
Temor e Tremor expõe a solidão, a angústia e a fé como núcleos irredutíveis da liberdade humana. Em Kierkegaard, viver autenticamente significa assumir, em silêncio, um dever absoluto que nenhuma ética coletiva pode justificar.
Tiago Barreira
Poucos autores na história do pensamento ousaram escrever sobre o sentimento da solidão melancólica e tomá-la como uma experiência legítima e via estruturante para a liberdade humana.
Um sentimento condenado teologicamente no passado, patologizado e clinicamente tratado no presente como uma atitude antissocial, mas ainda assim de caráter profundamente filosófico por sua natureza introspectiva e meditativa, o silêncio melancólico dos solitários tampouco parece ocupar espaço funcional na era atual de consumo das massas, marcada pelo hiperestímulo sensorial de feeds algorítmicos, que sufoca qualquer tipo de silêncio interior em favor do ruído da sociabilidade performática que monetiza.
Não por acaso, a melancolia é também vista como inimiga de regimes totalitários coletivos dedicados a vender à humanidade a promessa da felicidade de um paraíso terrestre redentor. A melancolia parece incitar a um refúgio e a um recolhimento reflexivo interior que é perigoso a regimes e modelos sociais que põem sob qualquer suspeita tudo aquilo que esteja oculto e fora do escopo da vigilância e do controle.
O romantismo e o resgate do trágico
O século XIX romântico talvez tenha como grande mérito o redescobrimento do valor da melancolia e do sentimento trágico da vida, algo outrora tratado com vigor pelo teatro grego. Aquele século foi particularmente prolífico em elevar um sentimento tão antissocial a um ideal estético e existencial humano, por meio de figuras de personagens solitários e trágicos, como o Fausto de Johann Wolfgang von Goethe, e pelo intenso interesse literário por amores fracassados, como em Os Sofrimentos do Jovem Werther. Sob as notas musicais de Frédéric Chopin, e sob o sofrimento da surdez que marca as últimas sinfonias de Ludwig van Beethoven, parece fluir uma mensagem espiritualmente incômoda, veículo e forma de expressão de uma verdade existencial profundamente rica.
É nesse horizonte que se insere o pensamento do dinamarquês Søren Kierkegaard (1813-1855). Escrita em 1843, seu livro Temor e Tremor oferece uma das formulações mais radicais e rigorosas do valor ético da solidão melancólica, da angústia e da interioridade. A obra constitui um ensaio filosófico que expõe o núcleo de seu pensamento ético-religioso, no qual a experiência individual, irredutível e silenciosa de uma vida de fé autêntica se coloca em tensão direta com as exigências universais da moral, da comunidade e da razão sistemática.
Temor e Tremor
Kierkegaard nunca teve a pretensão de escrever como um filósofo — ao menos segundo aquilo que entendia por “filosofia” enquanto pensamento analítico, lógico-racional e sistemático à maneira de Hegel — optando por um estilo poético e literário subjetivo ao abordar seus conceitos sobre a atitude existencial perante a vida, a finitude e a autenticidade humana, os fundamentos do dever ético e a relação do indivíduo perante a comunidade geral e o absoluto. O pensamento do dinamarquês exerceria uma influência impactante sobre a ética moderna do século XX e o existencialismo, sobretudo o de Heidegger e Sartre.
Pois Kierkegaard é, acima de tudo, um poeta, no sentido de formular e reivindicar o ideal ético do gênio poético autêntico, um ideal herdeiro da tradição estética romântica inaugurada pelo Sturm und Drang da vizinha Alemanha de Goethe e Schiller. E, como todo poeta, vida e obra se entrelaçam no autor dinamarquês, assim como em Schopenhauer, outro grande poeta-filósofo coetâneo, igualmente inimigo intelectual de Hegel e defensor da irredutibilidade do indivíduo particular a fórmulas abstratas gerais.
Falar da obra de Kierkegaard, portanto, é falar de sua vida. Sobre sua biografia pessoal e seu histórico de amor fracassado — Kierkegaard renunciaria ao noivado com Regina Olsen, a quem amava, e cuja renúncia marcaria todo o seu sentimento trágico e melancólico perante a vida — desdobram-se reflexões sobre a natureza da solidão na fé e da angústia individual perante o sentido e o dever. Sobre essas reflexões desenvolvidas em Temor e Tremor, Kierkegaard exaltaria a figura romântica do louco genial, ou, em suas palavras, o “cavaleiro da fé”, espelhado em sua vida pessoal de renúncia amorosa mundana.
O cavaleiro da fé é o modelo incompreendido e detentor de uma subjetividade incomunicável e mística, ou, em suas palavras, um Particular sem mediação com o sistema geral e conectado diretamente ao absoluto. Perseguido, isolado e ridicularizado, a maior loucura do gênio, do místico ou do santo está na renúncia a ter seus atos compreendidos segundo a lógica das leis racionais ético-sociais (os louvores do presente e da posteridade), em prol do cumprimento de um dever absoluto ditado pela fé em um absurdo divino, que lhe comunica uma verdade subjetiva fora do alcance da compreensão dos demais.
A reivindicação do indivíduo subjetivo perante o geral coletivo é um dos grandes trunfos do pensamento ético de Kierkegaard, indo em claro contraponto ao pensamento hegeliano — e aprofundado pelo marxismo —, que colocaria a realização ética do indivíduo na sua integração à lógica racional coletiva, ou seja, às leis e regras da comunidade e do Estado. Para Kierkegaard, ser um indivíduo reconhecido socialmente — ou o pai de família dedicado a uma vida burguesa de autorreprodução econômica e êxito social que escolheu rejeitar — não basta, sendo o indivíduo mais do que uma mera parte funcional do todo.
O cavaleiro da fé e o sacrifício de Abraão
É nesses termos que se desenvolve o fundamento de sua obra: uma exegese sobre a história do Antigo Testamento bíblico, a controversa passagem do Gênesis sobre o sacrifício de Abraão a seu filho Isaac, no qual renunciaria ao dever paterno de proteger sua descendência para matar sua prole em nome do amor a Deus. A narrativa bíblica conta a história do patriarca do povo judeu que, atendendo ao chamado de uma promessa divina, decide partir em segredo com Isaac ao monte Moriá para tirar a vida de seu filho muito amado em oferecimento de holocausto. Empunhando uma faca no momento de sacrificá-lo no altar, seu ato é interrompido por um anjo, que lhe oferece um cordeiro como substituição do sacrifício.
O ato de ousadia de Abraão, incompreensível aos olhos dos mandamentos éticos e incômodo aos pregadores que buscam reduzir a religião a meras fórmulas morais de bom comportamento, somente pode ser entendido, na visão de Kierkegaard, como um movimento místico do Particular ao absoluto, sem mediação ética. Um movimento incomunicável em que o patriarca age como testemunho de uma fé posta à prova por um mandato sobrenatural e que, paradoxalmente, exige a suspensão da mesma ética que lhe foi incumbida cumprir.
A figura de Abraão é incômoda e paradoxal e não admite modulações éticas. Ou é um assassino — o que o colocaria como uma figura plenamente repugnante —, ou um modelo exemplar de fé e de homem fiel à sua vocação. A história narrada a posteriori parece oferecer uma resposta clara. Sabe-se que Deus quis apenas provar Abraão e que não se permitiu o assassinato, sendo Isaac poupado. Mas, à luz do processo vivido por Abraão, a história soa mais incerta em seu desfecho e, portanto, mais terrível do que se imagina.
Que voz interior era essa que ordenou a Abraão tirar a vida de seu filho? E se tivesse sido uma sugestão diabólica? E se o Deus de Abraão o estivesse traindo ao ordenar matar sua descendência? E se a promessa divina de uma descendência numerosa, pela qual perseverou por mais de setenta anos, não passasse de um engodo? Não teria sido melhor ignorar essas dúvidas e angústias, desprezar o chamado e continuar a seguir os mandamentos éticos gerais do dever paterno em nome da conformidade ao todo? Foi justamente o peso dessa angústia e dessa dúvida, que acompanharam os três dias da caminhada até Moriá — sem que em nenhum momento Abraão pusesse em dúvida sua fidelidade à promessa divina —, que o tornou um homem grande e um modelo de fé perseverante.
É em Abraão, tido como figura moral exemplar da fé, que Kierkegaard encontra o modelo central do que denomina o “cavaleiro da fé”, um ideal ético de vida superior que transcende o ideal trágico do mundo clássico. Pois, se o homem trágico sacrifica o que tem de mais valioso em prol de um mandamento ético comunitário superior — como o rei ou o guerreiro que se sacrifica pelo dever à pólis —, os atos do cavaleiro da fé superam os deveres morais gerais e não podem ser traduzidos em termos de um sistema de leis exteriores. Isso o torna indiferente à aprovação ou censura pública; o bem social, as lágrimas e a incompreensão dos demais lhe são alheios diante de seu ato de entrega plena ao dever absoluto. O caso de Abraão torna-se, aos olhos dos gregos clássicos, um verdadeiro skándalon, justificável apenas à luz da fé em um sobrenatural absurdo. Tudo isso se sintetiza na máxima kierkegaardiana: creio e tenho fé porque é absurdo.
Isso não significa que qualquer ação irracional seja justificada se praticada em nome da fé. É nesse ponto que Kierkegaard diferencia o cavaleiro da fé do sectário, uma figura teatral e gregária que, com o apoio de seu grupo, age por impulso vaidoso de aprovação humana. Para alcançar esse grau de fé plena, é necessário atravessar uma sucessão de estágios, entre eles o de já estar plenamente integrado ao sistema ético geral e, ao mesmo tempo, possuir a capacidade de renunciar, com resignação infinita, a todos os benefícios terrenos que esse mesmo sistema oferece — seja riqueza, status e prestígio social em vida, seja a memória glorificada na posteridade.
As fases sucessivas que culminam na atitude de fé são três:
- o ideal de vida estético, vivido pelos poetas e artistas, cuja existência se justifica pela obra criada;
- o ideal ético, no qual o projeto individual se integra às regras do geral, situando-se aí o ideal trágico clássico do sacrifício pela comunidade;
- o ideal religioso, que transcende os dois anteriores e busca uma vida plena por meio da integração solitária e direta do Particular ao Absoluto, numa vida de sacrifício e renúncia em nome da fé no absurdo.
O ideal de fé do homem religioso exige uma renúncia plena aos bens do mundo. Tudo o que possui é dado pelo poder divino, que tanto pode conceder quanto retirar. Assim foi com Abraão e Isaac, dado por Deus após décadas de espera como parte da promessa de multiplicar sua descendência, e que lhe poderia agora ser retirado como prova de amor divino. A atitude de fé é precedida por um movimento de renúncia à justificação do mundo, sem o qual não se pode crer em sua recuperação miraculosa.
Crer no absurdo, segundo Kierkegaard, embora com todas as suas dificuldades, é um ideal acessível a todos, não um dom reservado a eleitos. Trata-se, contudo, de um caminho estreito, de difícil realização prática, no qual poucos persistem. A verdadeira fé não é um sentimento neutro e seguro de si, mas é acompanhada da angústia e do horror ao divino, a Anfægtelse. Viver plenamente a fé implica saber atravessá-la para cumprir o chamado do dever absoluto individual.
Fé e razão
Em resposta ao hegelianismo, Kierkegaard observa que muitos, na modernidade, acreditam superar a fé e o irracional por meio de sistemas de pensamento que prometem segurança, mas evitam enfrentar o paradoxo do real e permanecer no incerto da existência. Ironizando os hegelianos, afirma que, em relação aos seus sistemas, ocorre o mesmo que com o homem que constrói um magnífico castelo, mas passa a viver na guarita do porteiro: não habita o edifício que construiu. Do ponto de vista espiritual, os pensamentos de um homem devem ser sua própria morada; caso contrário, tudo fracassa.
Sua reivindicação da salvação individual por meio da fé em um absoluto sem mediações culturais ou sociais, entregue ao cumprimento incondicional de um dever ditado pela vocação interior, é herdeira da ideia de Beruf, conceito que, como mostrou Max Weber, está intrinsecamente ligado à ética protestante. Trata-se de um reflexo do ambiente cultural luterano dinamarquês no qual Kierkegaard viveu e que seria posteriormente desenvolvido pelos existencialistas do século XX como fundamento de uma vida autêntica, fiel a uma escolha existencial livre.
Uma obra incômoda
Em Temor e Tremor, Kierkegaard rejeita qualquer atitude pedagógica em relação ao ideal do homem crente. Civilizações e culturas transmitem a razão e o conhecimento à posteridade, mas são incapazes de transmitir modos definitivos e gerais de fé, que devem ser sempre retomados a cada geração e a cada vida individual. Cada indivíduo constitui um Particular incomunicável, e por isso ninguém no estágio religioso da fé pode ser tomado como modelo imitável. Assim como Abraão a caminho de Moriá, cada um vivencia à sua maneira a angústia que emerge do confronto com o infinito, e diante da qual resta apenas perseverar no absurdo para continuar caminhando.
Nesse sentido, Temor e Tremor permanece uma obra profundamente incômoda aos cruzadistas morais de qualquer matriz ideológica, que buscam reduzir a fé a códigos de conduta, doutrinas edificantes ou instrumentos de conformação social. Justamente por isso, é leitura indispensável aos não conformados e aos que permanecem inquietos diante do empobrecimento da vida espiritual e do banalismo performático da cultura moderna.
Em pouco mais de cem páginas, seu estilo ensaístico deliberado, embora rigoroso, torna a obra surpreendentemente acessível quando comparada a tratados filosóficos sistemáticos. Em um mundo marcado pela crescente vigilância comportamental, a figura do cavaleiro da fé recorda que a liberdade autêntica não se conquista pela adesão perfeita a sistemas de fórmulas racionais prontas, mas pela disposição de assumir, em silêncio e solidão, o peso de uma escolha absoluta. Nesse sentido, Kierkegaard não oferece consolo nem modelos replicáveis, mas expõe o custo existencial de toda vida que pretenda ser verdadeiramente própria.

Tiago Barreira é doutorando em Filosofia pela Universidade de Santiago de Compostela (USC), possui pós-graduação em Filosofia pela Faculdade de São Bento-RJ e é bacharel em Economia pela Fundação Getulio Vargas Rio (FGV-Rio). Atua como consultor e analista de dados, e escreve regularmente sobre temas relacionados à Economia, Filosofia e Cultura.










