Breve colóquio sobre mitologia

‘É bela a filha de Zeus’, Hefesto confirma o que é dito por Lucrécio, todavia acrescenta ‘mas não consegue conter o desejo’, o que a leva ao seu declínio.”

Arthur Weba

Essa obra, O Nascimento de Vênus — Botticelli, foi inspirada em um poema tão belo quanto a pintura. O poema em questão é De Rerum Natura (v. 1-9) — Lucrécio:

«Aeneadum genetrix, hominum diuomque uoluptas,

alma Venus, caeli subter labentia signa

quae mare nauigerum, quae terras frugiferentis

concelebras, per te quoniam genus omne animantum

concipitur visitque exortum lumina solis:

te, dea, te fugiunt uenti, te nubila caeli

aduentumque tuum, tibi suauis daedala tellus

summittit flores, tibi rident aequora ponti

placatumque nitet diffuso lumine caelu».

A tradução em português, pelo prof. Frederico Lourenço:

«Dos Éneadas progenitora, dos homens e dos deuses prazer,

alma Vênus, que sob os signos deslizantes do céu

o mar navegável, que as terras portadoras de cereais

preenches, porque através de ti toda a raça de seres vivos

é concebida e vê, uma vez nascida, as luzes do Sol:

de ti, deusa, fogem os ventos; de ti <fogem> as nuvens do céu

e <fogem> da tua chegada; para ti a terra habilidosa

dá flores suaves; para ti sorriem as águas do mar

e o céu apaziguado brilha com luminosidade derramada»

É curioso como a deusa do amor, na mitologia, Vênus, ou Afrodite como chamavam os gregos, tem uma passagem muito trágica, a saber: quando ela acaba cometendo adultério com Ares, e os dois são surpreendidos por Hefesto. Odisseia, canto VIII (290-320), in verbis:

«[…]Ares entrou pela casa adentro,

pegou-lhe na mão e assim lhe disse, tratando-a pelo nome:

“Vamos para a cama, meu amor, para gozarmos o nosso prazer.

Hefesto não está entre os deuses , mas foi para fora — decerto

para Lemnos, para visitar os Síntias de fala selvagem.”

Assim falou; grata lhe pareceu a ideia de se deitar com ele.

Foram para cama e aí se deitaram. Por cima deles caíram

as correntes bem executadas do pensativo Hefesto.

Não conseguiram mexer os membros nem levantar-se;

e em breve reconheceram que dali não havia fuga.

Aproximou-se deles então o famoso deus ambidestro,

tendo voltado para trás, antes de chegar a Lemnos:

pois o Sol mantivera vigília e lhe dera o aviso.

Dirigiu-se para sua casa, de coração entristecido,

e postou-se junto dos portões, dominado pela ira feroz.

Lançou gritos horripilantes, berrando a todos os deuses:

“Zeus pai, e todos vós bem-aventurados que sois para

sempre

Vinde para aqui, para verdes um trabalho risível e

insuportável;

para verdes como Afrodite, filha de Zeus, me desonra

por ser coxo, dando o seu amor a Ares detestável,

porque é belo e bem-feito de corpo, ao passo que nasci

estropiado; e a culpa disso é exclusivamente dos meus pais,

que me geraram — quem me dera nunca ter nascido!

Mas vereis onde aqueles dois se deitaram em amor:

na minha cama, enquanto eu fico a olhar, desesperado.

Mas não penso que eles queiram ficar deitados mais tempo,

por muito que se amem; rapidamente perderão o desejo

de estarem deitados. E em vez disso o dolo e as correntes

os manterão amarrados, até que o pai me devolva tudo,

Todos os presentes nupciais que ofereci por causa desta

cadela:

é bela a filha de Zeus, mas não consegue conter o desejo.”»

Nessa confusão, até os próprios deuses do panteão grego começam a tirar sarro da situação:

«[…] e um riso inexaurível brotou por parte dos deuses

bem-aventurados,[…]»

(op. cit., canto VIII,327-328)

«””Não prosperam as más ações!’ ‘ O Lento apanha o Rápido!’

Ora como no caso de Hefesto: tão lento, conseguiu apanhar

Ares, o mais rápido de todos os deuses que o Olimpo detêm,

pelo artifício, sendo coxo! Ares terá que pagar por este

adultério.”»

(op. cit., canto VIII, 329-331)

«É bela a filha de Zeus», Hefesto confirma o que é dito por Lucrécio, todavia acrescenta «mas não consegue conter o desejo», o que a leva ao seu declínio, sendo acorrentada com Ares. Essa história é definitivamente tragicômica, há uma traição, porém acontece algo tremendamente inusitado, o coxo apanhou o mais rápido do Olimpo, algo que até mesmo fez com que os deuses gargalhassem.

São Luís – MA, 01-II-2026;

in oboedientia veritatis,

Arthur Weba

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