Jung e as lamentações de Jó

Jó e seus amigos por Ilya Repin (1869), Museu de Arte de São Petersburgo, Rússia.

Jung compreende o quanto esse diálogo de Jó com Deus possui a grandeza do homem humildade que não quer desrespeitar Deus, mas não encontra os motivos para aceitar sua própria decadência.

Estevan de Negreiros Ketzer

Psicólogo Clínico (PUCRS). Doutor em Letras (PUCRS). Pós-doutorando pelo Labô – Laboratório de Política, Comportamento e Mídia / Fundação São Paulo/PUCSP.

Um olhar detido sobre a escola dos profetas nos leva a pensar em profundidade sobre a dedicação que travamos com nossas próprias idiossincrasias. A leitura de apenas um homem redimindo seus pecados e faltas a Deus é tão comum e complexa ao mesmo tempo, pois são muitos séculos de monoteísmo no mundo e muitas dimensões em que ele se mostra para nós. Não apenas porque o monoteísmo é algo que todos nós entendemos, mas antes porque com o monoteísmo, as três principais vertentes que advém dele com o judaísmo, cristianismo e islamismo, o homem percebe estar aprendendo sobre sua natureza.

Nada mais digno de humildade em descobrir que sua natureza deve fazê-lo pedir perdão e, com isso, encontrar um importante elemento de seu desenvolvimento pessoal. A antiguidade clássica mostra o quanto desse aprendizado residia na percepção de que as suas reais vontades deveriam estar em concordância com aquilo que Deus guardou para você. A vos profética soa como um eco em dimensão microcósmica. O som das trombetas entoa o nascimento do universo na consciência individual de todos nós, tal como soou na alma de Adão quando ele recebera vida. O caminho anteriormente simples de apenas viver no jardim (éden) idílico nos leva a sair dele para nunca mais voltarmos. Não seria aqui o peso do exílio? O exílio que levou um povo a viver no deserto a se perguntar sobre si sem deixar de estimular a medida de fazer o bem para seus irmãos.

O psicólogo suíço Carl Gustav Jung observa as tradições como cosias tão reais que sofrem influência de memórias, sonhos e reflexões… impreterivelmente nossos. A Bíblia, isso é, o manancial de textos fundamentais das três tradições monoteístas é um registro vivo de uma comunicação ininterrupta de Deus com os homens e vice-versa. E nessa conversa, Deus pode decidir se calar. Ele o faz para desafiar o homem, o qual terá de escutar no silêncio as palavras do seu criador. Deus se retira da conversa, sinais da antiga prosperidade que ele próprio teria sinalizado. Como o ser humano vai viver sem sentir-se conectado com Deus?

No livro de Jó é satan que tenta arruinar o trabalho de Deus em uma disputa pela fé de um de seus mais firmes seguidores. A ferida de satan, cujo nome hebraico significa “opositor” em nossa língua, é lenta, não parece ser possível fecha-la. A compreensão de Jung sobre a situação de Jó é diz muito respeito a um ceticismo que tomou conta dele diante da situação de miséria a qual ficou: “É preferível para o indivíduo admitir a existência do afeto e submeter-se a sua violência, do que desembaraçar-se dele mediante operações mentais abstratas de qualquer espécie ou estados emocionais de fuga” (JUNG, 2012, p. 18). Jó não entende e isso é um problema para o homem e sua racionalidade limitada, pois entender dá algum alívio para sua situação. Como é comum entre nós seres humanos que sentimentos, construídos a partir de representações mentais muito simplificadas, nos tragam algum ponto de determinação, cuja sensação de conforto estabelece um certo padrão socialmente aceitável. Vejamos como a passagem abaixo no livro de Jó (10:1-2) nos aproxima dessa lamentação que toma consciência do seu contraste diante a sua situação de sofrimento:

Angustia-se minha alma, exausta pelas vicissitudes da minha vida. Deixarei que se derramem, sem restrições, as queixas que inundam meu coração. Falarei com a amargura da minha alma. Direi a Deus: Não me condenes sem me deixar saber por que contendes comigo (BíBLIA, 2006, p. 711).

Jung compreende o quanto esse diálogo de Jó com Deus possui a grandeza do homem humildade que não quer desrespeitar Deus, mas não encontra os motivos para aceitar sua própria decadência. Jó pede a Deus para lhe retirar a vida, pois as tragédias acometidas lhe chegam a um ponto de absurdidade, como vemos em Jó (3:23): “Por que dar a luz um homem cujos caminhos lhe estão vedados e para quem Deus fecha todas as saídas?” (BÍBLIA, 2006, p. 707). Essa pergunta é muito nos faz pensar, pois a natureza de Deus parece depender muito do homem, tanto quanto o homem depende de Deus de alguma forma pela revelação (it’galut) contida nas escrituras, mas testemunhada ao longo das eras.

Jung percebe que o profeta estabelece a ponte com o relacionamento profundo e emocional com Deus. A sabedoria (chochmá), dada como um presente para que o homem pudesse usufruir das qualidades (midot) de Deus, não é mais o bastante. Deus traiu sem pacto com os homens ao aceitar o desafio de satan, pois “a quebra do pacto representava uma ofensa não só no plano pessoal como também no plano religioso” (JUNG, 2012, p. 22). Os termos dos acordos (brit) levam a Deus perceber o quanto está sendo tratado como um objeto, um problema que encontramos em todo aquele que se dirige à religiosidade pela imitação de gestos e perde, assim, a espontaneidade em sua relação com o Deus. “Mas Javé é inconsciente demais para ser ‘moral’. A moralidade pressupõe a consciência” (JUNG, 2012, p. 24). A moralidade também é um aspecto protetivo dos homens. O registro de como conseguimos interpretar Deus de uma maneira a nos proteger enquanto humanidade do domínio dos próprios objetos. Aqui é necessário lembrar de objetos que não puros (tumá), pois não fazem parte do pacto estabelecido com Deus. Jó faz sua reflexão de maneira a demonstrar o quanto sua consciência agora parece não ser mais apenas a face em que Deus faça sentido, pela bonança e prosperidade de sua vida, mas por justamente interromper isso abruptamente.

Javé não manifesta qualquer escrúpulo, arrependimento ou compaixão, mas somente falta de consideração e uma natureza cruel. Não adianta apelar para a falta de consciência, pois sabe-se que Ele violou flagrantemente pelo menos três dos mandamentos que Ele mesmo promulgara no Sinai (JUNG, 2012, p. 28).

A crueldade aos olhos de Jó é sua ideia errônea de que Deus seja um ser moral. Não é absurdo pensar o quanto um trato de Deus com satanás possa interromper a relação firmada com o homem? O protagonismo de Jó em sua conversa com Deus parece nos levar à tradição grega, dando a Jó um estatuto divino. Jó é transformado em um Adão antes da queda. Ele conversa com Deus com a sua ignorância e esse fato revela algo de profundamente humano em Jó, justamente o momento em que cada um de nós deve olhar com a coragem da veracidade e a humildade diante da sua própria existência. Como são encantadores os sentimentos humanos! A galhardia de um lado, a melancolia de outro.

Quando o paraíso, planejado como algo perfeito, foi comprometido pelas artimanhas de Satanás, Javé expulsou Adão e Eva, que criara respectivamente como a imagem de sua essência masculina e de sua emanação feminina, para o mundo das cascas, o mundo intermediário situado fora do paraíso (…). Deus quer se renovar no mistério das núpcias celestes (como fzaiam sempre os principais deuses egípcios) e quer tornar-se homem. Parece que ele seve de modelo egípcio da encarnação do deus em faraó (JUNG, 2012, p. 51).

Interessante apontamento gnóstico colocado por Jung. Em algum momento o povo hebreu se agasta de afasta do Egito e da prepotência de um faraó aurido em deus, senhor do universo temporal e atemporal (VOEGLIN, 2002). Em outro momento, deus permite que o homem questione diretamente os atos de seu próprio criador como se fosse, de fato, um deus menor no panteão dos Caldeus. Como é interessante ler a Bíblia no seu diálogo atravessado com as tradições que formaram o mundo tal como nos chegaram. O próprio Jó parece muito um hanif[1], antecessor de Maomé na península arábica em alguns momentos.

O Anjo do Senhor, ilustração Bizantina para o Livro de Jó, de autoria anônima, por volta do século XIII.

(…) é Deus que quer transformar o seu próprio ser. O gênero humano não deve ser destruído, como outrora, mas salvo. Nesta decisão percebe-se a influência benévola da Sofia para com os homens: não se deve mais criar novos homens, mas apenas um, o Homem-Deus. Para isto, deve-se usar um procedimento inverso. O Adam secundus (o segundo Adão) não deve ser o primeiro a provir diretamente das mãos do Criador, mas deverá nascer de mulher humana (JUNG, 2012, p. 52).

Esse segundo nascimento do homem através da crença cristã no nascimento de um salvador (Jeshuah), na figura de Jesus Cristo, pelo ventre imaculado de Maria, revela ao homem a pureza dos planos de Deus. Satanás não tocará o corpo de Maria. Este novo nascimento é o motivo principal do cristianismo se colocar como uma crença nova diante as religiões existentes até então. O elemento eterno da criação também contempla o esquecimento de Deus de sua onisciência. Esse fato é tão forte tanto na história de Jó quanto no sofrimento de Cristo na cruz. Satanás espera o momento certo em que esse esquecimento aparece. Não por nada as antigas tradições queriam que seus adeptos decorassem versos de seus livros sagrados, pois nesses versos a sabedoria os faria lembrar da verdade, quando satan chegasse repentinamente para os desprovidos dela. A percepção de que Deus está em relação com o humano também exige uma avaliação constante de suas atribuições com a humanidade. “Ele deve renovar-se pois foi superado pela própria criatura” (JUNG, 2012, p. 60). Esse aspecto é um dos pilares fundamentais do cristianismo, o qual conclama os votos de uma nova lei, um Novo Testamento (brit hadashá).

Assim, os sofrimentos de Cristo na cruz e o silêncio de seu pai mostram algo completamente novo para a consciência humana: o sentimento de silenciamento de Deus diante ao desespero dos homens. O abandono. “Pai, Pai, por que me abandonaste?” (Eli, Eli, lamá sabactâni, do original em aramaico) (Mateus 27:46). O sofrimento na cruz, o maior de todos os castigos devido ao sofrimento causado, passa então a fazer parte do momento mais tormentoso da história ocidental. E eis talvez o nosso grande mito, a acolher em sua narrativa os mitos de tempos imemoriais. “O mito, porém, não é ficção; pelo contrário, o mito se verifica em fatos que se repetem incessantemente e podem ser constantemente observados. Ele ocorre no homem, tendo os homens um destino mítico, da mesma maneira que os heróis gregos” (JUNG, 2012, p. 64). A união dos contrastes se une na natureza simbólica do calvário e da cruz, mas afasta satan, fazendo-o perder o desafio sobre Jó.

Com a limitação relativa imposta a Satanás, Javé se tornou um Deus de bondade e um Pai amoroso, identificado a seu aspecto luminoso. Perdeu seu caráter irascível, mas ainda pode castigar, embora com justiça. Parecem improváveis casos semelhantes ao da tragédia de Jó. Javé se mostra bondoso, clemente e cheio de misericórdia para com a humanidade pecadora, e chega mesma a ser definido como o amor (JUNG, 2012, p. 66).

Os elementos conciliadores são de extrema importância para Jung quando ele pensa na psiqué humana. Deus sofre no homem, da mesma forma que o homem sofre em Deus. A ira é libertada, finalmente, pelo amor, não um amor egoísta, mas justamente o máximo de sua essência altruísta na figura do amor a humanidade, identificada pela tradição grega pela palavra ágape. A injustiça divina é reparada no Novo Testamento e isso dá aos olhos do cristianismo uma justificativa para a história de Jó. Essa ideia conduz também ao fim do tempo como uma linha que conhecemos e sabemos por nossa consciência de passado, presente e futuro. Não há tempo nisso que chamamos eternidade. Sendo assim, Pai e Filho estabelecem o conflito para o resolverem com a misericórdia. Eis a enantiodromia do drama cistão entre Pai e Filho. O homem deixa apenas de temer Deus para amá-lo profundamente. Isso é parte fundamental da compensação tão plena no pensamento de Carl Gustav Jung em sua interpretação do Livro de Jó.

Referências:

BÍBLIA Hebraica. Tradução de Jairo Fridlin, David Gorodovits. São Paulo: Sêfer, 2006.

JUNG, Carl Gustav. Resposta a Jó. In: Obras completas de C. G. Jung, vol. 11/4. Tradução de Dom Mateus Machado Rocha. Petrópolis: Vozes, 2012.

VOEGLIN, Eric. As religiões políticas. Tradução de Teresa Marques da Silva. Lisboa: Veja/Passagens, 2002.


[1] Tal como era chamado em árabe o monoteísmo seguido por muitas tribos na península arábica antes da ascensão do islamismo com Maomé.

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Estevan de Negreiros Ketzer é psicólogo clínico (PUCRS), com mestrado e doutorado em Literatura (PUCRS). Realizou pesquisa nos arquivos do IMEC, na França, em 2015. Assessorou a Uniritter na implementação do curso de Escrita Criativa em 2016. É pesquisador do Núcleo de Estudos Judaicos (NEJ) da UFMG e pós-doutorando em Literatura (UFMG).

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