
Ali onde todos os caminhos terminam, uma porta coberta de palha decide se aguarda Roma… ou apenas o Nada.
Tiago Barreira
Publicado durante o franquismo espanhol, La Puerta de Paja (1952) – “A Porta de Palha” – é um romance histórico medieval da fase tardia do escritor e pensador galego Vicente Risco, um período marcado por seu ostracismo nos círculos galeguistas devido à sua aproximação ao regime e à sua ideologia nacional-catolicista. Apesar dessa rejeição na Galícia, o romance foi bem recebido no restante da Espanha: foi saudado pela crítica e recebeu o Prêmio Nadal de 1952, tornando-se uma das obras de ficção mais significativas do escritor ourensano e confirmando-o como um importante narrador em língua espanhola.
“Assim dizia Risco, quando Risco era alguém”, murmuravam os seus antigos companheiros galeguistas, que o viam como traidor do movimento que ele ajudara a construir nos anos 1920–1930. Risco, mestre do nacionalismo galego, acreditava que o galeguismo republicano havia se inclinado demais para a esquerda e para o lado derrotado na Guerra Civil Espanhola (1936-1939).
O maior paradoxo para quem estuda a vida e obra de Risco é que o regime espanhol nacional-católico que passou a apoiar —e que chegou a defender enfaticamente em manuscritos dos anos finais da guerra— era, na realidade, contrário a quase tudo o que alimentou o seu universo imaginativo: sua missão cultural regeneracionista centrada no resgate da língua galega, suas inclinações ao paganismo céltico, à teosofia, ao orientalismo esotérico e ao cristianismo popular gnóstico de raiz priscilianista. Tudo isso herético e inconciliável com o integrismo católico do regime.
Escrito em castelhano —e não em galego, como seus romances anteriores— e sob a sombra da censura, La Puerta de Paja pode ser lido como a confissão de um Risco amedrontado e capitulado diante do regime… ou talvez como um Risco galeguista resiliente, que disfarça um livro hermético para transmitir ensinamentos proibidos ao seu tempo? A especulação permanece aberta.
Um romance existencial e político
O romance se destaca por sua temática existencial e por suas alusões à política e à sociedade convulsas do pós-guerra: uma Espanha e uma Europa Ocidental empobrecidas, desconfiadas, marcadas pelo medo do expansionismo soviético e da subversão revolucionária, vistas pelos olhos de um autor católico conservador que contemplou a degradação institucional deixada pela guerra.
Político-social, mas também introspectivo e psicológico, o romance articula as angústias da alma europeia de seu tempo. A partir de uma narrativa medieval fantástica e satírica, levanta questões perenes sobre o poder e a corrupção, a culpa, a finitude, o fatalismo e o sentido das ações humanas. A porta funciona como um símbolo potentíssimo de fatalidade: une o humano ao sobrenatural invisível e marca um limite do qual não se pode voltar. Uma porta para a qual “terminavam todos os caminhos”, mas cujo outro lado não podia ser visto, porque estava coberto de palha.
A trama: Baldonio e a desordem de Niebra
A trama se concentra na cidade de Niebra, sob o bispado de Baldonio: sacerdote descrente, corrupto, quase um papa Bórgia Alexandre VI. Tem um amor adúltero e secreto por Rosinda, a quem mantém enclausurada em seu palácio. Atormentado por sonhos persecutórios e destituído de sua mitra, empreende uma peregrinação espiritual a Roma em busca de indulgência papal. Seu arrependimento, no entanto, não está isento de desejos ambivalentes e teatrais, de uma possível beatificação que lhe devolva prestígio e poder. Em sonhos, aparece-lhe uma porta ao final do caminho, impedindo sua entrada em Roma: obstruída por simples palha.
Sua saída do poder desencadeia em Niebra uma onda de violência e convulsões populares. Baldonio, embora depravado em privado, mantinha a ordem institucional e era admirado pelo povo, alimentado por mentiras sobre sua conduta. Daí surge o paradoxo do homem corrupto e da sociedade funcional. Risco parece deixar um recado conservador: destronar um poder não significa terminar com os problemas sociais, mas abrir espaço para novas disputas e para mais tirania.
Por meio da peregrinação do prelado, o romance reflete a ambivalência da consciência humana diante da finitude: atrás da porta “está Roma, ou está o Nada. Se está o nada, tudo foi um delírio absurdo”. O Nada, símbolo constante em Risco, remete ao seu profundo interesse pela filosofia oriental e pelo budismo: o véu de Maya, que cobre a realidade aparente do poder, do prazer e do triunfo. Risco se apropria desse conceito sob leitura cristão-católica: a ilusão do mundus, caro et diabolus. Assim, os dogmas da ressurreição e do juízo final permanecem intactos. E o livro se torna digerível para a censura em uma época de zelo político a Roma.
Baldonio, niilista, confronta em sonhos o vazio. Se nada existe, nem sequer ele mesmo, que sentido têm o poder e o prestígio? Se o budismo zen proporia, diante do sofrimento, aceitar o vazio e abraçar o ascetismo do mundo, o Risco católico acrescentaria à ideia budista do sofrimento o sentimento judaico-cristão da culpa. O Nada não é a essência da realidade, mas obra do diabo que busca a condenação da alma. A salvação não está na renúncia interior ou no conhecimento, mas na fé em Roma e na indulgência papal. Somente o pontífice tem as chaves que conectam o tempo à eternidade.
A partir disso, a angústia de Baldonio e seu enfrentamento com o diabo podem ser lidos como alegoria do próprio Risco, preso entre a heresia de seu imaginário esotérico-oriental e a necessidade de reconhecimento público em uma Espanha regenerada por um nacional-catolicismo que não aceita qualquer desvio no pensamento teológico.
Risco: metafísica perene e adesão política
Se é verdade que Risco era um escritor de formação filosófica em metafísica perene, com influências de Guénon, Yeats, Jung e Mircea Eliade, combinada ao seu grande interesse pelos estudos orientalistas e pelo esoterismo céltico, uma pergunta se impõe: até que ponto foi total ou sincera a adesão de um pensador de tão vasta erudição ao catecismo político franquista?
Sua cosmovisão profundamente espiritual e cética diante das fórmulas políticas salvacionistas dificilmente poderia ser domesticada por um fascismo panfletário de fé cega no poder do Estado, como foi o falangismo militante do seu tempo. Em La Puerta de Paja ainda persistem elementos do imaginário fantástico do Risco esotérico, no qual o oculto e o mágico intervêm como motor da dinâmica histórica e dos acontecimentos, de maneira fatalista e cíclica, por meio da figura de um dos líderes de uma minoria social marginalizada em Niebra e um dos atores das revoltas na cidade: Plutón Barrabás. Figura exótica que simboliza essa força inapreensível, como o Rei do Mundo guénoniano, Barrabás é o detentor do verdadeiro poder temporal, mas retraído aos olhos das multidões, diante do qual as autoridades e os poderes espirituais e estatais visíveis são meros fantoches submetidos à sua influência oculta e onipresente. Suas intervenções na história são pontuais, restaurando, em momentos excepcionais de crise, a ordem frágil de uma sociedade em dissolução.
O Rei do Mundo restitui a ordem dos excessos e preserva o status quo, mas não pode resgatá-lo de sua decadência estrutural. Nenhum salvador ou messias político é capaz de interromper a marcha cíclica e fatal do tempo. É necessário, segundo a lógica do poder oculto, que o corrupto Baldonio ocupe e permaneça no poder, decretariam as forças misteriosas da realidade. Além disso, as revoluções, segundo Barrabás, não seriam mudanças drásticas de uma história humana progressiva e linear, mas um movimento compensatório de agitação que “mistura e turva os líquidos puros em sua redoma: com o repouso, retornam à sua situação anterior”. E, de modo determinista: “Cada coisa deve voltar ao seu lugar”, em uma concepção cíclica de clara influência do Risco tradicionalista e perenialista, marcada pela ideia hindu do Kali Yuga de René Guénon —a idade sombria e terminal em que a ordem se desfaz e a vida social, cultural e moral se degrada, sem que ninguém possa detê-la. Um conceito que também reaparece em outra obra de grande importância de Risco: As Trevas do Ocidente.
Valor literário e crítica
Embora criticado por alguns por seu excessivo linearismo expositivo e por um “desleixo expositivo” que comprometeria a sua estrutura e solidez, La Puerta de Paja é uma obra de grande peso literário, cujo conteúdo articula transcendência espiritual e mística com as angústias sociais de uma Espanha e de uma Europa do pós-guerra, através do vasto conhecimento histórico medieval e metafísico de Vicente Risco. Um mundo em que a história e a existência sensível não são mais que um véu, um simples pano de fundo de uma realidade invisível que governa acontecimentos humanos. De uma existência cegada pela palha que “nos afasta de nosso ser” e que nossa peregrinação interior neste mundo deve atravessar.
Pois a condição terrena é ilusão, como bem a descreve a personagem Alda, uma mulher bela e outra figura enigmática do povo oculto de Plutón Barrabás. Sua passagem misteriosa pela narrativa, objeto de enamoramento de muitos, é considerada, em particular, uma belíssima alegoria do poder de Maya, representada como a carne sensual que se esvai, como a “fumaça que se perde no céu azul”. Algo que “cruza nossa vida e não pode permanecer nela”, ou aquilo “que não se sabe se é do céu ou do inferno, se arrebata para o alto ou para o profundo”. Porque não pertence a nenhum homem. Ao fim:
“Eras acaso la verdad, eras acaso la mentira… Eres eso, ya no eres nada, pero volverás siempre.”

📚 Livro recomendado:
La Puerta de Paja — Ed. [Guada]G.P., Barcelona · 1960 · Capa mole
| Editora | [Guada]G.P., Barcelona |
| Data de publicação | 1960 |
| Encadernação | Capa mole |
| Páginas | 160 |
| Altura | 18 cm |
| Estado | Capa desgastada; ilustrada |
*Ficha referencial baseada em edições usadas disponíveis em livrarias de segunda mão.*









