O Pensamento Judaico na Península Ibérica

A ponte romana de Córdoba, construída no século I a.C.

O conhecimento não se equipara a uma experiência vivenciada na alma (nefesh), pois ela é capaz de harmonizar as contradições entre Deus e o mundo.

Estevan de Negreiros Ketzer

Psicólogo Clínico (PUCRS). Doutor em Letras (PUCRS). Email: [email protected]

Residem nos países os sonhos das antigas civilizações. Embora não pensemos nisso é de máxima importância considerar a Espanha como parte do universo sonhado judaico. O profeta Obadias (1:20) teria dito: “Estes cativos do exército dos filhos de Israel que habitavam com os cananeus, até Tsorfat e os cativos de Jerusalém que habitavam em Sefarad possuirão as cidades do sul” (BÍBLIA, 2006, p. 585). Portanto, essa citação fala já da invasão do exílio da Babilônia no século VIII a. C. Ela se perde no tempo, entre o mito e a realidade, pois as provas são escassas e a nossa imaginação viaja a grandes distâncias.

Tsorfat é hoje o nome da região da França, enquanto Sefarad se tornou a Espanha. Mesmo que na época Tsorfat tenha sido o litoral de Canaã, a terra dos Filisteus (Pilistim) e Sefarad a região da Turquia, esses territórios guardam elementos muito importantes sobre o mundo judaico. A Espanha guarda em seu nome hebraico muitas aproximações com a religião judaica. Não podemos esquecer que o hebraico é uma língua possuidora de uma mesma raiz (shoresh) da qual muitas palavras (milim) derivam. Sendo assim, a palavra sefer (livro) também se aproxima de safir (safira), contagem (sefira)[1], a qual dará origem a palavra sphaira do grego, cujo significado é esfera. Por fim, e não menos importante, Sefarad (Espanha). É digno de nota que chamamos todo o judeu espanhol de sefarad, uma grande comunidade que em 1492 teve de deixar os reinos de Castela e Aragão devido a perseguições inquisitoriais (BRENNER, 2013).

Esse breve preâmbulo já nos dá um elemento importante para imaginarmos uma tensão. O pensamento judaico parece ser parte de um resultado entre as tenções dos povos que o envolvem e uma tensão da sua própria existência, pois uma antiga forma antijudaica é dizer acerca do judeu ser um povo que apenas copiou os povos ao seu redor. Ora, se isso fosse verdade como então teríamos tantas diferenças entre as três grandes culturas ibéricas? Quando o islamismo se instala na península ibérica vemos o florescimento de uma grande escola de pensamento chamada de Kalam, uma tentativa de conciliar as doutrinas teológicas com o pensamento abstrato advindo da filosofia grega já no século IX. Esse desenvolvimento serviria para o islamismo pensar em como executar mandamentos qurânicos, os quais não estavam claramente definidos no livro sagrado, nem nos chadits – ditos e feitos do Profeta Mouhamed. Impreterivelmente, esse acontecimento chegou até cultura judaica ibérica já em amplo desenvolvimento e em paz com as dinastias islâmicas mediante pagamento de impostos para sua permanência ali.

Portanto, o desenvolvimento do Kalam além de trazer um maior especismo dos recursos científicos árabes também se dispôs a examinar melhor a filosofia neoplatônica e aristotélica. É demasiado importante ressaltar aqui o quanto o desenvolvimento do pensamento judaico ibérico está relacionado a diferentes interpretações teológicas, uma delas surgida como reação ao rabinato ortodoxo, chamada de caísmo. Os caraítas desprezaram o judaísmo rabanita, vendo-o como um desvio do judaísmo verdadeiro, por basearem suas interpretações no Talmud, o livro que reúne o modo de executar os mandamentos (mitzvot). Para os caraítas a autoridade da Bíblia Judaica (Tanach) é o suficiente, uma vez que os rabinos antropomorfogizaram a Bíblia com as interpretações talmúdicas (GUTTMANN, 2003).

Os primeiros representantes judeus durante o período inicial do Kalam estavam fora da península ibérica. Eles foram neoplatônicos como Isaac Israeli, Saádia Gaon e Hiwi de Balkh, este último não teve livro a chegar até nossos dias. Saádia Gaon (882 – 942) é o mais importante dos pensadores judeus, por interpretar o conteúdo das escrituras, a verdade revelada dos profetas, correlato aos entendimentos da razão, tal como a união da tendência neoplatônica predicava. Para ele a verdade da revelação (it’galut) deve ser apreendida por qualquer pessoa e por isso a razão é demasiadamente importante, pois a pessoa deve pensar por si própria sempre. Para tanto, o pensador deve eliminar suas considerações subjetivas e observar a vida dos profetas de maneira a alcançar fatos tangíveis de sua própria vida. Essa alusão a um exercício mental é algo muito importante dentro do pensamento judaico ibérico.

Isaac Israeli (850 – 950) é o maior representante do pensamento neoplatônito ibérico. Isso significa que a forma é inatingível diante a vulgaridade da matéria. O pensador entende que o ser humano se aproxima de Deus até onde é possível, uma vez que o intelecto é a mais alta das substâncias até Deus. Esse caminha leva a uma união com Deus (d’vekut), cujo conteúdo pode ser observado na experiência dos profetas.

Outro importante neoplatônico foi Solomon ibn Gabirol (1026 – 1050), de Málaga. Não apenas filósofo, mas sobretudo um grande poeta. Seu texto de maior envergadura é o Fonte da Vida (Mekor Chaim) e seu maior poema é “A Coroa da Realeza” (Keter Malchut). A complexidade de seu pensamento reside na ideia de uma incompreensão da matéria diante da forma, pois a matéria (potência), não pode ser isolada da forma (ato), como muitos aristotélicos observavam. É pelo fato da matéria ser imperfeita, composição das coisas em devir, em transformação, que a forma é roubada de sua unidade espiritual original. Ele antecede aqui o problema de uma diferenciação da matéria consigo mesma, tendo em vista a série de elementos intermediários que a acompanham. Esse entendimento deve levar o intelecto a compreender um espelhamento entre o microcosmos e o macrocosmos, pois a multiplicidade dos elementos deve ser realizada pela unidade da alma humana.

Não menos criativo foi o trabalho de Iehuda Halevi (1085), nascido em Toledo. A base do seu trabalho reside na narrativa sobre o império dos Khazares, na região do Cáucaso. O rei dos Khazares, o Cuzarí, acolhe a religião judaica para si e para seus súditos em detrimento do cristianismo e do islamismo. Um rabino explica a religião judaica em seus pormenores para o rei, pois ali vemos a visão de Halevi em sua relação com os fundamentos metafísicos do judaísmo (HALEVI, 2010). O filósofo desdenha do pensamento aristotélico islâmico por ser a relação de Deus com o mundo estar além do conhecimento filosófico. Cabe ao homem voltar-se para a revelação religiosa e dela entender a ordem da emanação de Deus em direção aos objetivos do homem. Sendo assim, o conhecimento (daat) não supera a piedade (chessed) vivida pelos profetas, experiência a qual é superior ao aparato da religião (dat). O conhecimento não se equipara a uma experiência vivenciada na alma (nefesh), pois ela é capaz de harmonizar as contradições entre Deus e o mundo.

Um fato importante a se ressaltar aqui é que durante as dinastias dos almorávidas e almoadas, século XI e XII, a escola de Córdoba foi profundamente importante. O filósofo árabe Ibn Rushd, conhecido como Averrois (1126 – 1198) trouxe comentários aos principais textos aristotélicos, entre eles a Metafísica. Seguindo os passos de Averrois, anos depois dele, a influência de Maimônides (1135 – 1204) sobre as tentativas de conciliar a religião com o pensamento filosófico recaem em seu famoso Guia dos Perplexos (More Nevukim). A história de Maimônides, o maior polímata judaico, sendo tanto médico quanto rabino, compilador do Talmude e comentador de muitos tratados, traz em seu Guia… a concepção de uma reinterpretação do aristotelismo, afim de dar ao primeiro motor aristotélico a primazia de um princípio atualizador, tal como a forma atualizar a matéria (MAIMÔNIDES, 2018). Essa atualização leva a uma simplicidade sobre o conhecimento de Deus, cuja ideia principal é a negação de suas privações. Dessa forma, o homem conhece Deus de maneira negativa e se aproxima dele por suas diversas formas (KETZER, 2025).

O pensador Aarão ben Elias de Nocomedia escreve seu livro A Árvore da Vida em 1346. Seus argumentos são muito simples e advogavam contra o atomismo de Demócrito, pois viam ali a permanência do universo em detrimento da criação a partir do nada. A ideia da árvore da vida (ets chayim) é uma expressão encontrada na Torá – o pentateuco judaico – a qual designa por Deus a árvore que o homem pode comer (Gênesis 2:9). Nesse ponto veremos como um desenvolvimento natural da alta cultura espanhola a tradição da Cabala se desenvolver no século XII com nomes como Abraão Abuláfia (1240 – 1291), Joseph ben Abraham Gikatilla (1248 – 1305) e Moshé de Leon (1240 – 1305), este último tendo escrito o livro Zohar, o mais importante para o desenvolvimento da Cabala como uma disciplina independente da teologia rabínica e da filosofia do Kalam. É digno de nota a protuberância da mística como uma espécie de terceira via para o entendimento da realidade, a qual une a psicologia interna de seus participantes a um pensamento baseado nos ensinamentos secretos da Torá, os quais exigem um nível o seu adentramento seguro (SCHOLEM, 2021).

Como última expressão da intelectualidade sefardita temos o rabino Moshe bem Nachman, conhecido como Nachmânides (1194 – 1270), de Girona. Ele ficou conhecido por ser um grande erudito da Torá e por ter entrado na famosa disputa de Barcelona, na corte do rei Jaime I, em 1263. Na disputa com o sacerdote católico Pablo Christiani, Nachmânides sai vencedor com a hipótese de um entendimento equivocado da figura de Jesus Cristo, por haver duas figuras de Jesus na mesma época e terem sido historiografados de maneira diferente. O Jesus da Bíblia cristã não é o mesmo que está no Talmud, ali reconhecido como Jeshua bem Prachia. Essa polêmica o levou a ser expulso da Espanha e ir para a cidade de Acre, na atual Israel.

Menos erudito que seus antecessores, ainda assim cabe falarmos da figura de Hasdai bem Avraham Crescas (1340 – 1410), nascido em Barcelona. Em seu livro Luz do Senhor (Ohr Adonai), o pensador tem em alvo o problema da filosofia aristotélica, sendo visto por ele como uma falsa filosofia. Ele traz as emoções como um ponto de articulação incomum para sua época. De maior importância para ele a bondade (chessed) como o grande atributo legado de Deus para os homens. O pensamento (mach’shavá) não consegue de forma alguma se aproximar da bondade. Esse precipício leva impreterivelmente a que as criaturas se aproximem de Deus de uma maneira muito íntima e com alegria, pois o intelecto não é pode alcançar Deus. E o interessante aqui é ser esse um fenômeno completamente natural e por isso a leitura da Torá é importante para que os homens se aproximem de Deus verdadeiramente.

Nossa breve explanação mostrou as três principais faces do pensamento judaico ibérico. A cultura sefaradi se ampliou em inúmeros aspectos em seu tempo de permanência principalmente na Espanha (LA CASA DE SEFARAD, 2025). Com a saída a expulsão dos judeus da Espanha e de Portugal em 1492 tivemos uma nova condição diaspórica, cuja sentido levou as comunidades de lá para a Europa central (BAER, 1966; BRENNER, 2013). Holanda acaba sendo um dos destinos principais e, posteriormente, as américas. Essa influência marcou significativamente a vida ibérica e ainda hoje seus traços podem ser sentidos nas ruas de Toledo, Sevilha, Barcelona, Málaga e Córdoba com uma intensidade como se ainda andássemos nas antigos ghettos judaicos.

Referências:

BAER, Yitzhak. A history of the Jews in Christian Spain. Philadelphia: Jewish Publication Society of America, 1966, Vol. I e II.

BÍBLIA de Jerusalém. Tradução de Jairo Fridlin. São Paulo: Sêfer, 2006.

BRENNER, Michael. Breve História dos Judeus. Tradução de Marcelo Brandão Cipolla. São Paulo: Martins Fontes, 2013.

HALEVI, Iehudá. O Cuzarí. Tradução de Paulo Rogério Rosenbaum. São Paulo: Sêfer, 2010.

KETZER, Estevan de Negreiros. Maimônides. Revista do Instituto Ágora Perene, 23 já. 2025. Disponível em: https://revista.agorap.org/revista/maimonides/. Acesso: 16 nov. 2025.

LA CASA DE SEFARAD. El Museo Sefardi. Acesso: https://lacasadesefarad.com/el-museo-sefardi/. Disponível em: 12 nov. 2025.

MAIMÔNIDES, Moshe. Guia dos Perplexos. Tradução de Yosef Flavio Horwitz. São Paulo: Editora Sêfer, 2018.

GUTTMANN, Julius. A Filosofia do Judaísmo. Tradução de Jacó Guinsburg. São Paulo: Perspectiva, 2003.

SCHOLEM, Gershom. Cabala. Tradução de Alexandre Barbosa de Souza. São Paulo: Editora Campos, 2021.


[1] Não é nosso propósito nos alongarmos nessas considerações, embora seja muito importante que a palavra sefirot, plural de sefira, serviu para balizar a doutrina cabalística das emanações, a qual foi propagada por Joseph ben Abraham Gikatilla (1248 – 1305), cabalista espanhol aluno de Abraão Abulafia, influenciador de Moshe de Leon, autor do Sefer ha-Zohar. Ele divulgou o termo sefirot como as dez emanações da árvore sefirótica (SCHOLEM, 2021).

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Estevan de Negreiros Ketzer é psicólogo clínico (PUCRS), com mestrado e doutorado em Literatura (PUCRS). Realizou pesquisa nos arquivos do IMEC, na França, em 2015. Assessorou a Uniritter na implementação do curso de Escrita Criativa em 2016. É pesquisador do Núcleo de Estudos Judaicos (NEJ) da UFMG e pós-doutorando em Literatura (UFMG).

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