Solomon ibn Gabirol

Para Gabirol, o caráter imperfeito das coisas é devido à complexidade de suas próprias transformações, o qual retira a forma de sua unidade e espiritualidade originais.

Estevan de Negreiros Ketzer

Psicólogo Clínico (PUCRS). Doutor em Letras (PUCRS). Email: [email protected]

Solomon ibn Gabirol (1026 – 1050), de Málaga, nasce de uma família de judeus fugidos das perseguições ocorridas em Córdoba, no ano 1013. Ele é deixado órfão e passa a ser cuidado por Yekutiel ibn Hassan al-Mutawakkil ibn Qabrun, já na cidade em Zaragoza. O escritor já começa a escrever poemas em árabe com 17 anos.

A envergadura do trabalho de Gabirol reside em escrever poemas acerca da exaltação dos limites humanos quando comparados com a grandeza da criação de Deus. Esses poemas estão dentro do gênero literário baqqasha, o qual é uma série de perdões (selichot), cujo poema “A Coroa da Realeza” (Keter Malchut) expõe em maior extensão. Esse gesto também vem da profunda meditação do poeta sobre si mesmo. Uma meditação em que ele observa seus pensamentos, suas relações e é capaz de inferir dentro de si as limitações que o levam a pecar (chet) e, assim, trair a confiança de Deus. Vemos na porção número 37 do poema “A Coroa da Realeza”:

לָמָּה נִבְרֵאתִי. וְלִרְאוֹת עָמָל נִקְרֵאתִי

Por que fui criado e chamado para ver a tristeza?

טוֹב לִי עוֹד אֲנִי שָׁם. מִצֵּאתִי לְהַגְדִּיל פֶּשַׁע וּלְהַרְבּוֹת אָשָׁם

Teria sido melhor ter permanecido onde estava do que ter vindo até aqui para aumentar e multiplicar o pecado.

אָנָּא הָאֱלֹהִים בְּמִדַּת רַחֲמֶיךָ שָׁפְטֵנִי. אַל בְּאַפְּךָ פֶּן תַּמְעִיטֵנִי

Eu te suplico, ó Deus, julga-me pela tua misericórdia e não pela tua ira, para que não me destruas.

כִּי מָה הָאָדָם כִּי תְדִינֵהוּ. וְהֶבֶל נִדָּף אֵיךְ בְּמִשְׁקָל תְּבִיאֵהוּ.

Pois que é o homem para que o julgues? E como poderás pesar um vapor que se move à deriva?

וּבַעֲלוֹתוֹ בְּמֹאזְנֵי מִשְׁקָל. לֹא יִכְבַּד וְלֹא יֵקָל. וּמַה יִסְכָּן לְךָ לַעֲשׂוֹת לָרוּחַ מִשְׁקָל

Quando a colocares na balança, ela não será nem pesada nem leve; e de que te aproveitará pesar o ar?

מִיּוֹם הֱיוֹתוֹ הוּא נִגָּשׂ וְנַעֲנֶה. נָגוּעַ מֻכֶּה אֱלֹהִים וּמְעֻנֶּה

Desde o dia do seu nascimento, o homem é oprimido e atormentado, “Ferido, ferido por Deus e afligido”.

Como filósofo ele escreve Fonte da Vida (Mekor Chaim) com sua lógica e conceitos rigorosos, não deixa espaço para lirismo ou imagens, nem reflete qualquer concepção judaica. O libro, escrito em árabe recebeu tradução para o hebraico por seu amigo Ibn Daud e, posteriormente, recebeu tradução para o latim por Dominicus Gundissalinus. Ele recebeu a alcunha de Avicebron, durante a Idade Média latina, sendo sua verdadeira identidade descoberta somente no século XIX.

Em Fonte da Vida, Gabirol busca sair dos sistemas platônico e aristotélico, pois busca um princípio que não entre em semelhança com a generalidade. A matéria é por si só repleta de indeterminações. Se substâncias de diferentes espécies ainda assim exigem generalidades entre si, esta similaridade é apenas o comum subjacente a elas, enquanto suas diferenças se devem a um princípio diferenciador. O princípio de generalidade é matéria, enquanto o princípio diferenciador é forma. A realidade é um composto de ambos os elementos, impreterivelmente. E como a generalidade é anterior à diferenciação, pois, todas as diferenciações continuam a partilhar de sua essência, a matéria deve ser o substrato que confere sua essência às várias substâncias. A forma diferenciadora é inerente à matéria e desenvolvo, a partir dela, a multiplicidade de particulares separados.

Portanto, a matéria não pode ser compreendida ao isolá-la da forma, ela não pode ser pensada em si como unidade. Esse ar de ceticismo também é de extrema relevância para um pensador cujo interesse é realmente investigar a realidade. Para Gabirol, o caráter imperfeito das coisas é devido à complexidade de suas próprias transformações, o qual retira a forma de sua unidade e espiritualidade originais. A necessidade de uma diferenciação interna da própria matéria é emergente. Ao ser humano cabe realizar uma compreensão interior dessa situação, pois o ser da substância corpórea deve servir de ponte entre a temporalidade do mundo corpóreo e a eternidade de Deus.

Por fim, o trabalho de Gabirol não só influenciou toda a investigação da escolástica latina, principalmente com o trabalho de Duns Scotus, o qual divergia da corrente francesa de Albertus Magno e seu aluno, Tomás de Aquino. O interesse por uma compreensão melhor dos assim chamados “acidentes”, isso é, características específicas dos objetos, levou a uma investigação pormenorizada da complexidade da matéria diante da inteligibilidade humana, a qual o esforço recai muito mais na investigação das faculdades cognoscentes do que na classificação simplificada da identidades entre matéria e forma.  

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Estevan de Negreiros Ketzer é psicólogo clínico (PUCRS), com mestrado e doutorado em Literatura (PUCRS). Realizou pesquisa nos arquivos do IMEC, na França, em 2015. Assessorou a Uniritter na implementação do curso de Escrita Criativa em 2016. É pesquisador do Núcleo de Estudos Judaicos (NEJ) da UFMG e pós-doutorando em Literatura (UFMG).

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