O criptojudaísmo português

Janela na Sinagoga Beit Eliahu em Belmonte, Portugal

Esse é o caso dos criptojudeus, ou os marranos, como foram chamados os judeus convertidos ao catolicismo, mas mantendo as bases judaicas de maneira secreta.

Estevan de Negreiros Ketzer

Psicólogo clínico. Doutor em Letras (PUCRS). Email: [email protected]

As bases para uma cultura nem sempre advém do maior centro de sua irradiação. Em séculos antigos o isolamento de populações era mais comum do que na atualidade. Esses isolamentos eram de tão grande monta a ponta de forçosamente gerarem algo incomum entre as forças disputadas de seu engate cultural. Esse fato aconteceu com as comunidades judaicas portuguesas.

Não apenas isso, mas grandes judeus portugueses, imbuídos de muito estudo, tiveram cargos de assessoria a reis importantes de Portugal. Esse foi o caso de Isaac Abravanel (1437 – 1508). A família de Abravanel possui a linha nobre do Rei David e esse fato também o levou ao desenvolvimento de uma alta cultura em sua formação. Assumiu assim o cargo de conselheiro do Rei Dom Afonso V de Portugal. Acusações conspiracionistas levaram Abravanel do filho de Dom Afonso V, João II, levaram Abravanel a corte de Castela em 1483. Seu trabalho na logística do reino foi altamente satisfatório para o deleite da Rainha Isabel. Seu trabalho como filósofo corrobora as teses de Moshe Maimônides contra as críticas de Hasdai Crescas em Pináculo da Fé (Rosh Amanah), de 1505, acerca da manutenção dos treze princípios da fé judaica e da criação a partir do nada. Sua visão messiânica sobre a vinda do Messias entra em consonância com a expulsão dos judeus da Península Ibérica em 1492. Ele estabelece residência em Veneza em 1503, ano em que, segundo ele, deu início a era messiânica.

Outro filósofo de importância foi Abraão ben Samuel Zacuto (1450 – 1522) o qual foi astrônomo e historiador do Rei João II em Portugal. Suas contribuições com a utilização do astrolábio, instrumento para a leitura das estrelas durante a noite, foram de grande importância para salvar navegadores portugueses durante as viagens para o Brasil, por Pedro Álvares Cabral, e para a Índia, por Vasco da Gama, sendo apresentadas no livro Almanach Perpetuum. Em 1504, durante sua estada na Tunísia, ele escreve uma História dos Judeus (Sefer ha-yuḥasin). Esse livro foi muito respeitado, tendo edições na Cracóvia 1581, em Amsterdan em 1717, e Königsberg, na Prússia Oriental, em 1857. História dos Judeus recebeu sua edição em na cidade de Londres.

Bíblia de Cervera, com as armas de Castela e Leão inseridas em Estrelas de David e leões de guarda

Muito importante foi o trabalho de filantropia de Gracia Mendes Nasi (1510 – 1569), nascida Beatriz de Luna Miques, também conhecida como Dona Gracia ou La Señora. Gracia casou-se com seu tio materno, Francisco Mendes Benveniste em um casamento judaico secreto no porão da casa de Gracia. Uma cerimônia católica pública foi realizada na Catedral de Lisboa. Francisco também era credor e confidente de João III de Portugal. Assim como a mãe de Gracia, Francisco pertencia à proeminente família Benveniste da Espanha da dinastia dos Habsburgos. A irmã de Gracia, Brianda, casou-se posteriormente com o irmão de Francisco, Diogo. A empresa Mendes-Benveniste enriqueceu com o comércio de especiarias vindas da Índia através da rota de navegação portuguesa. Gracia fugiu para a República de Veneza em 1544. A cidade-estado oferecia aos judeus e conversos uma base segura para viver e fazer negócios, embora os ainda tivessem de viver no Gueto de Veneza. Durante sua vida em Istambul, já em 1556, ela construiu sinagogas, escolas rabínicas (yeshivot) e hospitais. Uma das sinagogas leva o nome dela, ” La Señora” (Sinyora Sinagogu), que ainda existe hoje em Izmir, na Turquia.

A história desses grandes judeus não foi simples e teve muito esforço, inclusive para manterem suas tradições mesmo nas condições mais adversas, como conversões forçadas. Esse é o caso dos criptojudeus, ou os marranos, como foram chamados os judeus convertidos ao catolicismo, mas mantendo as bases judaicas de maneira secreta. O termo marrano foi empregado de maneira pejorativa, pois, extraído de termos arcaicos ibéricos significa suíno. A carne suína é interdita segundo as leis dietéticas judaicas (kashrut) e não raras vezes a identificação de judeus durante a Inquisição era fazê-los comer porco. A Inquisição foi a forma encontrada pela Igreja Católica para inquirir quem era judeu e quem era católico devido a problemas relacionados a roubos de propriedades, inclusive para proteção de muitas comunidades judaicas que foram roubadas. O termo que temos maior adequação é filho de forçados (b’nei anussim), o qual acaba sendo quase um pleonasmo para criptojudeus e judeus que começaram um resgate por suas tradições antigas.

Torre de Centum Cellas em Belmonte, Portugal

O caso de Belmonte é emblemático de como uma comunidade judaica se manteve de forma encriptada desde a Idade Média até 1989, quando houve o reconhecimento de Israel sobre o judaísmo de 50 famílias nessa cidade. Belmonte foi uma cidade resistente ao domínio de leoneses e castelhanos. Já no séc. XIII há a atestação da existência de uma próspera comunidade judaica, responsável pela construção de uma sinagoga, a qual hoje só resta uma inscrição datada de 1296.  A expulsão dos judeus de Espanha em 1492, pelos Reis Católicos é provável que esta comunidade tenha aumentado, até que em 1496, D. Manuel I decreta a conversão forçada ao catolicismo. É ainda o mesmo monarca que em 1510 renova a constituição administrativa de Belmonte. Após o reconhecimento israelense de 1989 foi oficialmente criada a comunidade judaica de Belmonte, cuja sinagoga Beit Eliahu foi inaugurada em 1997, a qual possui a direção de um rabino.

A presença da cultura judaica na península ibérica é muito mais complexa do que podemos captar apenas lendo livros de história. Nós vivenciamos na música a tristeza do fado português, pois, nos revela o êxodo como parte de uma vivência muito mais antiga, marcada pelo violão e pela voz feminina tremulante. Tal como fantasmas escondidos na floresta, à beira de uma canção que traga acalento à noite fria.

Referências:

BELMONTE. História Disponível em: https://www.cm-belmonte.pt/historia/historia-de-belmonte/. Acesso: 9 dez. 2025.

DÍAZ-MAS, Paloma. Sephardim: the Jews from Spain. Translated by George K. Zucker. Chicago: The Chicago University Press, 2007.

REMÉDIOS, Joaquim Mendes dos. Os Judeus em Portugal. Coimbra: França Amado Editor, 1895.

STADLER, Bea. The Story of Dona Garcia Menes. New York: United Synagogue Commission on Jewish Education, 1969.

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Estevan de Negreiros Ketzer é psicólogo clínico (PUCRS), com mestrado e doutorado em Literatura (PUCRS). Realizou pesquisa nos arquivos do IMEC, na França, em 2015. Assessorou a Uniritter na implementação do curso de Escrita Criativa em 2016. É pesquisador do Núcleo de Estudos Judaicos (NEJ) da UFMG e pós-doutorando em Literatura (UFMG).

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