O heroísmo dos polímatas

O casamento de Perseus interrompido por Phineus, de Hugues Taraval (1767), coleção privada, New York.

Um instante vivido de maneira plena, como se fosse o último, como se dele estivéssemos diante a toda a eternidade.

Estevan de Negreiros Ketzer

Psicólogo Clínico (PUCRS). Doutor em Letras (PUCRS). Email: [email protected]

μύθων τε ῥητῆρ᾿ ἔμεναι πρηκτῆρά τε ἔργων.

“Para ambas as coisas: proferir palavras e realizador de feitos.”

Ilíada, Canto IX, verso 443

Quem de nós pode ser herói? E vencer as adversidades a ponto de ser exemplo aos novos. Quem de nós com coragem se lançará ao mar das mentiras e injustiças? Ou sucumbirá diante ao medo… O medo do desconhecido.

Quantas vezes o medo é capaz de nos assolar e impedir nossa construção como pessoas. A ideia de vencer o medo deve ser pensada em comparação a sermos corajosos o suficiente para afirmamos nossa vida em correspondência ao que de melhor existe em nossa civilização. Se não encontramos modelos presentes adequados, é mais do que necessário olharmos para o passado. Esse trabalho de olharmos para o passado ajudará ao desenvolvimento da memória e, outrossim, ao desenvolvimento de nossa imaginação. Talvez ainda tenhamos dificuldade com isso, pois, nossa cultura atual se verte cada vez mais pela velocidade, deixando escapar a beleza suprema do instante e suas consequências em nossa vida. Um instante vivido de maneira plena, como se fosse o último, como se dele estivéssemos diante a toda a eternidade.

Portanto, a decisão verdadeira sempre foi encarada como algo único na história do universo. Esse momento foi chamado pelos gregos antigos de kairos (καιρός). O tempo em que as coisas se encontram pela verdade (αλήθεια). Esse olhar espiritual tão presente no mundo grego, cujo escopo chega a nós por volta de mitos, poesias, dramas trágicos, guerras e a incompreensível filosofia com seu não saber de coisa alguma. Não saber coisa alguma para chegarmos a essa constituição de alma que nos vertemos em um autocuidado (Φιλαυτία), algo tão importante para cada grego, pois, nesse cuidar de si estava presente um pequeno grau do mundo, ou sua compreensão da ideia da cidade-Estado grega (πόλις). Essa ideia de um lugar capaz de cuidar de todos deveria partir de cada cidadão para que, assim, houvesse exemplos de grandeza e altruísmo. A consagração de toda a sociedade grega com a honra (τιμή) de sua própria vida. Não há sociedade sem que, de fato, as pessoas estejam motivadas (θυμός), dentro de situações que as animem e impulsionem. Aqui já estão indicativos da função de herói (ήρωας) para as nossas vidas.

O que me parece de alta importância ressaltar aqui nesse texto não é apenas o entendimento do que escrito na cultura grega como exemplo para nossa mentalidade. Há mais do que isso em cada sofista, ainda que Platão e Aristófanes não gostassem deles pelo caráter meramente utilitário ou mesmo por se apregoarem um falso conhecimento. Os sofistas em sua grande maioria eram polímatas, conheciam muitos conhecimentos em profundidade. Não bastava ter excelência em uma atividade intelectual. Os sofistas talvez tenham sido os primeiros a compreenderem, no mundo grego, o quanto um especialista teria problemas em toda a concepção de bem (καλός) genuíno para sociedade. Um especialista pode facilmente perder de vista a realidade e com isso trazer um grande malefício. Eles chamavam de idiota (ἰδιώτης), com praticamente mesma sonoridade que temos no português, aquele que estava tão dentro de si a ponto de gerar um mal à vida pública com tal atitude. Portanto, entender da política era exigia também entender da educação, ao olhar os atributos que nos obrigam a sair de si mesmos e firmemente encontrar na cidadania os males que nos cercam. O Livro 7 da República de Platão nos fala das sombras vistas por um grupo de homens trancados em uma caverna. Eles enxergam as sombras como a realidade, enquanto há um homem capaz de sair da caverna e olhar a realidade como de fato ela é. Essa situação causa uma profunda estranheza naqueles que enxergam as sombras como a realidade, levando a morte o homem com seus nobres esforços de sair da caverna e contar o que viu no lado da luz. Platão nos adverte de dois lados sobre os problemas de quem enxerga as sombras e de quem enxerga a realidade. Como traduzir a quem só vê as sombras algo diferente daquilo? Se a visão apaixonada da luz não puder ser suavizada com outros elementos mais abrasivos, todo o esforço será em vão para trazer a experiência (εμπειρία) se tornara realidade palatável. Uma experiência, fechada em si mesma é apenas uma opinião (δόξα) entre outras, ainda não é a experiência com o entendimento científico (ἐπιστήμη), a qual eleva a realidade (αλήθεια).

Em minhas conversas com o amigo Eliseu Cidade nossas preocupações giram em torno de como trazer os polímatas de volta à vida. Como podemos trazer os heróis para seu devido lugar de prestígio e excelência em um mundo de caos e sofrimento. Esse torna-se um dever para o intelecto que age com serenidade e disciplina. A ascensão dos polímatas terá de ser feita conforme nossas preocupações serem realmente sérias e a respeito dos interesses primordiais de vinculação com o bem. Caso contrário só faremos repetições de formas internacionais, cujo escopo não serve para nosso caso. Se começarmos por entender a preguiça e a inércia que assolam nosso pobre ambiente intelectual, nós poderemos enfrentar na medida de cada dificuldade aquilo que será realmente necessário para uma construção humana sólida e verdadeira.

Referências:

PLATÃO. A República. Tradução de Albertino Pinheiro. São Paulo: Atena Editora, 1950.

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Estevan de Negreiros Ketzer é psicólogo clínico (PUCRS), com mestrado e doutorado em Literatura (PUCRS). Realizou pesquisa nos arquivos do IMEC, na França, em 2015. Assessorou a Uniritter na implementação do curso de Escrita Criativa em 2016. É pesquisador do Núcleo de Estudos Judaicos (NEJ) da UFMG e pós-doutorando em Literatura (UFMG).

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