (Παιδεία) o modelo de educação em todos os níveis de formação humana, o qual se estende por toda a vida. Um modelo de educação que é consciente de si próprio em muitos aspectos, por isso o termo paideía pode ser aproximado ao que entendemos hoje em dia por cultura: convenções coletivas que irradiam para formas individuais de relacionamento em diferentes domínios (trabalho, lazer, religião, crenças, personalidade).

Eu quero deixar claro um aspecto importante que diz respeito a integridade do filósofo diante da destruição da malha cultura. Ele é incorruptível frente a sua percepção da realidade. Ele não pode abrir mão do que sente e conecta, não pode fazer concessões. Não se entrega a conjuntos prontos, ou formas já pré-estabelecidas. Ele investiga profundamente em si mesmo o que realmente lhe pertence para que com isso retorne para a realidade e diga as pessoas o que ele encontrou em si (enkrateía). Com isso revela nos outros a beleza que os faz querer em busca de seus próprios aspectos e daí sentir-se pertencente ao próprio universo.

Contudo, a oposição à beleza resplandecente da verdade leva também ao aparecimento de inveja decorrente daqueles que por não se sentirem capazes de participarem desse procedimento desejam destruir quem o possui. Surgem os demagogos, aqueles que pervertem seus direitos como homens livres e com suas opiniões prevalecentes na sociedade grega. A esses homens a tradição ocidental também os chamará de hipócritas, em referência a atuação de Téspis, cuja vestimenta com túnica e máscara de bode dará vida aos ditirambos dionisíacos e, paulatinamente, ao surgimento da tragédia[1] (SILVA, 2022). Essa clara divisão da sociedade grega é mais profunda do que se imagina, segundo a visão de Platão, pois mostra algo que com o tempo tornou-se corruptível dentro do ideal da cultura helênica.

A distinção, entre doentes curáveis e incuráveis, estabelecida a respeito das almas que não chegam sãs deixa aberto um caminho de cura através de grandes sofrimentos e dolorosas terapêuticas. As incuráveis – na maioria almas de tiranos e homens de poder, que já não é possível salvar com nenhuma terapêutica – são erigidas em exemplos eternos, paradeigmata, para benefício das outras. Portanto, o mundo que segue à morte converte-se na continuação e no aperfeiçoamento da paideia da vida terrena: os mal-educados, mas capazes ainda de correção, conseguem uma última possibilidade de atingir ainda a meta, à força de duros sofrimentos e castigos. Os incapazes de correção, os que já não podem ser salvos, servem ao menos de meio para a educação dos demais (JAEGER, 1995, p. 688-689).

Toda a educação clássica é, ao fim e ao cabo, uma melhor contínua e gradual do elemento humano no núcleo daquilo que a ideia de tradição nos promove um respaldo. Aqueles que não conseguem adquiri-la estão infringindo uma lei não apenas humana, mas a própria justiça divina, diga-se de passagem, a justiça de toda a organização do cosmos (JAEGER, 1952). A cosmética, a visão de uma organização e de uma ética respectiva a essa organização pelo modo dos seres humanas se relacionarem, exige mais do que apenas o tempo e o espaço seculares, mas antes um princípio universal fecundo. A beleza em si é a continuidade da tradição, a qual se vê eterna (aion), pois esse ensino é aperfeiçoado quando se desenvolve também a capacidade de observância de seus próprios erros.

Referências:

BÍBLIA HEBRAICA. Tradução de Jairo Fridlin e David Gorodovits. São Paulo: Sêfer, 2006.

CARPEAUX, Otto Maria. História da Literatura Ocidental: da herança greco-romana ao classicismo. Campinas: Sétimo Selo, 2021, vol. 1.

GALGANO, Nicola Stefano. O não-ser em Parmênides de Eleia.  Trans/Form/Ação, vol. 41, n. 2, Apr-Jun 2018. DOI: https://doi.org/10.1590/0101-3173.2018.v41n2.02.p9.

HADOT, Pierre. Exercícios Espirituais e Filosofia Antiga. Tradução de Flavio Fontenelle Loque e Loraine Oliveira. São Paulo: É Realizações, 2014.

JAEGER, Werner. Paideia: a formação do homem grego. Tradução de Artur M. Parreira. São Paulo: Martins Fontes, 1995.

JAEGER, Werner. La teología de los primeros filósofos griegos. Traducción de José Gaos. Ciudad del Mexico: Fondo de la Cultura Económica, 1952.

PLATÃO. Teeteto. Tradução de Edson Bini. São Paulo: Edipro, 2007.

SCHÜLER, Donaldo. Heráclito e seu (dis)curso. Porto Alegre: L&PM, 2001.

SILVA, Rafael Guimarães Tavares da. Origens do Drama Clássico na Grécia Antiga. São Paulo: Edições Loyola, 2022.

TORRANO, Jaa. O mundo como função das musas. In: HESÍODO. Teogonia: a origem dos deuses. Tradução de Jaa Torrano. São Paulo: Iluminuras, 2015.


[1] O termo tragédia é uma aglutinação dos termos tragos (bode) e ódes (canto).

+ posts

Estevan de Negreiros Ketzer é psicólogo clínico (PUCRS), com mestrado e doutorado em Literatura (PUCRS). Realizou pesquisa nos arquivos do IMEC, na França, em 2015. Assessorou a Uniritter na implementação do curso de Escrita Criativa em 2016. É pesquisador do Núcleo de Estudos Judaicos (NEJ) da UFMG e pós-doutorando em Literatura (UFMG).

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *