Moshe de León e a Cabala do Zohar

Leonora Carrington, “The Rabbi” (1974), lithograph on Arches paper, 26 x 19 1/2 inches, edition of 100 (© 2022 Estate of Leonora Carrington/ARS)

Não podemos deixar de observar um sincretismo muito forte apontado pela Cabala e os grupos de estudos que ensinavam aspectos espirituais acerca dos mandamentos, fato esse que serviu para divulgar um mistério cada vez maior principalmente no fato do povo judeu ser tão antigo e difícil de acessar pelos gentios.

Estevan de Negreiros Ketzer

Psicólogo Clínico (PUCRS). Mestre e Doutor em Letras (PUCRS). Email: [email protected]

“Tudo no mundo está dividido em duas partes, das quais uma é visível e outra invisível. A visível nada mais é do que o reflexo da invisível.”

Zohar I, 39

Falar de Moshe ben Schem Tov de Leon, mais conhecido como Moshe de Leon, é falar de um dos mais importantes capítulos da história da Cabala. Nascido em Guadalaxara em 1250, lugar em que viveu até 1290. Sua vida nos últimos dez anos foi repleta de viagens, estabelecendo moradia em Ávila, por fim. Ele teve contato com o famoso cabalista Todros Abuláfia e seu filho José em Toledo. Moshe de Leon conhecia e utilizava os escritos de Salomão ibn Gabirol, Iehuda Halevi, Maimônides, Bahia ibn Pakuda, entre outros. Após muitas viagens a Valladolide, ele conheceu um cabalista chamado Isaac ben Samuel, do Acre. Moshe de Leon refere possuir um manuscrito original do Zohar com séculos de idade, o qual teria encontrado quando comprou um peixe na feira de Àvila. Segundo Moshe de Leon o manuscrito seria de autoria do famoso rabino de Tsfat, Rabi Shimon bar Yochai. Nós sabemos pelo Talmud a importância de Shimon bar Yochai e de seu mestre o Rabi Akiva, os quais foram muito importantes para a era amoraíta, muito próximo ao período tanaíta com o surgimento de líderes rabinos nas comunidades. Essas duas eras estão sendo interpeladas pelo nascimento da redação escrita da tradição oral (Torá shebeal peh), configurada pela Mishná, Guemará e sua compilação final pelo Talmud.

Suas obras são muito abrangentes no tocando ao retorno da tradição original do judaísmo, perdida em parte pelo desenvolvimento do rabinato massivamente ritualístico. Essa crítica parece surgir justamente em obras como Sefer ha-Rimmon, de 1287, cujo manuscrito ainda está preservado, em sua busca por um ponto de vista místico dos objetos e das leis rituais, dedicando o livro ao amigo Todros Abulafia. Em 1290 escreveu Ha-Nefesh ha-Ḥakamah ou Ha-Mishḳal, o qual mostra tendências cabalísticas ainda maiores. Nesta obra ele ataca os filósofos da religião e lida com a alma humana de maneira a dar espaço para pensarmos sua ressurreição e a doutrina da transmigração claramente expressa. Em 1292 escreveu Sheḳel ha-Ḳodesh e em 1293 publicou Mishkan ha-Edut, ou Sefer ha-Sodot. Nesse último ele trata do céu e do inferno, depois trata do livro apócrifo de Enoque. Ele escreveu também uma explicação cabalística do primeiro capítulo de Ezequiel.

As informações contidas tanto no livro de Enoque quanto no primeiro capítulo de Ezequiel são de extrema importância para alguns pontos importantes dentro da Cabala. O livro de Enoque, outrora um livro muito lido, por colocar em evidência um período em que os anjos copularam com os homens dando-lhes “filhas bonitas e amoráveis” (Capítulo 6) e ensinavam “bruxarias, exorcismos e feitiços” (Capítulo 7). As histórias de Enoque caíram em desuso após o século IX da era comum, porém, foram preservadas nos manuscritos do Mar Morto, em Qumran, e pelas tradições etíopes tanto a judaica (beta Israel) quanto a cristã.

Já o livro Ezequiel avança também em sua revelação acerca dos enormes palácios (hechalot). Encontramos ali já a formação da Academia de Pumbedita, durante o exílio babilônico. A visão de Ezequiel ainda soa estarrecedora aos nossos dias diante à condução da mão de Deus para olhar a verdade que só o coração puro percebe: “Ó filho do homem! Escava agora o muro. E quando o fiz percebi que havia uma porta. Então me disse: Entra e contempla as pérfidas abominações que aqui são praticadas. Entrei, pois, e observei, e eis que havia todas as formas detestáveis de répteis e bestas abomináveis, e todos os ídolos da Casa de Israel representados na parede em todo o redor” (Ezequiel 8:7-10). Portanto, a crítica acerca do que acontece com a índole de Israel já é aos poucos se alastra para algo que Israel não consegue conter sem antes cair em perigo à verdadeira tradição.

 Não parece menos importante que o próximo livro de Moshe de Leon seja justamente o Zohar. É notório o quanto a difusão da Cabala judaica serviu para ajudar as comunidades judaicas a escaparem de perseguições. Também não podemos deixar de observar um sincretismo muito forte apontado pela Cabala e os grupos de estudos que ensinavam aspectos espirituais acerca dos mandamentos (mitzvot), fato esse que serviu para divulgar um mistério (taalumat) cada vez maior principalmente no fato do povo judeu ser tão antigo e difícil de acessar pelos gentios (goyim). Justamente esse elemento também despertou inveja de muitos olhares, sendo tão visto por instituições inquisitórias das mais diferentes montas ao redor do mundo. Sendo assim, a Cabala serve como um escudo (magen) da própria comunidade dos judeus. Um escudo que serviu em diferentes momentos para recriar a própria tradição judaica, como o intelectual alemão-israelense Gershom Scholem fez questão de apontar em seu livro As grandes correntes da mística judaica (SCHOLEM, 2008).

Scholem é reticente quanto a tudo que envolve um certo excesso diante das criações da Cabala e sua sugestão mística do texto da Torá. A Cabala se vale de interpretações sobre os textos, mistérios que envolvem a primeira linha da Bíblia: “No princípio, Deus criou os céus e a terra” (Bereshit 1:1). É digno de nota o quanto a liberdade na interpretação das escrituras sagradas é uma invenção moderna, pois, o mestre de Martim Lutero foi o cabalista Johannes Reuchlin, e nele depositou uma tentativa de trazer os judeus para o cristianismo, a qual se viu frustrada e, então, enveredou para o antissemitismo. Por volta do século XIII isso parece já muito evidente na Cabala de Moshe de Leon.

A análise linguística mostra um uso do hebraico e do aramaico de formas muito diferentes. O hebraico é medieval, porém, o aramaico é repleto de estrangeirismos e neologismos, os quais são completados com alguns arabismos e outras compreensões vindas do espanhol. Isso sugere que o Zohar tenha autores diferentes. Outro elemento importante observado é a descrição da paisagem no Zohar. Curiosamente ele não representa a Galileia do século II da era comum, mas sim a Andaluzia. “A Palestina que é descrita em todas as suas partes não é o país real tal como existe ou existiu, mas um país imaginário” (SCHOLEM, 2008, p. 189). Esse fato é profundamente representativo de uma reconstrução de todo o horizonte literário do livro, pois: “o autor nunca tinha nem sequer posto os pés na Palestina e que seu conhecimento do país derivava inteiramente de fontes literárias” (SCHOLEM, 2008, p. 189). Um livro repleto de referências diversas da configuração rabínica tradicional com “suas referências frequentes ligadas ao paganismo como uma forma de culto astral intimamente ligado à magia e à idolatria” (SCHOLEM, 2008, p. 193). E isso é algo que nos chama muito a atenção, pois, encontramos no Zohar uma construção que se diz mais antiga do que a época de seu aparecimento, mas não encontramos referências anteriores ao seu surgimento.

A tarefa torna-se tanto mais intrincada e divertida quanto o autor não só deixa de indicar suas verdadeiras fontes, mas fornece referências fantásticas a fontes inexistentes. O livro inteiro está cheio de citações fictícias e outras referências falsificadas a escritos imaginários, que levaram até pesquisadores sérios a postular a existência de fontes perdidas para as partes místicas do Zohar (SCHOLEM, 2008, p. 195).

A morte de Moshe de Leon em 1305, em Arevalo quando voltava a Ávila de uma viagem à Corte Real de Valladolid, o deixou como um “profeta” judeu nos tempos do exílio da Terra Santa (erets Israel). O rico comerciante José de Ávila oferecera casar seu filho com a filha do falecido Moshe de Leon, porém, pediu como garantia o exemplar original do Zohar. Tanto a ex-esposa quanto a filha negaram a existência do manuscrito e nunca reivindicou a sua autoria, pois, segundo o que Moshe lhes contou: as pessoas pagam um alto preço por saberem que o Zohar foi criador por Shimon bar Yochai e copiado por intermédio do espírito santo, segundo o relato de Isaac de Acre, amigo próximo de Moshe de Leon. A ironia aqui não é pouca, mas não é surpreendente, tendo em vista a proliferação de grupos de cabalistas em toda a Europa. A Cabala desponta como a mais importante de todas as linhas gnósticas, não apenas a influenciar a Reforma Protestante, mas justamente em estar entre as leituras de alquimistas, Maçonaria, Rosacruz, Teosofia e todo o hermetismo de cunho neoplatônico que chegou ao final do século XIX. A Cabala, já no século XX, chega ao seio de movimentos como os dos irmãos Berg do Kabbalah Centre e de Michael Laitman, fundador do Bnei Baruch. São movimentos de massa e todos são pretensiosos no que dizem respeito a transmitirem os mistérios sagrados da Cabala, já completamente distantes das formas judaicas tradicionais de ensino.

O conhecimento da obra de Moshe de Leon é de suma importância para todo o novo desenho da Cabala prática (ma’asse) a partir do livro Zohar. Após este livro, toda a Cabala toma um fôlego nunca antes visto na sua história desenvolvida paulatinamente na Palestina judaica. Do Zohar irá brotar a escola de Safed (Tsfat) com Isaac Luria e Moshe Cordovero e a doutrina das emanações. Não apenas isso, mas veremos o surgimento de uma vertente cada vez mais messiânica com Sabbatai Tzvi o Messias autoproclamado. Contudo, são histórias a serem desenvolvidas em artigos ulteriores. Moshe de Leon é uma figura capaz de colocar a vertente mística em destaque como nunca antes foi visto em terras hispânicas e nunca mais foi visto. Ele foi capaz de mostrar os contrastes da Cabala em uma linguagem acessível, mesmo que com isso tenha se afastado radicalmente do rabinato e da filosofia de seu tempo (BIALE, 2004). Nosso escrito é um breve resumo de sua obra, a qual esperamos possa despertar interesse de um público mais vasto.

Referências:

BIALE, David. Cabala e Contra-História: Gershom Scholem. Tradução de Jacó Guinsburg. São Paulo: Perspectiva, 2004.

BÍBLIA HEBRAICA. Tradução de Jairo Fridlin. São Paulo: Sefer, 2006.

EL ZOHAR. Traducción de Leon Dujovne. Buenos Aires: editorial Sigal, 2005.

IOCHAI, Rabi Shimon bar. Zohar: texto integral. Tradução de Diego Raigorodsky. São Paulo: S/E, 2013.

ROSSI, Luiz Alexandre Solano; GUIMARÃES, Felipe de Oliveira; PROENÇA, Eduardo de (orgs.). Livro de Enoque o Etíope: comentários. São Paulo: Fonte Editorial, 2019.

SCHOLEM, Gershom. Zohar: basic readings from the kabbalah. New York: Schocken Books, 1977.

SCHOLEM, Gershom. As grandes correntes da mística judaica. Tradução de Jacó Guinsburg, Dora Ruhamn, Fany Kon, Janete Meiches, Renato Mezan. São Paulo: Perspectiva, 2008.

SCHOLEM, Gershom. (1974) Cabala. Tradução de Alexandre Barbosa de Souza. São Paulo: Editora Campos, 2021.

TORÁ VIVA. Org. trad. hebr. Rabino Aryeh Kaplan. Trad. Port. Adolpho Wasserman. São Paulo: Maayanot, 2012.

ZOHAR: o livro do esplendor. Tradução de Ariel Bension. São Paulo: Polar, 2006.

+ posts

Estevan de Negreiros Ketzer é psicólogo clínico (PUCRS), com mestrado e doutorado em Literatura (PUCRS). Realizou pesquisa nos arquivos do IMEC, na França, em 2015. Assessorou a Uniritter na implementação do curso de Escrita Criativa em 2016. É pesquisador do Núcleo de Estudos Judaicos (NEJ) da UFMG e pós-doutorando em Literatura (UFMG).

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *