As histórias de Baal Shem Tov e a mística Chabad

Ele vivencia dentro de si, sendo assim a ponte entre dois mundos unidos, um material e outro espiritual, cujo sentido dessa reunião só pode ser realmente inteligido por quem se mostra misericordioso em aprender.

Estevan de Negreiros Ketzer

Psicólogo Clínico. Doutor em Letras (PUCRS). Pós-doutor em Ciências da Religião pelo Labô – Laboratório de Política, Comportamento e Mídia – Labô / Fundação São Paulo/PUC-SP.

Em épocas de mudanças bruscas é tendência da humanidade a busca por sua tradição (massorti) perdida. Contudo, se ela as pessoas perdem as suas tradições seriam elas tão importantes assim? O tempo e suas eras trazem o esquecimento, mas também trazem aqueles que nos ajudam a lembrar. Podemos dizer que a tradição judaica sobrevive por escombros através das eras, com um canto triste, mas de esperança, não só pela sua própria sobrevivência como também pela sobrevivência da própria humanidade.

Pela oração (tefilá) que o povo judeu realiza sempre há um motivo para o tempo continuar, de algum modo, a nos revelar algo profundo sobre nós mesmos e sobre a humanidade. Os homens se regozijam ao esquecerem do quanto a oração não é apenas um ato de repetição, mas é a autêntica confissão (vidui) em busca de redenção, ou melhor, por uma capacidade de mesmo por não saber ainda assim acreditar (emuná). Só se acredita quando a alma abre mão de seu conflito de posição (shatan) e decide trilhar seu verdadeiro caminho em direção à Deus. Assim é a história do rabino Israel bem Eliezer, mais conhecido como Baal Shem Tov (Senhor do bom nome).

Nas antigas terras frias da Ucrânia Baal Shem Tov é peregrino. Ele deve ensinar sem escrever, deixar que os outros aprendam na medida de suas capacidades. Essa tranquilidade é base de um ensino em que o respeito pelo aluno é algo fundamental. Deve então haver um ardor de êxtase (hitlahavut), cujo escopo se dirige a todo aquele que conhece seus limites.

No êxtase tudo o que é passado e o que é futuro se aproxima do presente. O tempo encolhe, a linha entre as eternidades desaparece, só o momento vive e o momento é eterno. Em sua luz indivisa aparece tudo o que era e tudo o que será, simples e composto. Está ali como uma batida do coração ali está e torna-se, como ele, perceptível (BUBER, 2003, p. 25).

Quantas vezes durante o enfrentamento de uma situação difícil ela se resolve de forma tão simples? Não é mero milagre sem explicação, senão, antes, a forma de aprender a escutar Deus em como ele quer se apresentar a nós. Esse aprendizado na errância das situações, com a solidão, ajuda também aquele que aprende a se aproximar de Deus. Ele cala quando gostaríamos que falasse para também nos ajudar no aprendizado para escutá-lo nesse silenciamento. Ali aprendemos a nos escutar, pois, estamos diante de nossas verdadeiras necessidades. Talvez venha desse primeiro exercício espiritual o êxtase místico profundo, “simples e composto” como observou atentamente Martin Buber em sua leitura das lendas chassídicas sobre Baal Shem Tov. Isso implica uma observância muito atenta, mas pelo desenvolvimento de uma sensibilidade.

É dito de um tzadik [santo]; “Com ele, o ensinamento, a prece, a alimentação e o sono são todos uma só coisa, e ele pode elevar a alma à sua raiz”. Todo o agir unido em uma única ação e a vida infinita contida em cada ato: isso é avodá [trabalho]. “Em todos os atos do homem – no falar, no olhar, no ouvir, no caminhar e estacar e no deitar – o ilimitado está vestido” (BUBER, 2003, p. 30).

A unidade de todas as coisas se mostra quando desvendamos a parte que nos pertence diante ao aparente anonimato de nossas ações. As ações devem sempre ter um propósito (kavaná) para que assim os desejos se liguem uns aos outros pela unidade. Cada história de Baal Shem Tov, por mais absurda ou impossível que pareça, possui por trás dela uma importância singular para cada um que a lê. Ele vivencia dentro de si (betuch atzmo), sendo assim a ponte entre dois mundos unidos, um material e outro espiritual, cujo sentido dessa reunião só pode ser realmente inteligido por quem se mostra misericordioso (rachum) em aprender. Ele assim se torna rigoroso (chumra) consigo próprio. A união desses dois atributos (middot) leva a um estado de conexão, uma vez que a partícula alcança novamente a palavra de Deus (ha-dibur). A palavra só se oculta (yechss’ter p’nimi), pois a chama espiritual da qual ela descende chega a níveis cada vez mais separados de Deus.

Contudo, em relação a D’us, nenhum encobrimento ou ocultamento esconde ou oculta o que quer que seja d’Ele; para Ele, “ ‘escuridão’ (ocultamento) e ´luz´ (revelação) são iguais”, como está escrito: “Nem mesmo a escuridão pode ocultar [algo] de Ti” (LIADI, 2017, p. 340).

O homem aprende nos livros sagrados as centelhas da faísca de Deus. É ali que ele voa como o pássaro, pois dá liberdade ao seu coração. Uma liberdade que não é desregrada, mas guiada pela luz divina. O homem judeu percebe tal como no Cântico dos Cânticos (Shir ha-shrim) o quanto Israel é sua terra, não apenas material, mas espiritual. Essa afinidade com o espaço também liga Deus a Israel. Assim, nós vemos o quanto a matéria é capaz de se aproximar do celestial sem se ferir com a emanação de Deus. Tal como um copo que contém a água, mas não se imiscui nela, o aluno (talmidim) aprende a receber (lekabel) o ensinamento que Deus quer lhe passar.

Nenhuma prece é mais forte em graça e penetra em voo mais direto através de todos os mundos celestes do que a do homem simples que nada sabe dizer e sabe oferecer a Deus somente os inquebrantados deveres de seu coração. Deus os acolhe como um rei acolhe o canto do rouxinol em seus jardins (BUBER, 2003, p. 33).

Antes de imaginarmos meditações profundas em termos de espiritualidade é sem sombra de dúvida a importância da intenção (kavaná) o modo de decifrarmos qual é a finalidade de nossas ações. A espera do messias é algo que toda a comunidade judaica faz para com esse gesto ir gestando a redenção com ações adequadas. Essas ações não são apenas os mandamentos (mitzvot), também é no coração o primeiro mandamento deve ser cumprido com justa clareza sobre o que nos liberta de nossas prisões de vida.

Lugares que estão carregados de centelhas não recolhidas, esperam pelo homem que virá até elas com a palavra da liberdade. Quando um hassid [piedoso] não pode rezar em um lugar e vai para outro, então o primeiro lhe pergunta: “Por que não quisestes pronunciar sobre mim as palavras sagradas? E, se existe o mal em mim, depende de ti me redimir”. Mas também, todas as viagens tem destinos secretos dos quais o viajante não é cônscio (BUBER, 2003, p. 39).

E isso exige do homem um esforço de grandes proporções, pois não é simples sair do lugar. Talvez o peso para alguns o pesa seja tão grande que não se cumpra em uma vida o que ele deve fazer, mas ao menos começar a tentar. Isso também é parte essencial da intenção (kavaná) correta. Ela nos ajuda a dar a santidade “como se você entrasse na palavra” (BUBER, 2003, p. 41). Assim, Deus, mundo e ser humano compartilham do mesmo lugar, encontrando no êxtase (hitlahavut) com as coisas.

A sabedoria (chochmá) não possui qualquer revelação (itagalut), ela é antes de tudo um estado possível para a nova criação (ietsirá). Por isso também o amor deve seguir um ritmo parecido como algo solitário e despreocupado ao mesmo tempo. Um estado de alma contraditório, porém, sóbrio o suficiente para ser capaz de se relacionar com as coisas em suas propriedades reais. O sábio (tsadik) incorpora o mundo em si mesmo também para curá-lo de alguma forma e aí reside toda o florescimento e o mistério (ta’alumot) de um contato único e, portanto, especial.

גַּל־עֵינַי וְאַבִּיטָה נִפְלָאֹות מִתֹּורָתֶךָ

/ Gal einai ve’abitah nifla’ot mittoratecha /

“Abra meus olhos para que eu possa ver as maravilhas da tua Torá”

Salmo 119:18

Referências:

BÍBLIA hebraica. Tradução de David Gorodovits e Jairo Fridlin. São Paulo: Editora Sefer, 2016.

BUBER, Martin. A lenda de Baal Schem. Tradução de Fany Kon e Jacó Guinsburg. São Paulo: Perspectiva, 2003.

LIADI, Shneor Zalman de. Likutei Amarim Tanya. Comentado por Rabino Yosef Wineberg. Tradução de Eliahu Wasserman. Rio de Janeiro: Editora Beith Lubavitch, 2017.

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Estevan de Negreiros Ketzer é psicólogo clínico (PUCRS), com mestrado e doutorado em Literatura (PUCRS). Realizou pesquisa nos arquivos do IMEC, na França, em 2015. Assessorou a Uniritter na implementação do curso de Escrita Criativa em 2016. É pesquisador do Núcleo de Estudos Judaicos (NEJ) da UFMG e pós-doutorando em Literatura (UFMG).

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