O mito da liberdade imortal em Highlander

Highlander (1986). Imagem: Guioteca.com

Highlander não é apenas um produto de seu tempo, mas a sobrevivência de um mito trágico que resiste ao empobrecimento do presente. Sob a épica dos anos 80, esconde-se uma reflexão sobre imortalidade, solidão e soberania que continua a interpelar o mundo moderno.

Tiago Barreira

Nostálgica e épica, Highlander (1986) é talvez uma daquelas obras marcantes de uma geração. Pode ser hoje criticada por alguns pelo envelhecimento de seus efeitos gráficos, ou até mesmo por ideias apologéticas de cunho darwinista social — o “apenas um sobrevive” como leitmotiv musical e guia condutor da trama. Alguns poderão atirar a primeira pedra e apontar essas ideias como um resquício cultural do culto entusiástico ao individualismo liberal competitivo em moda nos tempos de Reagan e Thatcher.

Confesso que, como resenhador e curador de obras, tendo a ser mais generoso do que implacável em avaliações. Careço dos elementos daquele espírito destrutivo da negação de que fala Adorno para trabalhar uma crítica ensaística exitosa. Talvez, ironicamente, eu seja tão autocrítico comigo que isso me impeça de enxergar defeitos à primeira vista em obras externas, ao ponto de faltar com os requisitos para que os frankfurtianos da dialética da negação me considerem um bom crítico literário.

Minha hipótese é que, para avaliar obras envelhecidas e de temas datados como Highlander, só há dois caminhos possíveis: ou é uma obra de má qualidade que não resistiu ao teste do tempo presente, ou é o tempo presente — e os seus críticos — que não estão à altura da obra. Tendo a acreditar mais na segunda opção, diante da infeliz falta de repertório cultural a que chegamos na atualidade, com seu maniqueísmo vigilante empobrecedor, que fetichiza tudo o que soa estranho como ameaça.

O que uma obra datada como Highlander teria de valor nos dias atuais? O próprio tema em si é de grande valor universal: a saga de um guerreiro das terras altas escocesas do século XVI, condenado por uma maldição de tribos rivais a ser imortal. Rejeitado e expulso por sua comunidade como um demônio, vive o atravessar dos séculos em constante confronto com o meio que o circunda. A história é uma adaptação do mito arquetípico do herói trágico à épica cinematográfica hollywoodiana dos anos 80, com doses do ambiente distópico urbano nova-iorquino da época.

Com uma narrativa não linear, muito rara ao gênero blockbuster, o filme é acompanhado por tomadas espetaculares do cenário das Highlands escocesas. A trilha sonora do Queen, marcada pelo vocal de Freddie Mercury, acompanha a história como leitmotifs, perfazendo um gênero de rock sinfônico que dominou as produções cinematográficas da época. O filme é uma peça de arte única dos anos 80, satisfazendo muitos elementos do ideal de arte total wagneriano, ao combinar, em uma única síntese artística, música, imagem, mito, o terreno e o divino, a tragédia e a redenção.

A ideia da imortalidade, entendida como fardo e castigo, pode soar bastante contraintuitiva aos olhos da cultura moderna. Essa ideia possui profundas raízes em antigos mitos tradicionais da cultura celta escocesa. Viver eternamente é um fardo no sentido de se tornar único e incompreendido pelos demais mortais; é distanciar-se daquela finitude essencial humana que une e dá liga às civilizações. O imortal é incomunicável e, por isso, alvo de invejas e perseguição. É a partir daí que se estabelece outro elemento central da obra: a existência de uma sociedade invisível de combate. À margem da vida social dos mortais, esses indivíduos imortais coexistem com o mundo comum, mas estão vinculados a uma regra inexorável: devem confrontar-se e eliminar-se mutuamente ao longo dos séculos, até que reste apenas um único imortal.

Ao vencedor será oferecido um prêmio: o poder da onisciência oculta. Não é possível ignorar os paralelos profundos entre essa estrutura narrativa e o arquétipo do Rei do Mundo, tal como formulado por René Guénon. Trata-se da figura do soberano imortal, oculto e retirado do mundo visível, detentor de um saber superior. Sua presença se manifesta de forma excepcional e episódica, emergindo apenas em momentos de crise histórica como instância de restauração da ordem e de reparação da justiça.

Em Highlander, aprendemos como o mundo se transforma: pessoas nascem, amam e morrem, mas só o tempo permanece. E o tempo pertence ao herói trágico, àquele que nele persevera pelo sofrimento, pela dor e pela solidão, sendo eternizado pelos séculos. Highlander é o cavaleiro da fé solitário kierkegaardiano, que crê no absurdo de sua imortalidade e de sua vitória e que, por isso mesmo, vence.

+ posts

Tiago Barreira é doutorando em Filosofia pela Universidade de Santiago de Compostela (USC), possui pós-graduação em Filosofia pela Faculdade de São Bento-RJ e é bacharel em Economia pela Fundação Getulio Vargas Rio (FGV-Rio). Atua como consultor e analista de dados, e escreve regularmente sobre temas relacionados à Economia, Filosofia e Cultura.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *