
Não há uma história para o que desaparece… sem ser percebido como algo não vivenciado.
Estevan de Negreiros Ketzer
Psicólogo clínico (PUCRS). Doutor em Letras (PUCRS). Pós-doutorando em Ciências da Religião pelo Labô – Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da PUC-SP.
Não se pode subestimar um tempo e sua organização. A forma de olhar e formar um tipo de homem treinado para a guerra. O melhor guerreiro costuma ter a consciência de suas maiores faltas. Isso também significa a possibilidade de aprender, mas não de forma didática, mas aprender com o próprio desafio e tirar do desafio o verdadeiro valor da experiência humana. Isso significa olhar para algo que no passado era exclusivo dos reis europeus, embora hoje tenha cada vez maior relevância com a ideia do aconselhamento (counseling). Uma aprendizagem mediada sem desprezar o real interesse na figura daquele que conduz o processo de aprendizado o qual surge por sugestões e por aquele que decide aprender. Aqui a figura do condottiere italiano parece unir essa experiência em algo de extrema importância para todo aquele que decide aprender.
Na Itália do século XVI parece uma colcha de retalhos por diferentes déspotas interessados em ter controle da maior rota comercial entre o Oriente e a Europa. Florença e Veneza são os maiores centros desse renascimento comercial e tecnológico entre os dois continentes. Aquele que tiver força para controlar essas rotas também pode atingir a zona de interesse do papado e com isso ter leis próprias que lhe privilegiem. Esse incrível jogo de interesse não pode ser observado como apenas um mero registro de atividades humanas por um jogo estratégico de poder. Não, pois mesmo o poder possui regras, laços humanos profundos, os quais dizem respeito a uma ciência tal como a política em seu ápice formador, segundo Aristóteles (1999) a partir da ideia de uma formação e administração do bem público (πολιτούμα), tal como parte integrativa da própria Paideia grega (JAEGER, 1995). “Aquele que pode antever, pela inteligência, as coisas, é senhor e mestre por natureza” (ARISTÓTELES, 1999, p. 144), estamos diante a uma concepção que explicita o interesse de Platão em sua metáfora da carruagem, tal como no livro 1 de A República (PLATÃO, 2019). O sonho de uma ciência da cibernética na qual natureza e cultura se unem de forma coerente, uma alimentando-se na outra, em uma espécie de semelhança que sirva como conhecimento e, por fim, ao controle, passa a ser parte de uma aparente utopia em termos platônicos. Contudo, o quanto dessa utopia não é justamente o ideal da Paideia quando deflagramos os elementos espirituais cujo poder permite cada vez mais uma compreensão do lugar do soberano justo e em acordo com o entendimento preciso de seu poder e os resultados que ele traz.
O nascimento da modernidade mostra um novo capítulo sobre o desenvolvimento do Estado. O Estado Moderno precisa de uma força política ativa, a qual não se baseia apenas confiança de seus membros nas qualidades da educação. O soberano a partir das condições do Estado deve priorizar se manter no poder, mas deve fazê-lo por compreender certas condições que contradizem as antigas instituições morais da civilização. Isso não significa que o soberano deve ser imoral ou destituído de qualidades nobres. “E é preciso compreender que um príncipe, em especial quando novo, não pode observar todas as coisas a que são obrigados os homens tidos como bons, pois é muitas vezes forçado, para manter o governo, a agir contra a caridade, a fé, a humanidade, a religião” (MAQUIAVEL, 1999, p. 111). Isso quer dizer levar em consideração a realidade como problema maior de sua administração, a qual entrará necessariamente em algum momento em desacordo com as regras éticas do bem coletivo. Isso não significa, é claro, que o soberano deva constranger seus registros éticos em benefício apenas do interesse pelo poder. O poder corrompe, sabemos bem, mas antes as admoestações de Maquiavel, dadas de presente de aniversário a Lorenzo de Médici em 1513, servem para um entendimento das consequências do poder. “Os homens costumam julgar maias pelos olhos do que pelas mãos, uma vez que todos podem enxergar, mas poucos podem sentir. Todos veem o que tu pareces, poucos o que realmente és, e esses poucos não ousam contrariar a opinião dos que tem a seu favor a majestade do Estado” (MAQUIAVEL, 1999, p. 111). Aqui o autor italiano nos fala de algo que ainda hoje é temeroso pode demais na política: fazer parecer honestidade e subestimar a capacidade de análise da minoria. Esse institucionalismo que atrasa tanto reformas importantes e mesmo o interesse por essas reformas que visam uma melhora na qualidade dos serviços oferecidos pelo Estado a sua população, cada vez mais cercada de uma aliança nefasta entre interesses privados falsos e a situação do discurso oficial do Estado.
Maquiavel nos conduz a olhar mais ainda para as peças no tabuleiro, seus movimentos e suas limitações a movimentos novos. É esperado que todo o anti-institucionalismo leve a um entendimento também mais complexo dos anseios e necessidades da sociedade. Contudo, quando esses apelos à autoridade do Estado em situações embaraçosas ou mesmo de impotência da sociedade se fazem necessárias, vemos o ponto de incompetência do institucionalizado na figura do Estado, o qual mantém as coisas sempre do mesmo jeito por interesses que o mantenham no poder a todo o custo. Por isso aqueles que sentem o inconveniente estão a olhar justamente para a paralaxe estabelecida: o discurso não corresponde a realidade. O valor produzido não volta para nós em forma de maior desenvolvimento. Esse sentimento de revolta, atávico na maioria das vezes, desprezado pelos soberanos, cada vez mais leva a uma desconfiança com o instituído, cuja alienação é uma consequência direta sentida pelos membros mais esclarecidos da sociedade. Quando o que move o Estado passa a ser o quanto ele recebe para continuar no poder os valores deixam de ter importância… impreterivelmente.
A lição de Maquiavel é amarga para todo o saber clássico, mas é real no sentido da própria dominação da humanidade em seu período de crise de valores. Como o projeto civilizacional pode continuar se os valores ficarem em segundo plano ou como apenas figuras de um passado sem a menor importância na vida da sociedade? Se a máquina continuar em seu sistema cibernético instaurado, à base de acomodações e cada vez menos assimilações por parte da sociedade, poderia ainda haver espaço para novos ganhos acerca da valoração sapiencial humana? Maquiavel apenas mostra uma prática corrente na época. Ele o faz em uma era de corrupção do mundo europeu em meio a mudança de parâmetros medievais para as dificuldades um mundo moderno repleto de revoluções.
O Príncipe não era um tratado de imoralidade, mas uma obra de crítica moral; não a bíblia dos tiranos, mas o retrato cruel e implacável da tirania. Fingindo dar maus conselhos aos príncipes, mas descrevendo em vez disso o que já praticavam, o livro abria para o conhecimento e autodefesa do público os segredos tenebrosos dos maus governantes (CARVALHO, 2011, p. 15).
Olavo de Carvalho é muito honesto em mostrar o quanto Maquiavel era contrário, porém, ele morava já na sede da imoralidade e da corrupção, as quais levaram a destruição dos valores católicos em busca do poder. O Príncipe, nessas condições, é um livro mais profundo em sua sutileza sobre a verdade travestida em forma de realidade inexorável. A lição ao Príncipe, aquele que almeja o poder, recai sobre uma experiência que não advém da herança (fortuna), mas sim de sua conquista (virtú) própria. Quantos herdeiros milionários nós conhecemos que não perderam tudo por má administração? Mesmo gastos feitos que não agregam a ganhos estáveis podem trazer grandes problemas para o orçamento individual. A leitura de Maquiavel segue a tradição nesse aspecto, mas explicita-a, pois, sua leitura advém do próprio autodidatismo do qual provém. O autodidata rompe com a herança anterior, com as formas de ler e interpretar textos, para trazer renovação e inventividade onde não era esperado. As armas de Maquiavel passam a ser seus escritos realizados de forma a serem um
ritual que permite a transfiguração do simples pecador humano em asceta do mal, a transfiguração das paixões baixas em perversão espiritualizada, o sacrifício da inteligência humana em troca de umas gotas de astúcia demoníaca (CARVALHO, 2011, p. 42).
A experiência do mundo vivido poderia superar os livros? Como ler os livros de um mundo que se desmancha em frangalhos? Toda a era deixa sua catástrofe para as pessoas dela se aproveitarem e desaparecerem. Não há uma história para o que desaparece… sem ser percebido como algo não vivenciado. Podemos dizer que ao perceber a passagem do tempo passamos a agregar algo dessa percepção a qual antes dos dogmas, repletos de questões já exauridas, não nos permitem entender pela força dos escombros históricos descontinuados. Talvez por isso Maquiavel, sem formação formal, mas lendo nas linhas desfeitas da tradição, a qual exige sua reinvenção com as navegações para o Oriente, a Reforma da Igreja, destituída de sua unidade pela Reforma protestante, acaba deixando escapar um átimo da experiência diante dos manuais do passado. Um passado tão distante quanto os príncipes herdeiros e sua falta de educação para a liderança. “Quem se torna príncipe apenas pela fortuna pouco se esforça” (MAQUIAVEL, 1999, p. 59). A lição mais tensa aqui para o aprendizado de todo o homem adulto que não herda o quinhão de que lhe cabe, algo que conversa com o mundo dos reinos entregues a Deus com a jurisprudência dos homens. A disciplina das horas de trabalho, da observação atenta, dos manuscritos gerados como exercícios, mesmo das derrotas em tentativas de obtenção de êxito são o diferencial para quem exige da atenção e nela deposita o olhar atento de toda a relação entre sua filigrama de matéria nas curiosas aproximações a termos aparentemente distantes. Por que será que as duas formas se encontraram? Aí se vê algo inesperado para aqueles que acreditam em uma formação meramente didática ou conceitual: o campo de batalha ensina muito quando observamos os atores envolvidos, o tempo de preparo das tropas, o cenário de operações da batalha, as armas dos oponentes e como operar sua desmobilização. A estratégia militar é tão importante para um monarca quanto o conhecimento clássico. Suas operações são distintas, mas complementares e cada vez mais é exigido que o soberano se torna bom por não apenas por manter o poder, mas com ele dar ao povo a justa medida de sua soberania em forma de avanços.
Contudo, a famigerada arte da guerra no tempo de Maquiavel (2021) transforma-se com a chegada de novas linhas de pensamento sobre as estratégias bélicas para a tomada do poder. Durante o século XX vemos a chegada dos modelos de guerra híbrida em que o poder leve (soft power) é desenvolvido em artigos culturais. Assim, o soberano faz dos seus próprios cidadãos soldados culturais, os quais defendem ideologicamente o sistema de ataques de possíveis radicais, sem perceberem o conteúdo ideológico de suas defesas. Essa ideia surge em Antonio Gramsci (1982), amplamente sustentada no trabalho de Francesca Izzo (2024), na ideia da função social do intelectual orgânico, o qual se transforma em militância política.
Uma das mais marcantes características de todo grupo social que se desenvolve no sentido do domínio é sua luta pela assimilação e pela conquista “ideológica” dos intelectuais tradicionais, assimilação e conquista que são tão mais rápidas e eficazes quanto mais o grupo em questão elaborar simultaneamente seus próprios intelectuais orgânicos (GRAMSI, 1982, p. 9)
O aperfeiçoamento de uma ideia se dá de diversas formas. Uma ideia que anteriormente era vista como subversiva vai aos poucos ganhando o amparo de intelectuais especializados e tais ideias irradiam para a sociedade como se fossem a única forma de expurgar todos os malefícios do capitalismo. Basta uma tese anticapitalista sustentada por jovens consumidores de Iphone, hipócritas sem que o saibam, para que assim tenhamos um exército de ignorantes especialistas em todos os assuntos da sociedade. Um modelo tão simples que há vinte anos seria visto como ficção científica… mas aplicado na prática hoje em dia e com muita galhardia.
Ao fim e ao cabo, as armas de Maquiavel se dizem realistas sem considerarem o idealismo por trás de seu vislumbre de realidade. Esse elemento ainda hoje é de difícil percepção quando colocamos em contraponto o mundo clássico e seu detalhado olhar e o mundo moderno em sua pressa irretorquível na esperança de nos convencer da realidade da realidade, tal como a modernidade aspira desde seu tumultuado lançamento.
Mesmo dentro desses limites, o olhar que ele lança tanto sobre o modus operandi imediato da política, se parece “realista” no sentido do pessimismo crítico e da exclusão a priori da possibilidade de motivações elevadas e santas nas ações dos homens, é obviamente afetado por um viés subjetivo no sentido de que Maquiavel gosta das maldades que observa e as contempla com o olhar extasiado de um apreciador da arte (CARVALHO, 2011, p. 48).
O mal não pode ser assumido em consequência de uma soberania pelo poder. Tampouco, o desprezo pelo bem se reverte em prática no campo de batalha. Talvez isso assuste todo o cavaleiro medieval, cujo sentido era ser conduzido pela aspiração heroica de seu príncipe com amparo da Igreja. Maquiavel provoca a mentira para justificar assim a soberania e o faz com os arremedos da realidade belicosa de seu tempo já dominado pelas guerras tirânicas de líderes inescrupulosos. A Igreja nessa concepção não passa de um jogo de interesses, perde de mira as virtudes e a condução das almas de seus adeptos. Essa corrupção de valores chega como uma profecia que se atualiza em um século XX repleto da mistura entre entretenimento e informação, direita e esquerda, verdade e mentira. Binarismos que servem como armas na mãos de quaisquer lutas por um poder que o povo mesmo abriu mão quando o Estado moderno erigiu seu nome. Nosso papel cabe ainda olhar com atenção, esperar e pensar, na medida do possível, sobre um mundo em restauração.
Referências:
ARISTÓTELES. Política. Tradução de Therezinha Monteiro Deutsch, Baby Abrão. In: Os Pensadores. São Paulo: Abril, 1999.
CARVALHO, Olavo de. Maquiavel ou A Confusão Demoníaca. Campinas: Vide Editorial, 2011.
GRAMSCI, Antonio. Os Intelectuais e a Organização da Cultura. Tradução de Carlos Nelson Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982.
IZZO, Francesca. O Moderno Príncipe de Gramsci: cosmopolitismo e Estado Nacional nos Cadernos do Cárcere. Tradução de Alberto Aggio. Campinas / Brasília: Editora da Unicamp / Fundação Astrojildo Pereira, 2024.
JAEGER, Werner. Paideia: a formação do homem grego. Tradução de Artur M. Parreira. São Paulo: Martins Fontes, 1995.
MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. In: Os Pensadores. Tradução de Olívia Bauduh. São Paulo: Abril, 1999.
MAQUIAVEL, Nicolau. A Arte da Guerra. Tradução de Eugênio Vinci de Moraes. São Paulo: MEDIAfashion, 2021.
PLATÃO. A República. Tradução de Edson Bini. São Paulo: Edipro, 2019.
WIENER, Norbert. Cibernética e Sociedade: o uso humano de seres humanos. Tradução de José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix, 1968.
Estevan de Negreiros Ketzer é psicólogo clínico (PUCRS), com mestrado e doutorado em Literatura (PUCRS). Realizou pesquisa nos arquivos do IMEC, na França, em 2015. Assessorou a Uniritter na implementação do curso de Escrita Criativa em 2016. É pesquisador do Núcleo de Estudos Judaicos (NEJ) da UFMG e pós-doutorando em Literatura (UFMG).









